Spiga

'Os Bêbados' revisitado


Foi numa destas noites frias de Janeiro. Noite estrelada e cristalina de Inverno, seguia de moto pela estradinha ladeada por freixos e plátanos, aos pés do Castelo de Óbidos. Ao cruzar a linha do comboio, vejo um pequeno ajuntamento de gente. Logo a seguir, vejo irromper cidadãos por entre os caniços e as moitas, ziguezagueando. Um quadro que me deixou desconcertado. De onde viria aquela gente que brotava da vegetação e dos penedos calcários, em, plena noite? E porque parecia que tinham todos levado uma carga de pancada?

Por momentos imaginei que alguém lhes tivesse batido, ou que tivesse ali havido alguma espécie de acidente. Eis que se aproximam dois indivíduos que trazem em braços um terceiro que aparenta estar inconsciente. Solícito, resolvo parar e ofereço a minha ajuda.

Responde-me um deles, extremamente irritado e ameaçador: "Ó amigo!!! Desculpe lá!!! Desculpe lá!!!...".

Surpreendido, segui viagem. Se esta história estivesse a ser contada em banda desenhada (quadrinhos), nesta altura via-se um homenzinho numa moto com um gigantesco ponto de interrogação sobre a cabeça.
Chegado ao destino, contei o sucedido ao amigo António Luís, parceiro de lides espíritas e colaborador deste blogue. E não é que ele começou a rir-se!!! O ponto de interrogação cresceu ainda mais um bocadinho.

"Ó André, mas tu não sabes que hoje é a festa de Santo Antão?".


Pois não. Não me lembrava. E aí ri também. Os cidadãos tinham tido realmente um acidente. Mas benigno. Desciam do alto da escarpa onde fica a ermida dedicada ao santo, mas a corta-mato, quase rebolando encosta abaixo, sob o efeito das litradas de vinho tinto com que tinham festejado até ser noite cerrada. Santo Antão foi um eremita cristão do século III, que levou uma vida frugal, no deserto, a partir dos 20 anos. É pouco provável que tenha provado chouriços e vinho tinto. Mas é assim que o lembram em Óbidos.

Quando eu era adolescente costumava fazer gazeta às aulas, juntamente com os meus colegas, para ir até à "festa do chouriço". Bebíamos uns púcaros, passeávamos pela vila e assistíamos às celebrações religiosas. Mas como os tempos de fazer gazeta passaram, também me passou a data da festa.

Ontem, na palestra pública espírita a que assistia, passou o slide do famoso quadro de José Malhoa, conhecido como "Festejando o S. Martinho", ou "Os Bêbados". E lembrei-me do episódio recente da noite do dia 17, quando talvez tenha encontrado, reencarnados, alguns dos bêbados que serviram de modelo ao artista, em 1907.

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2 comentários:

Dilmar Gomes

4.2.12

Interessante o seu relato, amigo.
Um abraço daqui do sul do Brasil, no momento em que faz forte calor de verão.

André

4.2.12

Olá Dilmar,

Obrigado.

Bonito bonito vai ser o Carnaval que se aproxima, e que de há uns anos a esta parte os portugueses teimam em fazer em muitos lugares à maneira brasileira, com desfile ao ar livre. Imagine só, as sambistas portuguesas, de bikini, a tremerem de frio e com o pingo no nariz :-)

Se a TV portuguesa estiver para aí virada, conto ficar em casa, bem agasalhado, a torcer pela Beija Flor :-)

Abraço,

AA

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