
A notícia do Correio da Manhã dá conta da polémica em Albufeira, Algarve:
Um jazigo em forma de paralelepípedo, com estrutura de metal e tijolo-burro à vista, construído no cemitério de Albufeira, em Brejos, está a causar polémica. A obra, aprovada pelos serviços camarários, surpreendeu os munícipes e até o vereador do pelouro, José Sequeira, que agora quer "minimizar o impacto" e criar regras para aquelas construções.
A avaliar pela imagem, o minimalismo do jazigo em questão choca mesmo com o estilo neoclássico, conservador, dos jazigos dos cemitérios portugueses. Mas afinal de contas não é diferente do que se passa fora das paredes dos cemitérios, em Portugal e no Mundo. As casas, as ruas, as praças, os jardins, todo o território habitado, que dantes era edificado organicamente e com esmero, tem sofrido uma brutal terraplanagem e dado lugar a espaços traçados a régua, esquadro e cimento (concreto).
E toda a gente encolhe os ombros e diz, resignada: "Que fazer? É o progresso...".
Pelos vistos cá em Portugal os cemitérios ainda escapam à onda de uniformização e mediocridade ditada pela regra do lucro fácil e da mecanização progressiva do Homem. Os albufeirenses querem a paisagem do seu cemitério protegida. E eu cá acho bem. Mas aproveitem para considerar o seguinte:
Até agora, nos cemitérios, as pessoas dividem-se em quatro classes. Tal como cá fora, aliás. Os ricos vão ocupar os jazigos. Os remediados recebem uma campa revestida a mármore, com direito a inscrição. Os pobres contentam-se com uma campa rasa, que é um montinho de terra com uma cruz e umas flores de plástico. E os indigentes vão para a vala comum.
Já que somos um país maioritariamente cristão, porque não seguirmos o exemplo dos anglo-saxónicos, cujos cemitérios são lindíssimos jardins, calmos e inspiradores, onde o esmero artístico vai para o conjunto, em vez de se concentrar na perpetuação da condição económica e social de cada falecido? Sermos iguais perante a morte é cristão ou não é? E um jardim aprazível é mais inspirador que um cenário sombrio e triste...
Ou podemos fazer como em alguns países da Ásia, em que são admitidos sem problemas monumentos funerários que podem reproduzir gostos ou traços da personalidade do defunto, assumindo formas que podem ser tão bizarras como as de um frasco de ketchup ou de uma carapaça de uma Tartaruga Ninja. Sentido de humor é que é preciso, e afinal, a cidade de Las Vegas, nos EUA, é toda construída nesse conceito. E ninguém morre por causa disso - se me permitem o trocadilho fácil.
Eu ainda não decidi que destino terá a minha pobre veste carnal quando chegar a hora de regressar ao mundo espiritual. Interessa-me tanto como o destino de uma roupa que se torna imprestável após muitos anos de uso. Mas sobre esta questão, a decisão mais interessante de que já tive conhecimento foi a de Homer Simpson, que deixou expresso à sua querida Marge que quer ser embalsamado e sentado no sofá da sala, para ser uma constante lembrança dos votos de matrimónio. Gostava de lhe seguir o exemplo, se tivesse coragem para tal, mas no meu caso não se trata de ciúme. Não me importo nada que a senhora Afonso refaça a sua vida após o meu passamento. O que me daria satisfação era divertir a criançada e ver a cara das visitas perante tão invulgar peça de arte! Muito mais apelativo que um prosaico jazigo, não acham?

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