Spiga

Cuidado com os charlatães - 5

VENDEDORES DE MILAGRES


Nem de propósito, agora que ando a fazer esta série de textos sobre a charlatanaria, cheguei ao parque de estacionamento e dei com um mar de folhetos como que reproduzo acima. Como tiveram a amabilidade de me deixar um, digitalizei-o, tapando os contactos, e a seguir comentarei o texto.

A quem agora tenha aqui chegado, e por isso tenha "apanhado o comboio em andamento", recordo que este é o 5º post desta série intitulada "Cuidado com os charlatães". O texto faz sentido integrado na sequência e perderá algum sentido se for lido isolado.

A nossa ideia ao abordarmos este tema da charlatanaria foi:

1º - Tentar dar uma resposta geral às muitas mensagens que recebemos pedindo a nossa opinião e a visão espírita acerca de temas como o 'mau olhado', as feitiçarias, a magia, a adivinhação, o 'encosto', o 'corpo aberto', os amuletos, as maldições, e outras crendices.

2º - Contribuir mais uma vez para desfazer equívocos quanto ao uso do termo 'espírita', que, por ignorância ou má-fé ainda continua a ser confundido com 'médium'. Recordamos que 'espírita', ou 'espiritista', é o simpatizante da filosofia espírita. E que 'médium' é qualquer pessoa dotada de mediunidade, também chamada paranormalidade ou percepção extra-sensorial. Espiritismo é uma filosofia, uma Ideia. Mediunidade é uma faculdade orgânica.

Manda o 'nacional-porreirismo' português que não se toque nestes assuntos. A ideia é que 'coitados dos homens, pá, que andam a fazer pela vida'. E verdade seja dita que nós não temos procuração para escrutinar casos de charlatanaria - nem queremos. Mas reiteramos que mais consideração nos merecem as pessoas desesperadas que caem em contos do vigário, do que mandriões-espertalhões que as exploram.

A pessoa que se anuncia no panfleto diz-se astrólogo. Aqui nada a opor. Astrólogo é uma profissão legalmente reconhecida em Portugal. Quem não acredita (é o meu caso), não acredita. E quem acredita, sabe ao que vai.

Declara depois o anunciante ser grande médium vidente. Há muitas pessoas que têm a faculdade da mediunidade, apesar de não o publicitarem nem o fazerem imprimir em panfletos. E dessas pessoas, muitas têm a faculdade da mediunidade de vidência. nada de especial. E aqui já começa o aproveitamento da desinformação geral acerca destas coisas. Quem se anuncia, seja ou não 'médium vidente', parte do princípio de que isso o torna especial.

E mais: diz-se um 'grande' médium vidente. O que definirá um 'grande' médium vidente? A altura?... Nestas coisas não há 'grandes' nem 'pequenos'.

A seguir a coisa desaba: de uma assentada, o nosso homem faz logo declaração de infalibilidade a resolver, por artes das 'ciências ocultas', um leque de problemas que inclui, em letras garrafais: emagrecimento(!), droga, tabaco, álcool, problemas financeiros, casamento, impotência e... sorte ao jogo!

Poderíamos ficar já por aqui. Quem, no seu perfeito juízo, acredita que um indivíduo que se diz 'especialista em ciências ocultas' consegue, com mezinhas e rituais esdrúxulos, que os seus cientes deixem de fumar, de beber ou de consumir estupefacientes? Que os misteriosos encantamentos do 'Professor Não Sei das Quantas' resolvam problemas de impotência ou dificuldade de engravidar? Que uma ida ao poderoso mago endireite a situação financeira ou o casamento?

Quem estiver no seu perfeito juízo, é claro que não acredita. O problema é quando o desespero fala mais alto e as pessoas perdem o juízo.
Nessas alturas, pensa-se ver a saída no irracional, porque muitas vezes a via racional não dá frutos. Diz o velho ditado que quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Mas nestas alturas, esses singelos pilares de bom-senso são esquecidos. O desgaste emocional faz com que se vislumbrem miragens, em vez de se aceitar que há problemas que pedem muito empenho e paciência para serem resolvidos. E os vendedores de milagres aproveitam.

Continuaremos com este tema.

Partilhe este artigo:

0 comentários:

Enviar um comentário