Na sexta-feira tive oportunidade de rever a obra cinematográfica 'Nosso Lar', baseada no livro homónimo de Chico Xavier. Conta a história de um médico brasileiro que desencarna (que morre, para os não espíritas), e que, contra a crença que professou na Terra, descobre que afinal a Vida continua do lado de lá, no Além.
Quem não crê na vida após a morte, não crê e pronto. Mas quem crê, talvez já se tenha interrogado sobre em que moldes se processa a nossa chegada ao mundo espiritual. Uns acreditarão que se vai imediatamente para o céu, para o inferno ou para o purgatório. Outros acreditarão que se dorme até ao dia do Juízo Final, e que nesse dia a Humanidade terrena ressuscitará e será distribuída pelas três supracitadas dependências. Outros ainda (como nós, espíritas) acreditam que o céu, o inferno e o purgatório não são lugares físicos, nem definitivos, mas símbolos de maior ou menor felicidade no além-túmulo, consoante a nossa vida tenha sido mais ou menos proveitosa na aprendizagem e na prática do bem.
Nas obras básicas do Espiritismo (as comunicações do mundo espiritual que foram compiladas e publicadas por Allan Kardec), os Espíritos dizem que nos falta termo de comparação para entendermos as coisas de lá, de tal forma são diferentes, e de tal forma o nosso mundo é cópia imperfeita do mundo dos Espíritos. Entendo, por isso, que 'Nosso Lar' talvez não seja literal, e que retrata apenas uma ínfima parte do mundo dos Espíritos. Só na Terra temos, aliás, uma tal variedade de paisagens, climas e culturas, que se torna difícil conhecer tudo numa só vida.
Mais que pelos pormenores 'técnicos' da forma e do funcionamento da vida no Além, 'Nosso Lar' vale pelo conteúdo intensamente cristão, que nos faz vibrar de esperança, felicidade e e amor. Imagino alguém que jamais tivesse ouvido falar de Espiritismo, e que, como a maior parte das pessoas, tivesse uma ideia vaga (ou até nenhuma ideia) sobre a continuidade da vida. Imagino a diversidade de reações possíveis:
Uns diriam que o filme é uma grande tolice - e estariam no seu pleno direito. Mas talvez muitos outros se interrogassem, quiçá pela primeira vez, sobre o que nos espera após esta vida. E a consciência da continuidade da existência não é uma ideia supérflua. Afinal, trata-se do nosso futuro...
Medito sobre o que de bom uma obra destas pode despertar nos espectadores. Ainda que não sejam espíritas, ainda que tenham as suas religiões ou filosofias, ainda que não tenham nenhuma, 'Nosso Lar' não apela a outros valores que não a paz, a tolerância, a dignidade, o serviço ao próximo, e todas essas coisas que podemos simplesmente exprimir na palavra Amor.
"Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a vós mesmos".
Gostava de ver 'Nosso Lar' na Televisão. Nesta quadra natalícia a RTP 2, Televisão pública portuguesa de grande qualidade, aberta à diversidade cultural e à excelência de conteúdos, promoveu um ciclo Pedro Almodôvar. E muito bem, na minha opinião. Vejo com muito bons olhos o regresso da independência que sempre foi imagem de marca desta estação televisiva. E vi alguns dos filmes. Não sou um cinéfilo, de forma alguma, mas de bom grado admirei a arte do realizador espanhol. Não é propriamente uma experiência agradável, porque as histórias são o retrato de muitas das agruras deste nosso mundo ainda tão imperfeito. E por isso funcionam como alerta, como denúncia, como apelo à marcha para um mundo melhor. Pelo menos eu assim entendo.
Mas não pude deixar de pensar que os retratos crus das imperfeições do nosso mundo ainda são quási hegemónicos no panorama cultural. Pelo menos nos círculos onde o crivo da qualidade é mais apertado. É compreensível, pois um realizador de Cinema, por exemplo, melhor reflecte e trabalha sobre o que conhece do que sobre o que a Humanidade ainda mal sonha.
Ainda assim: entre os ciclos Almodôvar, Fassbinder, Bergman, Truffaut, não caberia um 'Nosso Lar'?... Ou um 'O Filme dos Espíritos'? Ou um 'Chico Xavier - o Filme'? Ou um 'As Mães de Chico Xavier'? A bem da diversidade, pelo menos.
Quando tenho uma coisa muito boa, não gosto de a guardar só para mim. Gostava de compartilhar estas obras com mais gente.
“A DOUTRINA ESPÍRITA ENSINA A PENSAR, E NÃO O QUE PENSAR”.
"... porquanto estudar os Espíritos é estudar o homem ..." Allan Kardec
Máximas e imagem retirados do site do programa Muitas Vidas.


1 comentários:
6.1.12
Caro André,
Espero que o meu amigo e todos os visitantes estejam bem de saúde e generosamente claros de Espírito.
Quanto ao filme Nosso Lar na televisão, no "tal" canal do serviço público e da qualidade cultural, esperemos mais uma geração.
De qualquer jeito seria exibido como todos os outros filmes, "como quem vende arroz e massa" nas prateleiras de uma mercearia tosca.
Já viu alguma vez na televisão uma obra de arte cinematográfica apresentada previamente com recomendações adequadas e discutida posteriormente de forma a possibilitar uma leitura inteligente e sensível?
Eu pela minha parte nunca vi e por isso digo, com amargo sentimento da verdade pura (que nunca é simples), de que eles enfiam pela boca abaixo da sua própria má consciência um sucedâneo preguiçoso e enfastiado de pseudo-serviço-público.
Serviço público e de grande profundidade é dispensado ao futebol, comentado e escalpelizado antes, durante e depois, por uma tribo "implicada" de Xamãs verborrentos e cheios de prosápia político-filosófica.
Sabe uma coisa André? No "meu tempo" o espiritismo era proibido e clandestino e hoje, só não se informa quem não quer!...
A informação e os recursos de toda a ordem pecam apenas por mal arrumados e excessivos, sujeitos às possíveis distorsões de alguns espíritos confusos. Mas também não se pode ter tudo, como é evidente.
Para arrumar a prateleira das ideias cá está o Blog de Espiritismo e a sua gente boa!...
E já agora, a respeito do filme "Nosso Lar":
- Vi o filme com enorme comoção e entusiástico sentimento de esperança. Já viu, estarmos um e outro, sentados conversando à beira de um lago, frente ao jardim da música, envolvidos pela corrente franca e invasora duma intensa alegria espiritual?
Com certeza já viu e sente tudo isso exactamente da mesma forma que se entrega com vontade e alegria à sua abnegada tarefa de formador e informador de quem vier aqui lê-lo, e... não só.
Tenho uma fugaz esperança de (ainda) poder um dia vir a ser útil à divulgação da cultura espírita. Já não falo da "doutrina" propriamente dita, que me parece um encargo muito volumoso.
No local onde habito não há centro ou comunidade activa mas, quem sabe, Deus ajudando talvez possa um dia vir a "dar uma mãozinha", tarefa para que me preparo afanosamente!...
No trajecto da viagem que tenho efectuado em torno do "Nosso Lar" descobri uma enorme variedade de coisas valiosíssimas que nos revelam de forma muito ampla e sugestiva todo o universo indescritível das esferas do Mundo Espiritual.
E descobri uma coisa que já muita gente sabe: esta informação a que o século XX veio conferir justo espaço, já é antiga e tem muitíssimos testemunhos convergentes e concordantes, que entre si se ajudam e que mutuamente se confirmam no seio generoso da nossa "CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO".
Hoje menciono apenas uma obra com muitas informações preciosas que que sugiro a todos os visitantes:
"A CRISE DA MORTE" de Ernesto Bozzano, à qual penso dispensar alguma atenção e divulgação à janela do meu blogue.
Um abraço a todos, felicitações e estímulo à óptima equipa do Blog de Espiritismo e a si, André, muito obrigado pela atenção dispensada.
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