Spiga

Moto Contínuo :-)




O equívoco:


«Rio de Janeiro contrata espírita para travar chuva

O espectáculo da passagem-de-ano está preparado na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, onde são esperadas dois milhões de pessoas, das quais 500 mil são estrangeiros. Música, baile e um dos fogos de artifícios mais espectaculares do mundo não vão faltar. O que os responsáveis ‘cariocas' não querem é chuva.

Os meteorologistas prevêem uma chuva muito forte para a noite de amanhã, o que poderia impedir o espectáculo. O presidente da Câmara do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, quer contrariar as estimativas dos especialistas e, por isso, contratou uma armada de peso: magos, espíritas, curas e pastores evangélicos para que juntos impeçam a queda de precipitação.

A grande estrela é a espírita Adelaide Scrittori, da Fundação Espírita Cacique Cobra de Coral, que assegura ser capaz de incorporar um espírito que influencia a meteorologia. "Toda a ajuda espiritual é válida e bem-vinda", afirmou o presidente Paes, sustentando que os ‘cariocas' não sabem terminar o ano e entrar no seguinte sem uma explosão sensual de alegria.»


A correcção:


A pessoa contratada não era obviamente espírita. A tal fundação 'Cobra Coral' tem 'espírita' no nome, como muitas associações têm as mais estapafúrdias designações que não correspondem ao conteúdo. Há universidades que não são universidades, há curandeiros que se dizem mandatados pelo Papa, há institutos médicos que não têm lá dentro um médico que seja, enfim, há gente para tudo. Mas neste caso há mais que isso:

No Brasil, durante o período da Ditadura, todas as religiões e filosofias espiritualistas foram perseguidas (como aconteceu em Portugal, aliás), à excepção da religião católica. No entanto, no Brasil, a filosofia espírita escapou a essa perseguição. As associações religiosas da Umbanda, do Candomblè, e outras, aproveitaram (e muito bem, acho eu), essa excepção, e legalizaram-se com o a designação de 'espíritas'. Só assim escaparam à clandestinidade.

Esta tal fundação possui a designação 'espírita' no nome por via dessa ocorrência histórica. Com todo o respeito pela referida fundação, e por todas as religiões e filosofias, o Espiritismo jamais se presta a coisas tais como 'fazer chover'. O Espiritismo é fé raciocinada e Cristianismo na sua mais simples expressão, contendo vertente filosófica, moral e científica.

O Espiritismo é uma doutrina filosófica perfeitamente delimitada em termos de conteúdo e âmbito, nas 5 obras básicas, de seus nomes 'O Livro dos Espíritos', 'O Livro dos Médiuns?, 'O Evangelho Segundo o Espiritismo', 'O Céu e o Inferno' e 'A Génese'. O Espiritismo é cultura, e os espíritas são pessoas com as suas profissões e famílias, que se dedicam a esta filosofia de forma RIGOROSAMENTE GRATUITA. Infelizmente ainda há pessoas superficiais e com pouco conhecimento do que falam, e que continuam a confundir Espiritismo com mediunidade, que é uma faculdade orgânica, natural em todos os seres humanos.

E há também a Imprensa tendenciosa, como é o caso da agência que veiculou esta notícia, e que é fortemente anti-espírita, porque subordinada a um grupo económico que é também uma religião recente e muito poderosa, que pretende o exclusivismo. Como a doutrina espírita é pelo livre pensamento e pela liberdade religiosa, tem estado sempre na mira dos fundamentalistas. Em Espanha, durante a ditadura de Franco, foram fuzilados espíritas. Em Portugal amargaram as prisões da PIDE nos tempos de Salazar.


O equívoco:


«Não devemos se apossar de uma palavra, por que espiritismo ou espirita só significa um determinado tipo de devoção, não podemos simplificar a tradução de espirita para apenas um determinado tem tipo de crença, pois incorremos no erro de achar como ao longo da história que se não for icar não é cristão e sim pagão, cuidado com as ideologias que colocam palavras com apenas um significado de fé e o resto esta errado.»


A correcção:



Caro amigo,

Há palavras com sentido geral e palavras com sentido restrito. Vamos a um exemplo: 'Andebol' é a palavra que designa um desporto colectivo, com bola, jogado com as mãos. Futebol é com os pés, futebol americano é com os pés e com as mãos. Possuem as suas regras, de federações a sua estrutura organizativa. Se eu me referir a um jogo de andebol como sendo de futebol, estarei a baralhar as coisas. Já o termo 'desporto', por exemplo, tem um sentido mais amplo, referindo-se a actividades físicas e intelectuais competitivas ou lúdicas, e eventualmente pode ter outras conotações, por exemplo, "Fulano de tal aceita as contrariedades com desportivismo", ou "Sicrano trabalha por desporto".

O mesmo se passa com o termo 'Espiritismo', que tem um significado perfeitamente delimitado. Antes de 18 de Abril de 1857, jamais o termo Espiritismo tinha sido usado. A palavra aparece pela primeira vez na obra 'O Livro dos Espíritos', compilada, comentada e publicada por Allan Kardec, polimata francês, que a redigiu com base em comunicações mediúnicas recebidas em grupos espalhados pelos 5 continentes (cerca de mil grupos).


Desde então, a Doutrina Espírita, ou Espiritismo, tem desenvolvido o seu trabalho de divulgação, de esclarecimento e de filantropia. As associações espíritas são grupos devidamente legalizados, são mantidas com as quotizações dos seus fundadores e desenvolvem as suas actividades de forma rigorosamente gratuita, não constituindo mais uma religião, ou mais uma seita, nem configurando práticas de ocultismo, magia, adivinhação ou quejandos. O Espiritismo é Cultura, e os espíritas (simpatizantes do espiritismo), têm as suas profissões, as suas famílias e as suas obrigações sociais, como qualquer cidadão. O Espiritismo está representado por federações nacionais, continentais, regionais e pelo Conselho Espírita Mundial. Existem diversas associações de Divulgadores de Espiritismo, como por exemplo, em Portugal a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, cujos membros, nas suas horas vagas e a expensas próprias, promovem palestras públicas, sessões de esclarecimento e outras iniciativas, por todo o País,

O Espiritismo demarca-se veementemente de práticas como as descritas nesta notícia, que considera do campo da crendice, e acima de tudo, o Espiritismo deplora a exploração comercial da Fé. O Espiritismo luta pelo primado da Ciência e da Razão, e pela liberdade de consciência e esclarecimento. Dito isto, deve entender que é abusiva a apropriação de uma designação para a aplicar a práticas e idiossincrasias totalmente opostas.

Que as pessoas paguem a quem prometa chuva, que as pessoas gostem de consultar magos e adivinhos, que as pessoas gostem de pagar para as livrarem do 'mau-olhado', e etc., etc., estão em seu pleno direito. Chamar a essas coisas Espiritismo, decididamente, NÃO.

Imagine que aparecia aí uma organização de charlatães a vender a cura da SIDA através de salsa (já aconteceu), e que esse grupo resolvia dizer-se, por exemplo, Cruz Vermelha Portuguesa. Obviamente que era um abuso. Ou pelo menos uma patetice e uma chiquespertice saloia de todo o tamanho!


(continua eternamente)

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