Spiga

Em nome de Deus?



Aos domingos costumamos evitar temas pesados. O domingo é um dia pouco convidativo para pensar, por qualquer motivo. Mas há notícias que nos obrigam a fazê-lo. Hoje, na Nigéria, os massacres de cristãos tiveram mais um horrendo capítulo, com mais 178 assassínios perpetrados pelo grupo de islamistas do Boko Haram.

Não é preciso sairmos aqui da velha Europa, contudo, para encontrarmos conflitos com motivação parcialmente religiosa. Com mais ou menos política à mistura, na Irlanda do Norte , católicos e protestantes continuam a odiar-se mutuamente, e os confrontos ainda ocorrem. Em Portugal, a Santa Inquisição vigorou até ao século XIX, com o seu cortejo de horrores. Ao contrário do que se pensa, a Reforma e Contra-Reforma não motivou apenas a queima de seres humanos por parte dos católicos. Os protestantes tiveram a sua conta de execuções nas fogueiras.

Já em pleno século XX, aqui em Portugal, a implantação da República trouxe consigo tenaz perseguição e assassínio de pessoas crentes, com destaque para os católicos, que estavam na primeira linha dos visados pelo Golpe de Estado inspirado pela Maçonaria Portuguesa, e pelo seu braço armado, a violenta Carbonária.

Os espíritas portugueses também conheceram a perseguição do regime totalitário de Salazar, mas ainda assim tiveram melhor sorte que muitos espíritas espanhóis, fuzilados pelo regime Franquista, em Espanha.

Perante tanta desgraça perpetrada em nome da religião, há quem avente que a Humanidade melhor faria em desembaraçar-se dela. No entanto, e só no século XX, os genocidas recordistas foram José Estaline (62 milhões de mortos); Mao Tsé Tung (32 milhões) e Adolfo Hitler (21 milhões). Todos os três regimes eram oficialmente ateístas.

A tão louvada Revolução Francesa, primeiro regime a abolir oficialmente Deus, começou, aliás, logo com o pé esquerdo (trocadilhos à parte), executando sem pudor quem não partilhasse dos seus postulados filosóficos. Os padres católicos constituíram grande fatia das vítimas de uma revolução que apregoava Liberdade-Igualdade-Fraternidade...

Ainda há poucos anos, aqui na Europa do Sul, o presidente norte-americano George Bush, qual César da nossa era, bombardeava cidades Jugoslavas, a pretexto de restaurar a democracia e assumindo-se detentor de procuração divina.

Uma lista de crimes cometidos em nome da religião, ou contra a religião, seria infelizmente uma Enciclopédia em vários tomos. O que urge perguntar é se cada um de nós, sejamos crentes ou ateus, somos coerentes com as nossas crenças. O que diria o Maomé sobre o massacre de hoje na Nigéria? O que diria Jesus de Nazaré sobre as queimas que católicos e protestantes levaram a cabo mutuamente durante séculos? O que diria Karl Marx sobre a violência de tantos regimes que se dizem marxistas?

Repito: as motivações destes tristes casos de violência nem sempre são exclusivamente religiosas, mas o simples facto de os perpetradores se dizerem religiosos, devia chegar para os fazer pensar. Não pensam. Assumem a religiosidade como um emblema em nome do qual dão largas aos seus baixos instintos. Por serem portadores do emblema "certo", assumem agir em nome de Deus.

(Que nos sirva de reflexão a todos, independentemente da crença que cada um professe. Será que em contexto favorável, também daríamos vazão aos baixos instintos que todos ainda transportamos? Será que no nosso dia-a-dia, mesmo não matando ninguém, nunca nos julgamos detentores de procuração divina?)

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2 comentários:

Anónimo

12.2.12

Estaline (62 milhões de mortos); Mao Tsé Tung (32 milhões) e Adolfo Hitler (21 milhões). Todos os três regimes eram oficialmente ateístas"

Errado. Stalin e Mao sustenatavam sim um comunismo anti-religiões, sim, mas "Adolfo" Hitler e o nazismo tinham orientação católica (tratados com o Vaticano e tudo). Francamente, um grupo odiador de judeus porque "mataram Jesus" que adornava seus soldados com "Deus é conosco" nos uniformes e que batalhava com fúria sempre crescente a "ameaça vermelha sem fé" do comunismo rejeitador de religiões, tinha como fundamento justamente o ateísmo? é dose de cavalo!

André

12.2.12

Olá amigo,

Sem entrar em cavalidades, sugiro-lhe que raspe um pouco além da superfície do assunto em pauta.

Um tratado com um Estado não pressupõe que se adira à religião oficial desse Estado, obviamente.

Mas mais que isso são os fundamentos filosóficos do socialismo de Hitler, também chamado o Comunismo Alemão. E esses estão por exemplo em Frederico Nietzsche, furiosamente ateísta e anti clerical. Hitler perfilhava a ideia do Deus-Homem, que se bastaria a si mesmo, e considerva as religiões como obstáculos a uma "emancipação" do ser humano, e nomeadamente da "raça superior".

Hitler rejeitava determinantemente o Cristianismo, uma Ideia proveniente "de um judeu", e repugnava-lhe o conceito da caridade cristã para com os mais fracos. Segundo o Nazismo, os mais fracos devem ser aniquilados pelos mais fortes.

O Nazismo adaptou a Teoria da Evolução de Walace/Darwin à espécie humana, "justificando" o aniquilamento dos Judeus, dos comunistas, dos social-democratas, das Testemunhas de Jeová, dos Africanos, dos Ciganos, etc., etc., como a "natural" acção da selecção natural.

Karl Marx, outra referência para Hitler, também apresentava as religiões como o "ópio do Povo", obstáculos ao progresso e fontes de misticismo, atavismo, e perpetuação da ordem social.

Enfim, isto é só pela rama.

Cordialmente,

AA

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