Spiga

Cuidado com os charlatães - 3

Uma das razões pelas quais chamamos a atenção para o problema da charlatanaria (ver definição em post anterior), é o facto de haver pessoas que se adornam com títulos e atributos que não possuem, e um desses atributos ser precisamente o de... "espírita".

Nesta interessante reportagem (publicação gentilmente autorizada pelo blog BUSTOS - do passado e do presente - um simpático senhor declara, nos papelinhos em que se progandeia, que se dedica ao "espiritismo". É claro que o que este senhor faz é tudo menos Espiritismo, mas é por estas e outras que há tanta gente que acaba por fazer confusão.


O senhor será simpático, provavelmente boa pessoa, mas "espiritismo" é coisa que ele desconhece por completo. Deixamo-vos com o excelente artigo de Belino Costa no blog BUSTOS - do passado e do presente:




«Parto para a casa do bruxo sem contacto prévio. Mas como também os bruxos se alimentam vou na esperança de o encontrar a preparar-se para o almoço.

O dia está solarengo. Pouco passa do meio-dia quando puxo a corda e um pequeno sino anuncia a minha presença. A vivenda fica na curva, logo depois da central eléctrica, na Póvoa. Tem na frente uma pequena capela dedicada ao Dr. Sousa Martins onde se destaca a seguinte inscrição: "De luz aqui me apareceu o espírito do irmão Dr. Sousa Martins. Lhe fiz o que ele pediu".

– O que é? – pergunta um senhor idoso que vem espreitar à soleira da porta.

– Boa tarde! – respondo-lhe – O senhor Ferreira está?

– Está sim.

– Diga-lhe que vi o anúncio no “Jornal da Bairrada” e gostava de o entrevistar. É para a internet.

O homem vira-se para dentro de casa, mas logo me responde:

– Ele está meio adoentado, está sem grande paciência…

– Não faz mal, isto é coisa rápida – insisto. – Posso cumprimentá-lo?

– Venha lá então.




Entro. Sentado num sofá de cabedal, bem na frente da lareira que crepita, o bruxo, de boina na cabeça e barba por fazer, olha-me com fastio, mostra um ar condoído sem se mexer no seu lugar. Ao lado da lareira um sofá de três lugares parece esperar por mim. Sento-me sem esperar por qualquer convite enquanto vou anunciando a brevidade da entrevista. Ainda ele leva a mão à testa alegando tonturas e dores de cabeça já o interrogo sobre os termos da publicidade, exibindo o recorte com o anúncio no jornal:

– Diz aqui que fez uma grande descoberta no dia 21-11-2003, que descoberta foi essa?

– Isso não digo, não posso explicar! Não posso!

Olho em volta com desapontamento. A sala é simples e desleixada e nem os quadros na parede com a figura de Nossa Senhora rodeada por autocolantes com o rosto do Dr. Sousa Martins, ou uma Nossa Senhora ao lado de uma garrafa de tequila, chegam para a distinguir de qualquer outra sala de uma família comum. Nem falta a televisão na parede, uma aparelhagem de som, mesa, cadeiras, enfim, nada de especial.

Entre resmungos incompreensíveis o bruxo vai respondendo a perguntas sem mistério. Apresenta-se como sendo Ferreira Santos, nascido no lugar da Picada, em Bustos, filho de Raimundo Francisco e Olívia Simões Ferreira. Diz ter 48 anos e que a mãe já morreu. (Quem andou com ele na primária adianta que deve ter perto uns 54 e a mãe continua bem viva). Conta que foi a aparição do vulto de Sousa Martins que o levou a abrir o negócio de bruxo:

– Em 1961 comecei a trabalhar com morada aberta, mas depois fechei a porta. Estive no Brasil, em África e vários lados na Europa e aí estudei muito, aprendi muita coisa nos livros e com outras pessoas. Aprendi com a brasileira Florentina, em Oliveira do Bairro, e outras pessoas, na Figueira da Foz, no Brasil, em África, até atingir o conhecimento que tenho hoje.

– E sente-se um homem superior?

– Não me sinto nada. Sou um ser inferior, a aprender até morrer.

– E acha bem que o tratem por bruxo?

– Acho que está certo. Bruxo, feiticeiro ou mago, é tudo a mesma coisa.

– E quando é que percebeu que era isso tudo?

– A primeira visão deu-se no Barreirão, atrás da fábrica de cerâmica de Bustos, tinha 8 anos. Andava a cavar olho e vejo um homem anão a dançar de volta de um pinheiro. Tinha um barrete verde, calças pretas e camisa vermelha, ou ao contrário, já não me lembro. Virei-me a rir e a minha mãe perguntou, o que é? Ela não via nada, mas esteve, esteve, esteve e passado meia hora viu a mesma coisa.

Foi primeira de várias aparições, que incluíram um caixão numa valeta da Picada e uma cruz cheia de brilhantes, visões que guardou só para ele não fosse haver por ali alguém interesseiro. Falava de um vulto que em certa altura o seguiu e apalpou quando é interrompido pela chegada de um rapariga com um prato de comida. Sem dizer palavra a jovem, de cabelos descuidados e uma saia curta mostrando umas pernas marcadas por algumas nódoas negras, coloca o prato numa mesinha em frente do sofá, acompanhado por uma almotolia e um copo de vinho. Pressionado pela presença do almoço avanço para o essencial.

– No anúncio diz que as consultas são grátis. É mesmo assim?

– Nunca levei dinheiro a ninguém, agora querendo que eu faça um serviço aí é preciso pagar...

– Que serviço?

– Há serviços de matos, de encruzilhadas e de mar que obrigam a deslocações. E os materiais custam dinheiro...

– Que materiais?

– Depende, pode ser charutos, toalhas, cartolinas, caixas de fósforos, cerveja, flores, vinho, depende. O mais caro é quando a gente fica com carga e tem de levar banhos de protecção e é preciso ir ao mar.

– Quanto pode custar um desses serviços?


– Depende… pode ir aos vinte trinta contos, mas também pode chegar aos trezentos. Depende muito dos banhos e cada um custa mil escudos o que é barato, o Torres, em Aveiro, leva mil e duzentos!

– Quem é que o costuma consultar?

– Geralmente casais separados. Uns querem a união outros a desunião....Se vir que não há razão, nada faço.

– Segundo o anúncio também cura doenças, alcoolismo…

– Aí já é uma parte que vejo através das mãos ou dos olhos...

– E trata-as?

– Não, mando-os para o naturólogo que trabalha comigo como ervanário.

– Tem muitos clientes?

– Tem dias que aparecem várias pessoas e depois posso estar um mês sem aparecer ninguém.

– Dizem-me que isto já esteve melhor mas que teve problemas com a justiça e o negócio foi abaixo. Daí o anúncio…

– Não é verdade! Nunca tive problemas e isto está mais ou menos a mesma coisa.

Subitamente a enxaqueca parece tolher-lhe a fala. Percebo que o rumo da conversa lhe começa a desagradar.

– Então, está pior?!

– Tenho uma fractura na cabeça e hoje acordei pior.

– Um aborrecimento...

– É, dediquei-me muito à leitura e deu-me volta à cabeça.

A rapariga regressa à sala para cobrir o prato do almoço, couves, batatas e pescada. Bem sei que a comida de azeite fria não tem graça, e levanto-me. Agradeço, desejo as melhoras, despeço-me e deixo-o entregue à comida.

Cá fora o dia continua esplendoroso, até a capelinha brilha. Espreito para o seu interior onde num pequeno altar, entre figuras e bustos de santos, rodeado por duas jarras com flores que em tempos idos tiveram pétalas e viço, bem ao lado de um pequeno menino Jesus de presépio, a figura do Dr. Sousa Martins parece olhar-me fixamente. Aparição, milagre ou ilusão momentânea? Não sei, nem sequer posso dizer que tenha acontecido, minto. E, numa voz saída das profundezas, ouço o médico dizer entre um sorriso:

- Há enxaquecas que nem um bruxo consegue resolver!»


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Renovados agradecimentos ao autor da entrevista, Belino Costa, de cujo blog ficámos 'clientes'. Quanto a nós é uma peça digna de um profissional e que não faria má figura em qualquer jornal nacional.

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