Escrevo este breve apontamento após ter tido a grata possibilidade de assistir ao programa A Tarde é Sua, da TVI, apresentado por Fátima Lopes.
Aos visitantes deste blogue que não saibam, esclareço, para começar, que ser-se espírita não é profissão, é convicção. As três pessoas que viram no estúdio não são profissionais de Espiritismo, e não existem profissionais de Espiritismo. Se por acaso depararem com um desses anúncio de jornal em que costumam ler-se coisas como "Médium, Espírita, dá consultas, resolve todos os problemas", etc., etc., trata-se de uma apropriação indevida de um termo com significado muito bem definido.
Espírita é toda a pessoa que simpatiza com a doutrina espírita, com o Espiritismo, que é uma filosofia espiritualista cristã, muito bem delineada nas obras compiladas e publicadas por Allan Kardec, em meados do século XIX. Não existem coisas como "alto espiritismo" e "baixo espiritismo", nem espiritismo popular e espiritismo erudito, nem "espiritismo de mesa branca", nem "espiritismo de Umbanda" ou "espiritismo de Candomblé".
Espiritismo há só um. Está compilado nas referidas obras e tem organismos representativos e de divulgação, tais como, em Portugal, a Federação Espírita Portuguesa (www.feportuguesa.pt) e a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (www.adeportugal.org).
O Espiritismo não tem sacerdócio, rituais, cerimónias, sacramentos, vestes especiais, velas, altares, defumadouros, pirâmides, cristais, curas milagrosas, ou conceitos como os de milagres, dogmas inquestionáveis, Sobrenatural, Esotérico, Oculto, etc.. O Espiritismo é Cultura.
É uma filosofia cristã que se caracteriza pela abordagem racional da Fé. Sem que de forma alguma desrespeite as religiões propriamente ditas, onde estas declaram que há o Mistério, o Sobrenatural, o Espiritismo questiona, e propõe que a Ciência pode e deve investigar e reflectir sobre o que as religiões afirmam.
Os pilares do Espiritismo são a crença em Deus, na imortalidade da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, na reencarnação e na pluralidade dos mundos habitados.
O Espiritismo, sendo uma crença, uma opinião, baseia-se em factos sólidos. As obras básicas do Espiritismo foram psicografadas (escritas através da faculdade mediúnica), tal como os Evangelhos o foram. O Espiritismo não vem, contudo, negar os Evangelhos, ou propor "Evangelhos diferentes" ou "melhores".
Quando o Espiritismo se afirma como doutrina cristã, em alguns fiéis de religiões cristãs nasce a desconfiança, porque pensam que a Igreja a que pertencem é a única e legítima representante e herdeira de Jesus-Cristo na Terra. É uma mentalidade exclusivista, que desde há dois mil anos leva a guerras, massacres e perseguições entre grupos que interpretam à sua maneira a mensagem de Jesus. A Santa Inquisição funcionou em Portugal até ao século XIX, e é para nós, portugueses, um exemplo ainda recente de sectarismo, exclusivismo e intolerância total, praticados em nome de Jesus, que só veio pregar o Bem. Mas as perseguições aos cristãos, as perseguições entre cristãos, e as perseguições de cristãos a não cristãos, são bem mais antigas.
Uma outra confusão habitual é a de que a obra "O Evangelho Segundo o Espiritismo" é um "Evangelho novo, dos espíritas". Obviamente que não é. É um comentário aos Quatro Evangelhos. E comentar os Evangelhos é algo que sempre se fez. S. Tomás, santo Agostinho, Calvino, Martinho Lutero, Joseph Ratzinger, fizeram-no, e Allan Kardec também o fez, sem por tal cometer algum tipo de desrespeito. Só se for o de não ser sumo-sacerdote nem santo. Mas outros escritores e filósofos comentaram os Evangelhos, sem o serem igualmente.
Acresce que a referida obra reúne os comentários de Allan Kardec e as mensagens dos Espíritos que colaboraram no lançamento da Doutrina Espírita. O que veio o Espiritismo então fazer? O que trouxe ao nosso mundo? Veio combater as religiões, cristãs ou não cristãs? veio desmentir os ensinamentos de Jesus?
Não. Veio para relembrar os ensinamentos de Jesus. Veio para relembrar que somos seres imortais, que a morte não existe e que amar a Deus e ao próximo é a Lei Maior.
O Espiritismo é isso. Não vem impor-se, nem se detém nas diferenças de opinião, pois a liberdade de consciência é um valor inquestionável das sociedades evoluídas.
Um aspecto que costuma excitar a curiosidade, ou provocar medo e desconfiança, é o Espiritismo admitir a comunicação entre planos, ou seja, entre este mundo e o mundo dos Espíritos. Ainda aqui nada há de extraordinário:
Os Dez Mandamentos, há 3500 anos foram entregues a Moisés por um anjo - e o que é um anjo senão um Bom Espírito? Jesus-Cristo conversou com Moisés e Elias no alto do Monte Tabor, e esses dois profetas tinham vivido na Terra há séculos nessa altura. O mesmo encontramos em todas as épocas e lugares.
Nas igrejas evangélicas, os pregadores falam inspiradamente, e acreditam que tal se deve à inspiração do Espírito-Santo. Também os católicos romanos e os ortodoxos, os cristãos coptas, nestorianos e anglicanos, e maior parte das Igrejas cristãs, são Trinitaristas, ou seja, acreditam na Trindade Deus - Jesus - Espírito-Santo. na óptica espírita, Deus é Uno. Jesus é, tal como cada um de nós, filho de Deus, e um 'irmão mais velho', muito querido, tão evoluído quanto se pode ser, e que muito amamos. No Espírito-Santo como entidade abstracta, "fluido imponderável", não acreditamos. Entendemos que aquilo a que as religiões chamam Espírito-Santo, são os Bons Espíritos, os Espíritos já evoluídos, que percorreram as sendas da evolução e hoje vivem num estado de imensa felicidade e entendem Deus.
Esses Espíritos aparecem nas tradições religiosas de todos os povos, e são os conhecidos anjos. Na óptica espírita, os anjos não foram criados já perfeitos e de uma forma diferente do resto da Humanidade. Tão pouco acreditamos em diabos. Diabos, ou demónios, são os Espíritos ainda pouco evoluídos, que se demoram na órbita do mau proceder. O estudo etimológico, sociológico, antropológico, histórico, das Escrituras e das Sociedades antigas, assim o demonstra, independentemente da crença de cada um.
Então, o Espiritismo não inventou e mediunidade nem o seu uso. Se Moisés e Jesus protagonizaram episódios mediúnicos, se os Primeiros Cristãos e os Profetas de todo o mundo os viveram, então eles são da natureza humana. E é isso que a mediunidade é: um sexto sentido, uma faculdade orgânica, que infelizmente ainda é muito usada por alguns tratantes para sacar benefícios pessoais e manipular os incautos. Isso o Espiritismo combate, pelo esclarecimento.
Não é possível fazer um curso básico de Espiritismo no espaço de um post. Muita gente acredita saber o que o Espiritismo por ter visto um filme qualquer, ou por ter lido um artigo de jornal, ou por ter tido um colega de trabalho espírita. Esta doutrina requer muitos anos de estudo sério e aplicado. Tem os seus detractores, como tudo o que é novo e diferente. Mas estou certo de que, se os detractores do Espiritismo o estudassem, desde que estivessem de boa -fá, deixariam de o combater, mesmo não concordando. Assim tem acontecido com pessoas sérias, honestas, que, mesmo não partilhando das nossas opiniões, reconhecem que o Espiritismo melhora quem o estuda e quem com ele simpatiza.
Hoje no programa de Fátima Lopes foram relatados casos de pessoas que rejeitaram a ideia do suicídio porque o Espiritismo se lhes "atravessou" no caminho". Não foram as pessoas que estiveram na TV que evitaram esse suicídio. Nem elas se apresentam como 'especiais' ou dotadas de qualquer faculdade ou virtude especial. Quem tem o mérito de não ter seguido pela via infeliz do suicídio foram as próprias pessoas que recorreram ao centro espírita. A mensagem cristã como é passada no Espiritismo falou-lhes ao coração, e elas ganharam novo alento.
Nos dias de hoje, a depressão arrasta muita gente para o abismo do suicídio. Nem sempre são causas espirituais. Se o caro leitor ou leitora se encontra nesse número, recorra à Medicina. Mas se é crente, seja em que religião ou filosofia for, não descure também a sua Fé, porque Medicina dos Homens e a Medicina de Deus, juntamente com a sua vontade, podem fazer maravilhas. E maravilhas são afinal os milagres, isto é, coisas que espantam, segundo o sentido original do termo. A religião, em sentido amplo, melhora a qualidade de vida e a auto-estima dos crentes. E nisto até os ateus concordam. Então, invista aí. Não se mate! Mate antes o pessimismo e a depressão!
Voltarei a este tema, assim que possa. Este longo post foi sugestão de alguns leitores que "caíram aqui de pára-quedas" após o programa de hoje. Espero ter sido útil.


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