Spiga

Surf



Os meus filhos são surfistas. Nada de espantar, sendo Portugal um país com uma costa extensa, para a escala europeia. Mas nunca pensei, nos meus tempos de criança, que viria a ter filhos surfistas. Ou mesmo a possibilidade de ter uma prancha de surf que pudesse usar. Portugal era nessa época um país relativamente fechado e remoto. Jamais eu e os meus amigos tínhamos ouvido falar de surf. E ficámos totalmente sem saber o que pensar quando, num longínquo dia de Setembro, vimos chegar uns australianos altos, de longos cabelos louros, com uma espécie de tábuas de engomar gigantescas debaixo do braço. O espectáculo dos gigantes estrangeiros a deslizarem sobre as ondas teve em nós um efeito comparável ao que hoje se teria se pousasse algures uma nave espacial com legítimos marcianos verdes.

Não usavam fatos térmicos, e estou em crer que tal coisa ainda não existia à venda para surfistas. pareciam não sentir frio. As exclamações de entusiasmo dos cavaleiros das ondas eram vibrantes, e hoje entendo porquê. Eram os primeiros a surfar uma das melhores ondas do mundo, e o pioneirismo da coisa deixava-os extasiados.

Após umas duas horas inesquecíveis para eles e para nós, saíram da água. Dirigi-me a um deles:

- Hey, you!

O gigante virou-se e só nessa altura me lembrei que o meu vocabulário em Inglês ia pouco além disso. Limitei-me a elogiar, em mímica, o espectáculo a que tínhamos assistido. Faltou-me bagagem linguística para perguntar onde é que poderíamos aceder a uma daquelas titânicas tábuas de engomar.

Os dias seguintes foram passados a experimentar pranchas de surf alternativas, tais como colchões de praia ou pedaços de esferovite (isopor) trazidos pelas marés. Além disso, entendemos que era possível entrar num mar alteroso daqueles sem ser tragado para as profundezas ou ir parar ao Brasil. A exibição dos australianos deu-nos confiança para nos fazermos ao mar mesmo sem qualquer acessório, e apanharmos ondas unicamente com o corpo, como sempre fizéramos, só que agora em ondas bem maiores.

Quando agora pego nas pranchas dos meus filhos, não posso deixar de pensar, com alguma nostalgia, no que teria feito se tivesse naquela época ter deitado mão a material de surf. Mas quando lhes digo que são afortunados, eles lembram-me que eu tive oportunidade de fazer surf, sem ainda saber que nome tinha aquele desporto. E que naquela época o mar estava todinho por minha conta, sem ser preciso enfrentar a feroz concorrência de hoje. E que então ainda havia algas kelp e agar-agar, e cheiro a maresia. Hoje há efluentes de fábricas e há agroquímicos, que matam as algas e a maresia, e que matarão o surf, que hoje é uma indústria e naquele tempo era paixão, liberdade e Natureza. Tudo em estado puro.

Portanto o afortunado fui eu. Infelizmente.

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2 comentários:

Paulo

13.11.11

Deve ser uma sensação fantástica, deslizar sobre as ondas. Ainda a semana passada, tivemos um "campeão" americano a descer uma "muralha" de 30 metros na Nazaré, só o barulho da onda, já me arrepiava (risos).

André

14.11.11

A essa não ia nem que me pagassem :-)

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