Não usavam fatos térmicos, e estou em crer que tal coisa ainda não existia à venda para surfistas. pareciam não sentir frio. As exclamações de entusiasmo dos cavaleiros das ondas eram vibrantes, e hoje entendo porquê. Eram os primeiros a surfar uma das melhores ondas do mundo, e o pioneirismo da coisa deixava-os extasiados.
Após umas duas horas inesquecíveis para eles e para nós, saíram da água. Dirigi-me a um deles:
- Hey, you!
O gigante virou-se e só nessa altura me lembrei que o meu vocabulário em Inglês ia pouco além disso. Limitei-me a elogiar, em mímica, o espectáculo a que tínhamos assistido. Faltou-me bagagem linguística para perguntar onde é que poderíamos aceder a uma daquelas titânicas tábuas de engomar.
Os dias seguintes foram passados a experimentar pranchas de surf alternativas, tais como colchões de praia ou pedaços de esferovite (isopor) trazidos pelas marés. Além disso, entendemos que era possível entrar num mar alteroso daqueles sem ser tragado para as profundezas ou ir parar ao Brasil. A exibição dos australianos deu-nos confiança para nos fazermos ao mar mesmo sem qualquer acessório, e apanharmos ondas unicamente com o corpo, como sempre fizéramos, só que agora em ondas bem maiores.
Quando agora pego nas pranchas dos meus filhos, não posso deixar de pensar, com alguma nostalgia, no que teria feito se tivesse naquela época ter deitado mão a material de surf. Mas quando lhes digo que são afortunados, eles lembram-me que eu tive oportunidade de fazer surf, sem ainda saber que nome tinha aquele desporto. E que naquela época o mar estava todinho por minha conta, sem ser preciso enfrentar a feroz concorrência de hoje. E que então ainda havia algas kelp e agar-agar, e cheiro a maresia. Hoje há efluentes de fábricas e há agroquímicos, que matam as algas e a maresia, e que matarão o surf, que hoje é uma indústria e naquele tempo era paixão, liberdade e Natureza. Tudo em estado puro.
Portanto o afortunado fui eu. Infelizmente.


2 comentários:
13.11.11
Deve ser uma sensação fantástica, deslizar sobre as ondas. Ainda a semana passada, tivemos um "campeão" americano a descer uma "muralha" de 30 metros na Nazaré, só o barulho da onda, já me arrepiava (risos).
14.11.11
A essa não ia nem que me pagassem :-)
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