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Hoje é dia de caírem preconceitos



É hoje que o jornal Correio da Manhã, na sua revista Correio de Domingo, publica um artigo em que aborda o Espiritismo - propriamente dito. Faço esta ressalva porque ao longo dos anos o CM tem usado o termo Espiritismo de forma imprópria, designando pessoas e práticas que estão nos antípodas da nossa filosofia.

A ideia de que Espiritismo é "ir a uma consulta com uma senhora que fala com os mortos", instalou-se durante muitos anos e ganhou raízes. Que nós procuramos vigorosamente ajudar a arrancar.

Portugal tem uma enorme tradição de prática mediúnica popular, misturada com ideias provenientes do Catolicismo - embora sem qualquer apoio dessa religião, como é evidente.

É relativamente fácil traçar o rasto dessa ideia-feita. E já o temos feito neste blogue. Antes de o Catolicismo se ter estabelecido como religião predominante em Portugal e em toda a Europa do Sul, houve períodos em que outras religiões predominaram. Umas eram mais favoráveis ao intercâmbio com o Além, com o mundo dos Espírito. Outra menos. Mas a realidade da comunicação entre o mundo material e o mundo espiritual não obedece a ditames de religiões, filosofia ou crenças de qualquer espécie. Tal como não se pode ordenar à chuva que deixe de cair, também não se pode ordenar aos Espíritos que deixem de existir e de se comunicarem.

Mesmo em tempos de Inquisição, sempre houve os chamados santos, da Igreja católica, que protagonizavam episódios de êxtase e eram levados "ao Céu" ou "ao Inferno", e falavam com os santos e com os anjos - como Jesus falou com Moisés e Elias no alto do Monte Tabor, aquando do episódio da Transfiguração. Também havia aquelas pessoas, sobretudo mulheres, que, mais conscientes do fenómeno da mediunidade, continuavam meio em segredo a encaminhar os Espíritos dos mortos que se demoravam neste mundo, tal como receitavam um chá de ervas ou endireitavam a espinhela caída dos meninos. Ainda hoje existem, as chamadas "mulheres de virtude", senhoras simples e bondosas que durante séculos volta e meia iam parar às fogueiras da Inquisição, pela sua teimosia em fazer o bem.

A imagem das "bruxas" que povoa os contos infantis é uma descendente directa do período de "caça às bruxas" - que eram afinal estas simpáticas senhoras. Representaram-nas de maneira tenebrosa, feias, de verruga no nariz, montadas em vassouras voadores, cozinhando poções em enormes caldeirões. Imagens que foram buscar às religiões Antigas, panteístas, da Península Ibérica.
A perseguição continuada fez com que, com o passar das gerações, estas perdessem o fio da meada das antigas crenças que norteavam a sua actividade. E fez também com que gerações de oportunistas vissem nessa actividade uma oportunidade de ganhar dinheiro.

Um conhecido estudioso de fenómenos paranormais, o cientista italiano Cesare Lombroso, registou que na sua época Lisboa era um viveiro de charlatães, que ofereciam aos seus clientes uma caricatura de mau gosto da actividade das mulheres de virtude do Interior. Lidavam os/as tratantes com um público frívolo, que demandava a riqueza fácil, a sorte ao jogo ou nos amores.

Como hoje, aliás. E se na altura eles só dispunham da propaganda boca a boca, nos nossos dias têm as páginas dos anúncios dos jornais, têm as rádios e as televisões, e mais recentemente a Internet.

Para darem mais credibilidade às suas práticas, aliavam, e aliam, aos seus rituais, rezas e amuletos, um bocadinho de "Catolicismo". É nesse contexto que aparecem receitas que podem incluir por exemplo um defumadouro, uma chavinha para usar ao pescoço (para "fechar o cofre"), e umas velinhas em Fátima, ou noutro santuário católico. Repetimos que a Igreja Católica não é tida nem achada nos métodos destes curandeiros, que a usam, repetimos, para granjearem a credibilidade que não possuem, valendo-se da religiosidade católica característica do nosso Povo.

O Espiritismo populariza-se em Portugal em finais do século XIX, poucos anos depois de ter nascido, em França, e ganha uma projecção invulgar no nosso país, como se pode constatar na leitura da nossa secção "Da História do Espiritismo em Portugal".

Então, como hoje, os vendedores de milagres, aquele tipo de pessoas que se propunham vender sorte ao jogo e no amor, curar o mau-olhado e os bicos de papagaio, o mau cheiro dos pés e o "cofre aberto", não hesitaram em lançar mão do termo "espírita" e "Espiritismo", para ampliarem o seu "mercado".

A cena é familiar, e muita gente já assistiu ou já ouviu falar. Fulano vai a "uma senhora", que entra em transe e começa a arrotar e a falar com voz grossa, dizendo ser o Espírito do pai ou do bisavô. A senhora, temporariamente de voz grossa, diz o que Fulano queria ouvir, e ele paga e sai contente. Diz que foi a uma "espírita". Não foi. Obviamente. O Espiritismo não é isso. A pessoa terá, quanto muito, consultado alguém que possui a faculdade da mediunidade, no caso de o transe não ter sido fingido. Mas a mediunidade é uma faculdade orgânica, que toda a gente possui, mais ou menos apurada. O Espiritismo é uma filosofia.

Outro dos equívocos acerca de Espiritismo vem da imagem, também familiar, mas mesas de pé de galo, ou da tábua Ouija. Como supostamente ou de facto há quem fale com os Espíritos por esses processos, também há quem afirme que participou numa "sessão de Espiritismo". E também erradamente, pelos motivos acima expostos.

O Correio da Manhã, ao longo dos anos, não tem passado destes dois equívocos básicos. Que são também aproveitados por instituições e pessoas a quem não convém que a filosofia espírita seja conhecida. Quem vive à custa da crendice, não gosta nada que uma filosofia como o Espiritismo ande por aí a esclarecer, a exterminar medos irracionais e crendices absurdas.

O Correio da Manhã, com o desparecimento do saudoso jornal Tal&Qual, passou a ocupar sozinho o título indisputado de título número 1 da Imprensa Não Chata em Portugal. Muito desdenhado por quem adora passear-se com 5 kg de Expresso debaixo do braço ao sábado de manhã, o Correio é presença obrigatória nos cafés, nas barbearias, nas mãos dos portugueses simples, trabalhadores, do Povo.

Pessoalmente não conheço nenhum café popular em Portugal que não tenha o CM sobre a mesa, para quem o queira ler. Além de A Bola, do Record ou de O Jogo, que monopolizam as preferências de leitura num país que detesta ler e que só abre uma excepção para os jornais de futebol, os três citados.

Hoje o CM publica um artigo em que fala de Espiritismo, propriamente dito. Para já, não adiantamos mais, mas esperemos que caiam preconceitos. Para que haja menos gente a ser explorada por tratantes, para que o Espiritismo seja visto como ele realmente é, e não como a ignorância, o oportunismo e a propaganda Salazarista o pintaram.

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1 comentários:

palavra luz

30.10.11

Caro André,

Conforme prometi aqui, noutro comentário, lá fui hoje logo de manhã comprar o "Correio da Manhã", não esquecendo de conferir se tinham incluído o suplemento com o artigo indicado.
As minhas expectativas incluíam uma larga dose de cepticismo.
De facto, tenho desenvolvido a noção de que os temas abordados pelos meios de comunicação (a que me recuso chamar “social”), deveriam ser o motivo, a causa e a finalidade de um certo esclarecimento, mas de facto não o são.

O trabalho jornalístico está sujeito a conveniências estritas de audiência, de vendibilidade, de popularidade, condimentos terríveis a puxar a tarefa legitimamente informativa para um plano meramente instrumental.

Aquilo que é um movimento cultural sério e cheio de dignidade, com figuras de relevo do mais variado cariz, com antiguidade histórica, não merece um destaque caracterizador ou seja, os jornalistas “mobilizados” para um trabalho destes são uns pobres coitados (ou parece!...) que nunca ouviram falar, que não gastaram um minuto a preparar a matéria e que não procuraram contextualizar nada.

Abordam a notícia, pouco mais do que brevíssima, de trás para diante.
Começam com o acessório, umas histórias de duas Senhoras tal e tal que atendem pelo telefone, que têm dotes mediúnicos (o que eu não duvido) e é apenas depois desse preambulo ou aperitivo “noticioso” que começa a emergir de chofre o verdadeiro tema que até era capa da revista, logo promovido a “polaridade chamativa”.
Efeitos das telenovelas brasileiras recentes? De uma continuidade persistente de filmes, livros e revistas estrangeiras que ao assunto dão relevo muito mais importante? Vá lá saber-se!...
O tal esquema do sensacional, do sentido de que agora é isto “que está a dar”, é o que é.

Não vou alargar-me mais, mas quero entretanto prestar aqui uma homenagem da mais viva consideração às pessoas, voluntários e generosos servidores da causa do espiritismo que se abalançaram a dar a cara pelo movimento, sujeitos a uma presença muito menos digna e muito pior fundamentada e detalhada do que aquilo que mereciam.

SE EU ACHO NEGATIVA, NO SEU SOMATÓRIO, ESTA JORNADA?

Não, não acho.

Um suplemento destes num jornal do tipo do “Correio da Manhã” pode ser considerada uma vitória, e os elementos cultural e moralmente activos na divulgação da doutrina merecem o meu encómio, a minha gratidão e o meu melhor aplauso.

Que Deus vos abençoe e nos traga rápidos progressos na necessária e essencial caminhada em direcção à LUZ viva da evolução espiritual.

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