Vai para três anos, o Blog de Espiritismo estava debaixo de fogo. Pessoas ainda incapazes de conviver pacificamente com o que não têm capacidade de entender e que as assusta, faziam chover aqui dezenas de mensagens, ameaçando-nos com o fogo dos infernos. Criaram-se nessa altura páginas anti-Blog de Espiritismo. Para nosso grande espanto, pois nunca ambicionámos ter mais de três ou quatro leitores, os inquisidores do Terceiro Milénio elegiam-nos a nós, meia dúzia de amigos que criaram um modestíssimo blogue, como uma Força do Mal :) Já não se via perseguição religiosa assim em Portugal desde que o Governo de Salazar desencadeou a perseguição ao Espiritismo...
Foi nessa altura que alinhavei quatro pequenos textos a contar sumariamente como cheguei ao Espiritismo e o que faço aqui. Os atacantes não leram, obviamente. A comunicação na óptica deles é de sentido único: A "Verdade" (eles) contra a "Mentira" (o resto da Humanidade). Mas não importa, pois os textos eram dirigidos a quem pensa:
Como são as actividades de um centro espírita?

Aqui há tempos recebemos no centro onde colaboro uma jornalista de um dos canais de televisão nacionais. Vinha fazer reportagem ligada a um caso das chamadas "casas assombradas", que é sempre um tema suculento para o grande público.
Não foi pelo sensacionalismo que aceitámos prestar depoimento acerca desse caso. Nem foi por publicidade, pois o Espiritismo não tem qualquer interesse em angariar adeptos. Não nos escondemos nem nos publicitamos. Estamos ao dispor, para servir.
O nosso interesse neste caso era a ocasião de esclarecer, de combater o medo irracional em relação a fenómenos que consideramos naturais, e até úteis, pois fornecem-nos preciosas evidências acerca da imortalidade da alma, e isso é, em nossa opinião, consolador.
A jornalista era muito jovem, e não pude deixar de admirar a sua desenvoltura. Muito segura do seu papel, muito profissional e muito azougada. Uma menina tipicamente "Linha de Cascais" - digo-o com todo o respeito e simpatia, pois além do mais, era realmente muito simpática.
Fizemos as apresentações da praxe e mostrámos as instalações do centro, para dar a conhecer, ainda que de forma sumária, a natureza das nossas actividades. Quando lhe mostrámos a sala onde realizamos as reuniões de intercâmbio com o mundo espiritual, a jornalista dispara:
- Então e onde está a mesa pé-de-galo?
Divertidos, explicámos que as mesas pé-de-galo, além de não serem artefacto do Espiritismo (não há nenhum artefacto próprio do Espiritismo), não fazem falta absolutamente nenhuma para a comunicação com os Espíritos.
A pergunta que a jornalista fez então, foi:
Como é uma reunião mediúnica?
Pois uma reunião mediúnica é uma reunião muito simples, ainda que muito séria. Numa reunião mediúnica, ou de intercâmbio espiritual (como pode ser também chamada), estão presentes pessoas com preparação doutrinária, com anos de estudo e com um sincero empenho em ajudar o próximo, sem qualquer visibilidade, nem esperando qualquer recompensa que não seja a satisfação do dever cumprido.
Há os médiuns ostensivos - aquelas pessoas que sentem, vêem ou ouvem os Espíritos, que escrevem ou transmitem pela fala as mensagens que estes pretendem deixar.
Há os dialogadores, aquelas pessoas que orientam a reunião e conversam com os Espíritos.
E há os médiuns de suporte, que estão em recolhimento, concentração e prece, contribuindo decisivamente para o ambiente de paz e de recolhimento que se pretende numa reunião deste tipo.
A imagem que ilustra esta entrada é de uma reunião mediúnica, realizada no Grupo Gabriel Dellane, no Brasil. O nome do site espírita aparece na imagem. Como se pode ver, não há mesas, as pessoas estão calmamente sentadas, por uma questão de conforto, estão vestidas normalmente, e não estão com "cara de caso"...
Como?
Na reunião mediúnica, caso haja algum Espírito, ou Espíritos, ligados ao caso, têm ocasião de se manifestar, por intermédio dos médiuns, seja pela escrita, pela fala, ou de qualquer outra forma. Os Espíritos que causam complicações, que perturbam ou atemorizam, são invariavelmente Espíritos pouco evoluídos, mas não necessariamente más pessoas. Nessa ocasião, e com a permissão de Deus, podem dizer de sua justiça e ser esclarecidos pelos dialogadores.
Repito: este caso-tipo é um entre muitos. E faço notar que não há nestas reuniões, desde que se trate de médiuns educados (como devem ser os médiuns espíritas) nem gritos, nem revirares de olhos, nem convulsões ou "espectáculos" do género. Calma, serenidade, paz, concentração e entrega, são o timbre do exercício da mediunidade com Jesus, nosso Guia e Mestre muito amado.

E os problemas que os médiuns que se anunciam nos jornais se propõem resolver, são, de facto, variadíssimos: dinheiro (ou falta dele...), infidelidade conjugal, toxicodependência, alcoolismo (bem sei que também é uma toxicodependência), exames, todos os males de saúde, "azar no amor", mal-estar, eu sei lá que mais...
Note-se que não duvido nem de que pelo menos uma parte de quem se anuncia como médium o seja realmente; nem de que haja algumas dessas pessoas que sejam honestas.
O processo de trabalho desse tipo de médiuns, a que chamamos, sem intuito ofensivo, "médiuns-comerciantes", é basicamente o seguinte:
A pessoa chega, expõe o seu caso, o médium entra supostamente em transe, e os Espíritos "diagnosticam" o caso e dão o "remédio".
Pondo de parte (por agora) as fraudes óbvias, grosseiras e despudoradas, a actuação destes "médiuns-comerciantes" merece ser analisada com seriedade. Os clientes deste tipo de profissionais costumam colher uma excelente primeira impressão. «Mas ele adivinhou mesmo coisas que eu não lhe disse!» - exclamam, assombrados - «Ele é mesmo médium!».
E aí, precisamente aí, nasce um grande equívoco: o de que, sendo-se médium, se é infalível, bem intencionado, digno de toda a confiança. E não é assim. A mediunidade (ou percepção extra-sensorial), é uma faculdade que Deus concede tanto ao mau como ao bom. O médium-comerciante, é, regra geral, um médium não educado. Isto não significa que diga palavrões e não tenha maneiras à mesa. Significa que possui a faculdade, mas não adquiriu a bagagem cultural e moral para entender como se processa a comunicação com o mundo espiritual, e as respectivas implicações.
O médium-comerciante considera-se habitualmente um mensageiro de Deus, um eleito. Acha-se especial e credor de deferências e homenagens. Faz-se pagar principescamente, porque, segundo o seu argumento recorrente, "os médicos também cobram dinheiro".
Escusado será dizer que o Espiritismo desaprova totalmente que alguém se faça pagar pelo exercício da mediunidade (um tema a que voltaremos).
O médium-comerciante crê-se assistido por Espíritos de escol, considera que estes estão às suas ordens, e não hesita em afirmar: "Esteja descansado(a), que vou pôr os meus Guias a trabalhar nisso!".
Os meus Guias - note-se bem!!!
É raro encontrar-se um destes médiuns que não jure a pés juntos que o Padre Cruz e o Doutor Sousa Martins os assistem - e, consequentemente, estão às suas ordens para "resolver todos os problemas"...
Pessoas fragilizadas pelos mais diversos problemas pagam para ouvir os conselhos dos pretensos "Guias". Pagam bem. E dão-se mal, geralmente...
Pagam fortunas por objectos absurdos tais como velas para "curar" o alcoolismo, defumadouros para "afastar os maus Espíritos", ou amuletos para "atrair a sorte". Quando caem em si, quando a conta bancária entra em negativos, e começam a exigir ao médium comerciante o retorno do que gastaram, o médium comerciante, muito convenientemente, resolve amuar, torna-se esquivo e repele aqueles a quem tudo prometeu. Já não lhe interessam mais: o dinheiro esgotou-se.
E porque não se queixam os lesados? Porque têm medo do ridículo. Preferem esquecer.
Repito: é fora de dúvida que existem médiuns comerciantes sérios e bem intencionados, e que de facto ajudam as pessoas em necessidade a resolver os seus problemas; mas são infelizmente excepção, e não regra. E os que interferem positivamente na vida das pessoas não o fazem por obra das velinhas, defumadouros ou amuletos, mas por via de serem bem intencionados, por via do seu ascendente moral (outro tema a que voltaremos).
Não é assim. Médium é a pessoa que supostamente comunica com os Espíritos ou sente a sua influência. Espírita é o simpatizante da filosofia espírita.
Há espíritas que são médiuns. Como há ateus, agnósticos, católicos, protestantes, budistas, que o são. A maior parte dos espíritas nem são médiuns ostensivos.
Certa vez entrei numa loja de velas, amuletos e defumadouros e chamei a atenção para o cartaz que estava afixado a anunciar consultas de um denominado "médium-espírita". O comerciante ouviu a minha explicação e confessou com simplicidade que pensava que era assim que se escrevia. Pois se o médium fala com os Espíritos, na ideia daquele homem, era boa ideia chamar-lhe médium... espírita!
Mas também há médiuns comerciantes que usam essa designação para tentar ganhar credibilidade. Alguns afirmam até ter feito cursos de Espiritismo, e "trabalhar sob supervisão do centro espírita"!
Por aqui se vê o refinamento de alguns destes tratantes!
Por isso repetimos: os espíritas, sejam médiuns ou não, jamais prometem curas ou resolução de problemas, jamais colocam anúncios a publicitar os seus dotes, e jamais cobram seja o que for!
Nota: a imagem que ilustra esta entrada é de um modelo; não colocámos nenhuma foto de um médium comerciante pois não pretendemos denegrir (e muito menos publicitar) ninguém!
E foram três posts com as minhas "confissões" de espírita, dois dos quais a falar de mediunidade. Será que afinal os centros espíritas são um SOS para pessoas a braços com interferências desagradáveis do mundo espiritual?
Cada vez menos, felizmente, pois a informação vai estando cada vez mais disponível e cada vez são menos aqueles a quem os fenómenos mediúnicos apanham desprevenidos. O Espiritismo, seguindo o conselho de Jesus de Nazaré, tenta colocar a candeia em cima do alqueire. E isso significa, entre outras coisas, esclarecer que os Espíritos são apenas pessoas como nós, que nem sempre são mal intencionados, e que, quando o são, mais não fazem do que os chamados "vivos".
Alguns elementos da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP), e da Federação Espírita Portuguesa (FEP), têm passado pelos ecrãs de televisão e pelas estações de rádio, a explicar afinal o que é o Espiritismo, e a seguir são em catadupa os contactos de pessoas que se manifestam aliviadas pelo que ouviram. Muitas vezes guardaram, aflitas, em segredo, casos de fenómenos que presenciaram, com receio de serem tomadas como loucas.
A Internet também veio dar um grande impulso a este movimento de esclarecimento, de tal forma que se pode dizer que quem procura, sempre encontra. Não obstante, ainda são muitos os que entram no Espiritismo pela chamada "porta do sofrimento", e não pela "porta da curiosidade", ou do apelo espiritual.
Eu fui um deles. Para quem já viu o filme O Sexto Sentido, posso dizer que passei por situações similares, embora sem o aparato a la Hollywood e sem a música de fundo a ajudar ao suspense... E isso nada tem de especial, pois são muitas as crianças que vêem, ou ouvem, ou sentem a presença dos Espíritos.
Esses episódios estranhos repetiram-se ao longo da minha vida, até se tornarem por vezes bastante desagradáveis, sobretudo porque eu desconhecia totalmente de que se tratava. Naturalmente, fui ao médico. Ou aos médicos, melhor dizendo. Nunca me foi diagnosticado nada que justificasse tais ocorrências, e fiz todos os exames, e fui a diversos médicos de várias especialidades (psiquiatria, neurologia...). Esclareço também que nunca consumi drogas alucinogénicas. Nem quaisquer drogas a não ser as clássicas: tabaco e uns "copos", nas mesmas quantidades de qualquer adolescente normalmente constituído...
- Isso é stress, meu amigo... beba uns brandies, fume um belo charuto de Havana e esqueça essas ideias, porque o meu amigo não tem nada!... - diziam-me os médicos, de certeza absoluta na melhor das intenções.
Foi um médico de Clínica Geral, com várias especializações, profissional exemplar e de enorme dedicação e curiosidade científica, que acabou por me dar a melhor sugestão, quando me atrevi a contar-lhe o que me apoquentava. Aconselhou-me a ir a um centro espírita!
Fiquei algo surpreendido, pois não sabia o que era o Espiritismo, mas lá fui. Expliquei as estranhas ocorrências que me incomodavam, e fiquei bastante desiludido quando me disseram que não tinha "cura". Mas muito mais aliviado quando me esclareceram que não tinha "cura"simplesmente porque não estava doente. Se os médicos, após tanto exame realizado, concluíram que eu não estava doente, tinham razão, afinal. O que se passava comigo era simplesmente o que se passa com milhões de pessoas.
A partir daí tomei gosto por estudar Espiritismo. Li as obras básicas /(as cinco obras de Allan Kardec), fiz o curso básico de Espiritismo, e não achei nada que contrariasse a Razão ou que a Ciência desmentisse, no seu estado actual de desenvolvimento.
Tive vontade de começar a colaborar no centro espírita, e assim me foi permitido. Hoje dedico boa parte dos meus tempos livres a esta doutrina que me devolveu a paz de espírito, e na qual reencontrei o encanto da mensagem de Jesus, que andava algo esquecida desde os meus tempos de Catequese, na Igreja Católica.
O Espiritismo é uma filosofia, porque apresenta uma proposta para as velhas questões que se põem à Humanidade (quem somos, de onde vimos, para onde vamos). A moral do Espiritismo é a moral do Evangelho, da Boa Nova trazida por Jesus, figura central para os espíritas pelo seu exemplo e pelos seus ensinamentos. O Espiritismo é fé raciocinada, é fé que questiona e submete os seus pressupostos ao veredicto da Ciência.
É sobre estes temas que versam as palestras espíritas, que reúnem amigos movidos por um interesse comum. A evangelização infantil e juvenil procura transmitir os valores cristãos, numa perspectiva de livre pensamento e espírito crítico, aos mais jovens. Os cursos mais avançados destinam-se a quem tem sede de saber mais.
Mas o Espiritismo não se fica pelo plano teórico e discursivo. A proposta espírita é de auto-aprimoramento interior, de doação ao próximo, e daí ser popular no meio espírita este depoimento:
1ª fase - Entramos no Espiritismo
2ª fase - O Espiritismo entra em nós
3ª fase - O Espiritismo sai de nós
O termo "Espiritismo" ainda assusta muita gente. Os Espíritos ainda são vistos como algo que está fora da concepção do Universo quer dos religiosos, quer dos ateus.
Os religiosos consideram que quem morre fica a dormir até ao Dia do Juízo Final. Logo, uma manifestação de um Espírito é uma manifestação de um "demónio".
Os ateus não acreditam em Deus nem nos Espíritos, e, por conseguinte, acham que os espíritas e os religiosos são simplesmente malucos. Pois seja. Estão no seu pleno direito.
"Espiritismo" significa doutrina dos Espíritos. O sufixo "ismo" significa sempre doutrina. E esta foi transmitida pelos Espíritos, não foi imaginada por um homem. Então, que nome lhe haveríamos de dar?
É certo que aos centros espíritas acorrem pessoas alarmadas, em crise, em dúvida, que procuram de facto o Espiritismo como um "SOS espiritual". São as contingências do nosso mundo, em que o sofrimento ainda se sobrepõe à felicidade. Vêm com as mais diversas interrogações, as mais diversas aflições. Muitas encontram aqui, no redescobrir da mensagem cristã, o bálsamo para para as suas dores e a respostas para as suas angústias.
O Espiritismo não se acha detentor da verdade, e fazer adeptos seria a última das suas preocupações. Acreditamos que ninguém é detentor da verdade absoluta - a não ser Deus - e que os conhecimentos da Humanidade ainda são muito limitados. Respeitamos todas as formas de pensar que se pautem pelo respeito ao próximo.
Não se pense também que os espíritas pretendem ser portadores de faculdades especiais ou que vivam em algum estado de beatitude ou que atinjam algum Nirvana. Somos apenas iguais a quaisquer outras pessoas, de todos os sectores de pensamento. Temos qualidades e defeitos como quaisquer outros. Esta é, contudo, a filosofia com que nos afinizamos e cujas implicações morais tentamos pôr em prática.


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