Spiga

O Chique o o Choque



Capítulo 1: Aviso-vos desde já que este post vai ser um bocadinho confuso. Mas a culpa não é minha. É de um senhor careca, de barbas enormes, que ontem vi na Televisão. Nada contra, cada um usa as barbas do comprimento que quiser, mas ele parecia mesmo Deus, na representação antropomórfica de Michelangelo. E se calhar é, ou crê-se, uma espécie de Deus, pelo que me foi dado entender...
Ontem vi um programa da SICRadical chamado TEDTALK, de que já vos falei. Pronunciava-se um cavalheiro ateísta, com aquela superioridade chique dos ateístas, que começou por falar de Charles Darwin. Charles Darwin é um emblema do movimento ateísta, apesar de não ter sido ateu. E é-o porque é tido como autor da Teoria da Evolução das Espécies. Alfred Russel Wallace, que desenvolveu simultâneamente estudos idênticos, que se pôs em contacto com Darwin a propósito dos mesmos, e que apresentou a comunicação da teoria à Academia, conjuntamente com Darwin, é esquecido. quer pelos religiosos, quer pelos ateus. Wallace era espírita.

Capítulo 2: O cavalheiro ateísta leu em tom jocoso uma objecção de um crítico da época às teorias de Darwin. A ideia geral do texto era de que do nada não pode sair alguma coisa. O que parece lógico. Já dizia outro grande cientista que nada se perde, nada se cria, e tudo se transforma. Mas o tudo que se transforma, de onde veio?


É esse paradoxo que os ateus se recusam a considerar. E o referido senhor prosseguiu, no mesmo tom jocoso, superior, que é o chique do chique do Ateísmo, troçando de um enunciado que dizia mais ou menos isto:

Conhece alguma máquina que não tenha tido um construtor?

SIM ___ NÃO ___

Conhece alguma obra de arte que não tenha tido um autor?

SIM___ NÃO ___

Conhece alguma pessoa que não tenha tido pais?

SIM___ NÃO ___

Se respondeu NÃO a alguma das questões, justifique.

Capítulo 3: A suposta desmontagem da argumentação acima descrita (saudada com gargalhadas de desdém por parte da chique assistência), foi a que seguir descrevo.

O cavalheiro mostrou imagens de raparigas esbeltas, de bolo de chocolate, e de um bebé. E perguntou, respondendo-se:


- Porque é que os jovens se sentem atraídos por estas raparigas? Porque são belas.

- Porque é que o bolo de chocolate nos faz salivar? Porque é doce.

- Porque é que nos enternecemos com o bebé? Porque é "fofinho".

Então, triunfal, passou a "demonstrar" que Deus não existe...


Capítulo 4 - A "demonstração" consistiu em mais uma série de preposições:

- As jovens não são belas. Se estivéssemos programados para achar belas raparigas gordíssimas, com quatro olhos e bigode, seriam essas que nos atrairiam. A beleza é um conceito relativo, que a Evolução nos criou, e que significa "fertilidade e saúde".

- O bolo de chocolate não é doce. Etc....

- O bebé não é fofinho. Etc. ...

Capítulo 5 - Correndo o risco de ser um bocadinho rústico, pergunto: e o que tem a ver o cu das calças com a feira de Borba? Acharão os chiques ateus que as pessoas que crêem em Deus não sabem que a bosta é uma iguaria para um escaravelho rola-bosta, ao passo que a bosta, para nós, humanos, é uma... bosta?

O que prova isso contra a existência de Deus? Para quem crêem Deus, essa é mais uma das maravilhas da Criação... ops! Dissemos a palavra proibida! C R I A Ç Ã O! Não há nada que deixe os ateus chiques mais repugnados do que a palavra Criação, que consideram ser o oposto irracional da racional e evoluída E V O L U Ç Ã O...


Capítulo 6 - A Evolução das Espécies não é incompatível com a Ideia de que o Universo foi criado. A Teoria do Big-Bang, a explosão primordial que fez nascer o Universo material, foi produzida por um crente, o astrónomo, físico, e... sacerdote católico belga Georges Lemaître .
Demos a palavra a Marlene Nobre, que é médica ginecologista e investigadora, agora aposentada, e que, apesar de ter a estranha fraqueza de ser espírita, cita como fontes cientistas credíveis que não padecem desse estranho mal que afecta tantas mentes brilhantes:
(...) Reconhecemos o grande valor da Teoria Neodarwiniana e de seus pressupostos básicos - a evolução das espécies, a mutação e a seleção natural - já comprovados pela investigação científica. Ela, porém, tem se revelado insuficiente para explicar a evolução como um todo, porque tem no acaso um dos seus pilares. O mesmo acontece com todas as outras teorias que buscam complementá-la, mantendo a mesma base explicativa, como as de Orgel, Eigen, Gilbert, Monod, Dawkins, Kimura, Gould, Kauffman. Demonstrou-se, por exemplo, através de cálculos matemáticos, a impossibilidade estatística (101000contra um) de se juntar , ao acaso, mil enzimas das duas mil necessárias ao funcionamento de uma célula. Do mesmo modo, já se constatou que o acaso é insuficiente para explicar, passo a passo, de forma detalhada, científica, o surgimento de estruturas complexas, como o olho, o cílio ou flagelo, a coagulação sanguínea.

Por isso, acreditamos que a Teoria do Planejamento Inteligente, que não tem por base o acaso e é defendida por cientistas competentes, como o bioquímico Michael Behe, a bióloga Lynn Margulis, e os físicos Ígor e Grischka Bogdanov, possui argumentos científicos bem mais sólidos para explicar a evolução dos seres vivos. Behe, em seu livro A Caixa Preta de Darwin, afirma que não importa o nome que se lhe dê, mas, para ele, indiscutivelmente, a vida tem um Planejador. Esta mesma conclusão está em Deus e a Ciência, obra de J. Guitton e dos irmãos Bogdanov. Na mesma linha de raciocínio, Margulis e Sagan (2002, p. 289) afirmam: "nem o DNA nem qualquer outro tipo de molécula, por si só, é capaz de explicar a vida". (...)


Capítulo 7 - Mas vamos mais atrás. Não é preciso ser-se físico, astrónomo, médico, nem ter-se umas barbas, uns óculos e uma careca como o senhor do TEDTALK para intuirmos que o Nada não pode aquecer e explodir, num aparatoso Big Bang que originou o Universo.

Não negamos o Big-Bang. No Antigo Testamento ele tem outro nome: faça-se Luz. Fiat Lux, que foi o que Deus "disse". E fez-se Luz.

Capítulo 8 - Antes do Big-Bang alguma coisa forçosamente havia. Se tivermos uma caixa vazia, por muito que esperemos, ela não se enche de nada a não ser de ar e de poeira. O Nada não aquece sozinho.

Capítulo 9 - Outro rapaz medianamente inteligente (hrmmm...hrmmm...), o super-cientista Stephen Hawking, refere-se amiúde a Deus nas suas obras, ainda que não seja um crente tradicional e dogmático. Obviamente, acrescento eu, pois Hawking é um defensor do raciocínio, por oposição ao dogma inquestionável, ao "mistério" a priori inexplicável. E porque eu também sou chique - apesar de não ser ateu - aqui vai uma citação, e em Inglês, para ser ainda mais chique:


"There is a fundamental difference between religion, which is based on authority [imposed dogma, faith], [as opposed to] science, which is based on observation and reason. Science will win because it works."

in Heussner, Ki Mae (7 June 2010). "Stephen Hawking on Religion: 'Science Will Win'". ABC News. http://abcnews.go.com/WN/Technology/stephen-hawking-religion-science-win/story?id=10830164. 9 Junho 2010.

Diz Hawking que há uma diferença fundamental entre ciência, e religião - que se baseia na autoridade da fé dogmática e imposta, enquanto que a ciência se baseia na observação e na razão. E por isso a ciência sai a ganhar.

Allan Kardec, há século e meio, explicou que a ciência e a religião são compatíveis, desde que a fé seja raciocinada e não pretenda desautorizar o veredicto da observação, da ciência e do raciocínio. E é por concordar com isso que sou espírita. E Russel Wallace e Marlene Nobre também.

Capítulo 10 - "Então se Deus criou o Universo, quem criou Deus?" - é a pergunta clássica dos ateus.

Eu cá não sei "quem" criou Deus. Deus é por natureza incriado, eterno, existe desde sempre e existirá sempre. Creio em Deus porque reconheço que o Nada não produz alguma coisa - e muito menos o Universo. Creio em Deus porque pessoas como Jesus de Nazaré vieram dEle dar testemunho. Creio em Deus porque nas coisas aparentemente banais vejo os milagres - mesmo na actividade de um escaravelho rola-bosta. Creio em Deus porque está sobejamente provada a imortalidade da alma, e portanto a existência de inteligências incorpóreas. Creio em Deus porque a razão nos leva facilmente a conceber que "algo" terá criado tudo o que existe, ainda que não consigamos por enquanto conceber Deus, existindo desde sempre e existindo para sempre, Todo-Poderoso, infinitamente justo e bom.

Se os ateus preferem não pensar no que existia antes do Big-Bang, eu não posso fugir a isso. Até porque o Big-Bang pode ser apenas uma parte da história. Já o Hinduísmo tem um mito de um deus que adormece e sonha, e cada sonho desse deus é o nascimento e a morte de um Universo. Por detrás da sabedoria dos Antigos escondem-se coisas tão modernas, científicas e chiques como a teoria dos universos paralelos, por muito que isto choque.

Epílogo -
Ateus que nos leiam, não fiquem a pensar que há da parte dos espíritas qualquer tipo de acintosidade em relação a vós. Contudo, Deus por Deus, prefiro Deus ao senhor das barbas. E já puseram remotamente a hipótese de poderem afinal estar errados, e Deus existir mesmo, no sentido amplo e grandioso que Hawking ou Kardec lhe dão?

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