O EXCLUSIVISMO RELIGIOSO É INACEITÁVEL NOS DIAS DE HOJE
Aqui há tempos perguntava-nos um leitor do Blog de Espiritismo, porque é que a nossa Doutrina se via obrigada a estar permanentemente a explicar o que ela própria é e o que não é. Na altura creio que prometi responder, de modo que aproveito o ensejo deste post para o fazer.
Supomos que em Portugal outras correntes de pensamento não sejam questionadas com tanta insistência. Não temos reparado que haja em relação aos budistas, aos ateus, aos protestantes, aos católicos, aos rosacruzes, a atitude verdadeiramente inquisitorial com que deparamos em relação ao Espiritismo. Aqui mesmo, neste blogue.
O tema é vasto, e as explicações são diversas. Mas uma delas reside no facto de o Espiritismo se considerar uma doutrina cristã. Entre as religiões cristãs existe uma hostilidade ainda muito acesa sobre quem é que pode ser considerado ou não como cristão. A discórdia está sobretudo na questão da natureza humana e/ou divina de Jesus, e na questão do unitarismo e do trinitarismo - já abordados nesta séria que intitulámos "Dias de Páscoa".
Ora se as religiões entre si se combatem e não se entendem, não será de esperar que em relação ao Espiritismo, que não é uma religião em sentido formal, haja mais compreensão.
Jesus de Nazaré - na nossa óptica e sem querermos ofender ninguém - não fundou qualquer religião. A fonte de que todos dispomos para conhecer Jesus é o Novo Testamento, os quatro Evangelhos canónicos. Os Evangelhos apócrifos não têm a mesma qualidade, são em muitos pontos fantasiosos, e por isso não foram aceites pela Igreja Primitiva. Os quatro Evangelistas - Mateus, Marcos, Lucas e João - não conheceram Jesus pessoalmente. Mas os seus relatos baseiam-se na tradição oral do seu tempo, são coerentes e apresentam valor histórico, apesar das centenas de alterações que os escritos originais têm sofrido, por via de traduções imperfeitas e alterações para satisfazer conveniências diversas.
À falta, pois, de melhor fonte, temos os Quatro Evangelhos, que a maior parte dos cristãos crê terem sido escritos por inspiração divina. Ora, nos Evangelhos, não vemos Jesus jamais estabelecer condições sobre o que é ser cristão, prescrever rituais, afirmar dogmas, ordenar sacerdotes, ensinar rituais, ou fundar qualquer tipo de religião ou de movimento organizado.
Os ensinamentos de Jesus são universais. Aplicam-se a todas as pessoas, de todas as religiões, ou sem religião. Por isso, consideramos que toda a gente que o queira, tem o direito de se considerar cristão.
O que é, então, para nós, um cristão?
Alguém que simpatiza com a mensagem de Jesus.
E o que será um bom cristão?
Alguém que se esforça por pô-la em prática, mesmo que nem sempre consiga.
Asseveram-nos alguns que só é cristão quem tem uma determinada concepção de Jesus o Cristo (Cristo não é nome, é um título que deram a Jesus e que significa "O Ungido", ou o "Escolhido").
E essa concepção é a de que Jesus tem obrigatoriamente que ser Deus, juntamente com Deus propriamente dito e com o Espírito-Santo (que alguns consideram "a força de Deus em acção").
Advoga essa linha de pensamento (comum às religiões cristãs), que as coisas se terão passado mais ou menos assim:
- Deus cria o Universo infinito e dá ao planeta Terra o monopólio de ser habitado. Há 4 mil anos.
- O casal primordial, Adão e Eva, é colocado no Paraíso, e leva uma vida maravilhosa.
- Desobedecendo a Deus, o casal come o fruto da macieira, por sugestão de uma serpente, que provavelmente era o Diabo sob disfarce.
- O casal é expulso do Paraíso, e Deus fica muito zangado.
- Passados 2 mil anos, Deus resolve enviar à Terra o seu filho, com a finalidade de este ser injustamente condenado e pregado numa cruz, para que Deus sinta finalmente aplacada a sua cólera.
- Com esse sacrifício do seu filho, que por sua vez é ele próprio mais o Espírito-Santo, a Humanidade deixa de estar condenada por causa de Adão e Eva terem comido a tal maçã.
- Ainda assim, para muitas confissões religiosas, quem não pertencer a uma em especial entre as 38 000 cristãs, e não for baptizado, e não cumprir os preceitos religiosos respectivos, e não for cumpridor dos Mandamentos, vai para o Inferno, ou, na melhor das hipóteses, para o Limbo, um lugar eternamente branco e onde nada acontece, nem alegria nem tristeza, apenas a Eternidade na imobilidade. O Céu é porventura menos monótono, e o Inferno é "apenas" a Eternidade em em caldeirões de azeite a fever. O Purgatório, não se sabe bem o que é, e afinal parece que não existe, juntamente com o Limbo.
É uma opinião, e as opiniões são respeitáveis. Todas...
Supomos que em Portugal outras correntes de pensamento não sejam questionadas com tanta insistência. Não temos reparado que haja em relação aos budistas, aos ateus, aos protestantes, aos católicos, aos rosacruzes, a atitude verdadeiramente inquisitorial com que deparamos em relação ao Espiritismo. Aqui mesmo, neste blogue.
O tema é vasto, e as explicações são diversas. Mas uma delas reside no facto de o Espiritismo se considerar uma doutrina cristã. Entre as religiões cristãs existe uma hostilidade ainda muito acesa sobre quem é que pode ser considerado ou não como cristão. A discórdia está sobretudo na questão da natureza humana e/ou divina de Jesus, e na questão do unitarismo e do trinitarismo - já abordados nesta séria que intitulámos "Dias de Páscoa".
Ora se as religiões entre si se combatem e não se entendem, não será de esperar que em relação ao Espiritismo, que não é uma religião em sentido formal, haja mais compreensão.
Jesus de Nazaré - na nossa óptica e sem querermos ofender ninguém - não fundou qualquer religião. A fonte de que todos dispomos para conhecer Jesus é o Novo Testamento, os quatro Evangelhos canónicos. Os Evangelhos apócrifos não têm a mesma qualidade, são em muitos pontos fantasiosos, e por isso não foram aceites pela Igreja Primitiva. Os quatro Evangelistas - Mateus, Marcos, Lucas e João - não conheceram Jesus pessoalmente. Mas os seus relatos baseiam-se na tradição oral do seu tempo, são coerentes e apresentam valor histórico, apesar das centenas de alterações que os escritos originais têm sofrido, por via de traduções imperfeitas e alterações para satisfazer conveniências diversas.
À falta, pois, de melhor fonte, temos os Quatro Evangelhos, que a maior parte dos cristãos crê terem sido escritos por inspiração divina. Ora, nos Evangelhos, não vemos Jesus jamais estabelecer condições sobre o que é ser cristão, prescrever rituais, afirmar dogmas, ordenar sacerdotes, ensinar rituais, ou fundar qualquer tipo de religião ou de movimento organizado.
Os ensinamentos de Jesus são universais. Aplicam-se a todas as pessoas, de todas as religiões, ou sem religião. Por isso, consideramos que toda a gente que o queira, tem o direito de se considerar cristão.
O que é, então, para nós, um cristão?
Alguém que simpatiza com a mensagem de Jesus.
E o que será um bom cristão?
Alguém que se esforça por pô-la em prática, mesmo que nem sempre consiga.
Asseveram-nos alguns que só é cristão quem tem uma determinada concepção de Jesus o Cristo (Cristo não é nome, é um título que deram a Jesus e que significa "O Ungido", ou o "Escolhido").
E essa concepção é a de que Jesus tem obrigatoriamente que ser Deus, juntamente com Deus propriamente dito e com o Espírito-Santo (que alguns consideram "a força de Deus em acção").
Advoga essa linha de pensamento (comum às religiões cristãs), que as coisas se terão passado mais ou menos assim:
- Deus cria o Universo infinito e dá ao planeta Terra o monopólio de ser habitado. Há 4 mil anos.
- O casal primordial, Adão e Eva, é colocado no Paraíso, e leva uma vida maravilhosa.
- Desobedecendo a Deus, o casal come o fruto da macieira, por sugestão de uma serpente, que provavelmente era o Diabo sob disfarce.
- O casal é expulso do Paraíso, e Deus fica muito zangado.
- Passados 2 mil anos, Deus resolve enviar à Terra o seu filho, com a finalidade de este ser injustamente condenado e pregado numa cruz, para que Deus sinta finalmente aplacada a sua cólera.
- Com esse sacrifício do seu filho, que por sua vez é ele próprio mais o Espírito-Santo, a Humanidade deixa de estar condenada por causa de Adão e Eva terem comido a tal maçã.
- Ainda assim, para muitas confissões religiosas, quem não pertencer a uma em especial entre as 38 000 cristãs, e não for baptizado, e não cumprir os preceitos religiosos respectivos, e não for cumpridor dos Mandamentos, vai para o Inferno, ou, na melhor das hipóteses, para o Limbo, um lugar eternamente branco e onde nada acontece, nem alegria nem tristeza, apenas a Eternidade na imobilidade. O Céu é porventura menos monótono, e o Inferno é "apenas" a Eternidade em em caldeirões de azeite a fever. O Purgatório, não se sabe bem o que é, e afinal parece que não existe, juntamente com o Limbo.
É uma opinião, e as opiniões são respeitáveis. Todas...
Com todo o respeito, o Espiritismo discorda, e vê nestas concepções ainda o reflexo do pensamento politeísta, em que era necessário aplacar os deuses com sacrifícios sangrentos. Não cremos que Deus enferme dos defeitos humanos e se enfureça, se arrependa, necessite de ter a sua cólera aplacada, etc. etc..
"Mas está escrito" no Antigo Testamento que Deus efectivamente se zanga, se arrepende, manda arrasar cidades inteiras e assassinar todos os seus habitantes, que a escravatura é aceitável, que se deve comer com a mão direita e limpar o rabo com a esquerda, que os filhos desobedientes e as mulheres adúlteras devem ser apedrejados até à morte ou que quem é fiel a Deus não pode cortar o cabelo nem a barba.
E alguém cumpre tais preceitos, apesar de bíblicos?
É que há que distinguir na Bíblia o que é da cultura da época e o que é de sempre.
Cristão é quem simpatiza com os ensinamentos de Jesus. Não é quem leva toda a Bíblia à letra - ou não haveria cristãos. Com todo o respeito, e sem querermos ofender ninguém, o Espiritismo é cristão.
A diferença é que para as religiões tradicionais o ponto culminante da missão de Jesus é o seu sacrifício na cruz, enquanto que para o Espiritismo, o importante é a mensagem de que Jesus foi portador. E de que deu os mais belos testemunhos, incluindo na sua injusta execução pelos fanáticos religiosos da época. Pensou nos outros antes de pensar em si mesmo, e dirigiu a Deus a sua prece pelos seus algozes, cegos pelo exclusivismo religiso:
- Pai, perdoa-lhes, pois elas não sabem o que fazem.


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