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Dias de Páscoa - 5



Todas as grandes Ideias - segundo os sociólogos e os antropólogos - conhecem um período inicial de entusiasmo, que cativa seguidores fieis e desinteressados, e, passado algum tempo, acabam por perder muita da sua pureza inicial, contaminando-se com velhos hábitos.

A Ideia permanece pura, os seguidores acabam por adicionar-lhe elementos estranhos, entenda-se. Se olharmos para qualquer movimento regenerador, não nos é difícil verificar que assim é. Os estudiosos chamam a esse processo o "recuo evolutivo".

Um exemplo comum é o das Organizações Não Governamentais, organismos nascidos da iniciativa de homens de Bem, que, após um período inicial de actividade recta, conhecem vicissitudes causadas pela vaidade e pelo egoísmo de colaboradores que perderam de vista o objectivo da instituição que deviam servir.

Mas porquê falar-se de recuo evolutivo a propósito de Jesus de Nazaré?

Olhando para as grandes revelações que a Humanidade terrena tem conhecido, há que considerar, de Norte a Sul e de Ocidente a Oriente, desde tempos remotos, a acção de profetas, ou enviados do Alto, com mensagens de profunda espiritualidade, apontando, na essência, um caminho comum: amar a Deus e ao próximo.

Nuances diversas consoante a personalidade dos mensageiros, as épocas e os lugares, não diminuem o valor das diversas revelações. A Doutrina Espírita, contudo, é da opinião de que há três revelações marcantes:

- Há mais de 3500 anos, Moisés assume-se líder político e espiritual do Povo Hebreu, condu-lo à Terra Prometida, recebe os Dez mandamentos (um código moral inovador na época e ainda hoje infelizmente pouco cumprido) e funda a primeira grande religião Monoteísta: o Judaísmo.

A Primeira Revelação - o Deus Único dos Hebreus - revestiu-se de práticas exteriores, necessárias atendendo à mentalidade da época. Os Hebreus, tal como os seus contemporâneos em todo o mundo, não eram ainda capazes de conceber uma adoração interior, necessitando de fazer oferendas e de uma adoração no geral ritualizada, com sacerdócio organizado, templos, altares.

O recuo evolutivo da Primeira Revelação, dá-se no sentido em que o Povo Hebreu entende o seu Deus como exclusivamente seu, e nele confia para que lhe atribua sucessos políticos e prosperidade, em detrimento, muitas vezes, do cerne da mensagem moisaica.

- Há 2000 anos, Jesus de Nazaré traz uma mensagem mais universal, a Segunda Revelação. Ele mesmo afirma que não vem destruir a Lei. A perspectiva do Deus Único de Moisés é enriquecida com a revelação do Deus justo, bom, que não quer a perdição de nenhum dos seus filhos, que tem para todos reservado um lugar no Reino dos Céus, fazendo disso depender o cumprimento do Mandamento Maior: amar a Deus e ao próximo.

Inicialmente fascinados com a mensagem e com o magnetismo da figura de Jesus, os seus conterrâneos acabam por renegá-lo. O poder religioso encara-o como uma ameaça à religião vigente. Os políticos temem que se converta em cabecilha de um levantamento popular. Jesus é sacrificado pela mesquinhez e incompreensão humanas.

Os Primeiros Cristãos, durante os dois primeiros séculos após a morte física de Jesus, seguiam-lhe os ensinamentos morais com fidelidade. Depois, o Cristianismo passa de movimento cultural regenerador para religião, é constituido religião oficial do Império Romano, e depressa se reveste de hierarquias, sacerdócio, são erigidos templos faustosos, fundadas ordens religiosas, discutidos e resolvidos muitas vezes com guerras sangrentas, os diferendos sobre a natureza de Jesus.

Parece-nos hoje inconcebível que tenha havido massacres entre facções cristãs, por causa de diferendos tais como:

- Seria Jesus um ser criado ou co-eterno com Deus?

- Seria correcto chamar-se a Maria, "mãe de Deus"?

- Seria Jesus humano, seria divino, seria as duas coisas ao mesmo tempo, ou teria a natureza divina "absorvido" a natureza humana?

No entanto, a ferocidade dos combates físicos persiste hoje na energia com que muitas correntes religiosas cristãs se anatematizam mutuamente, com posturas de ódio que negam totalmente a essência da mensagem de Jesus: amar a Deus e amar o próximo.


Aliás, os combates entre cristãos com derramamento de sangue prosseguem, basta que olhemos para a situação na Irlanda, onde católicos e protestantes se envolvem em batalhas campais que por vezes descambam em massacres.

O resultado deste recuo evolutivo é que a vivência pura e sã dos Primeiros Cristãos, cuja fonte mais fidedigna é o Livro dos Actos dos Apóstolos, involuiu até aos dias de hoje, em que mais de 38 000 religiões cristãs reivindicam, cada uma delas, o título de "única e verdadeira sucessora de Jesus, de Pedro, e de todos os Apóstolos ("apóstolo" vem do Grego e significa "enviado").

- O Espiritismo não vem destruir a Lei, como Jesus não veio destruir a Lei. A Terceira Revelação é, como Jesus de Nazaré, para todos, sem apelar a conversões ou militâncias forçadas, sem se assumir como "herdeiro legítimo" ou caminho único para a salvação.

A Revelação Espírita não foi trazida por nenhum homem. Foram os Espíritos que a trouxeram, a muitas pessoas diferentes em diferentes partes do Mundo, no tempo previsto por Deus e anunciado por Jesus quando profetizou:

"E eu rogarei ao Pai, e Ele vos enviará outro Consolador, a fim de que permaneça eternamente convosco: o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber porque não o vê e não o conhece...o Pai enviará em meu nome, e esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito"



(João, XIV, 16 a 26).

O Espiritismo enfatiza a justiça e a bondade de Deus, em termos racionais, defende a compatibilidade entre Ciência e Religião, abre a porta ao estudo científico da imortalidade da alma, apela a uma fé raciocinada e explica a vida futura, a que Jesus se referia como o Reino dos Céus. O Espiritismo não "quer" que as pessoas se tornem espíritas - a não ser que o pretendem, obviamente. O que o Espiritismo quer é que seja vivida, cada vez mais, a mensagem central de todas as revelações espirituais: amar a Deus e ao próximo.



Por isso o lema do Espiritismo é "Fora da Caridade não há salvação", por contraponto ao "Fora da Igreja não há salavação". Qualquer que seja a Igreja, pois todas as 38 000 têm vastos argumentos para se considerarem as únicas depositárias da Verdade.

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