Spiga

O Povo, unido, jamais será vencido...


"Ao entrar, Telémaco ouve gemidos de uma sombra inconsolável. Qual é, perguntava-lhe, a vossa desgraça? Quem fostes na Terra? Nabofarzan, responde a sombra, rei da soberba Babilónia. Ao ouvir meu nome tremiam todos os povos do Oriente; fazia-me adorar pelos babilónios num templo todo de mármore, representado por uma estátua de ouro, a cujos pés se queimavam noite e dia os preciosos perfumes da Etiópia; jamais alguém ousou contradizer-me sem de pronto ser punido; inventavam-se dia a dia prazeres novos para tornar-me a vida mais e mais deliciosa.

"Moço e robusto, quantos, oh! quantos prazeres me restavam ainda por usufruir no trono! Mas certa mulher, que eu amava e que me não correspondia, fez-me sentir claramente que eu não era um deus: - envenenou-me, e... nada mais sou. As minhas cinzas foram ontem encerradas com pompa em urna de ouro: choraram, arrancaram cabelos, pretenderam fingidamente atirar-se às chamas da minha fogueira, a fim de morrerem comigo, vão ainda gemer junto do túmulo das minhas cinzas, mas ninguém me deplora; a minha memória horroriza a própria família, enquanto aqui em baixo sofro já horríveis suplícios.

Telémaco, compungido ante esse espectáculo, diz-lhe: Éreis vós verdadeiramente feliz durante o vosso reinado? Sentíeis porventura essa paz suave sem a qual o coração se conserva opresso e abatido em meio das delícias? - Não, respondeu o babilónio; - não sei mesmo o que quereis dizer. Os sábios exaltam essa paz como bem único; quanto à raiva, nunca a senti, meu coração agitava-se continuamente por novos desejos de temor e de esperança. Procurava aturdir-me com o abalo das próprias paixões, tendo o cuidado de entreter essa embriaguez para torná-la permanente, continua; o menor intervalo de razão, de calma, ser-me-ia muito amargo. Eis a paz que frui; qualquer outra parece-me antes uma fábula, um sonho. São esses os bens que choro.

"Assim falando, o babilónio chorava qual homem pusilânime, enervado pelas prosperidades, desabituado de suportar resignadamente uma desgraça. Havia junto dele alguns escravos mortos em homenagem honrosa aos seus funerais. Mercúrio os entregara a Caronte com o seu rei, outorgando-lhes poder absoluto sobre esse rei, a quem tinham servido na Terra. Essas sombras de escravos não temiam a sombra de Nabofarzan, que retinham encadeada, infligindo-lhe as mais cruéis afrontas. Dizia-lhe uma: "Não éramos nós homens iguais a ti? Insensato que eras, julgavas-te um deus, a ponto de esqueceres a tua origem comum a todos os homens." "Outra, para insultá-lo, dizia: - Tinhas razão em não querer que por homem te houvessem, porque na verdade eras um monstro desumano. Ainda outra: - Então?! onde estão agora os teus aduladores? nada mais tens a dar, desgraçado! nem mesmo o mal podes fazer mais: eis-te reduzido a escravo dos teus escravos. A justiça dos deuses tarda, mas não falha.

(...) "O que mais entristeceu Telêmaco, porém, foi ver nesse abismo de trevas e males um grande número de reis que, tendo passado na Terra pelos melhores, condenaram-se às penas do Tártaro por se terem deixado guiar por homens ardilosos e maus. Tal punição correspondia aos males que tinham deixado praticar em nome da sua autoridade. Demais, a maior parte desses reis não foram nem bons nem maus, tal a sua fraqueza; não os atemorizava a ignorância da verdade, e assim como nunca experimentaram o prazer da virtude, jamais poderiam fazê-lo consistir na prática do bem."

Fénelon, no Telémaco

Eis um retrato da punição dos maus governantes no Além-Túmulo, na concepção dos povos politeístas e panteístas da Antiguidade.

Com a ascensão do Cristianismo, a ideia das recompensas e dos castigos após a vida terrena, não só se manteve, como foi largamente ampliada, com muita literatura teológica descrevendo em pormenor uns e outros.

Apesar disso, a razão humana ainda pouco amadurecida, considerava perfeitamente aceitável transgredir os Mandamentos da Lei Divina, recebidos por Moisés e exaltados por Jesus de Nazaré, desde que se oferecesse à Divindade uma moeda de troca adequada.

Um exemplo ao acaso é da Revolta de Nika, em 532, quando a Imperatriz Teodora aconselhou o marido, Imperador Justiniano, a esmagar pela força a revolta popular contra o aumentos dos impostos, a falta de alimento e de alojamento. Nika era o nome do cavalo que esteve na base uma disputa no Hipódromo, e que acabou por acender os ânimos, pois o Imperador foi acusado de ter sabotado os resultados da corrida, para que seu cavalo favorito fosse dado como vencedor. Mais de 30 000 pessoas foram degoladas a conselho de Teodora, e o Imperador julgou-se quite com Deus usando o dinheiro dos impostos para mandar construir igrejas. Com o Povo ficou quite, pois tornou-se popular por via dessa iniciativa. Já então as obras públicas rendiam muito apoio popular. (1)

Teodora acreditava até poder mudar as Leis Divinas e as Leis Naturais. Segundo alguns autores, terá sido ela o factor decisivo na abolição da reencarnação das crenças cristãs, influenciando a votação no V Concílio Ecuménico de Constantinopla II, em 553. A reencarnação, defendida, entre outros pelo Patriarca Orígenes ( c. 185 — Tiro, 253), terá "perdido" por 3-2 na votação final da proposta de remoção, e assim, Teodora terá, de uma assentada, "limpo" possíveis pré existências menos dignas, e possíveis futuras existências de sofrimentos. Teodora tinha vergonha da sua vida de cortesã que antecedeu o casamento com o Imperador, e diz-se que mandava assassinar quem não lhe agradava, entre outros procedimentos menos cristãos... (2)


Entre os motivos que marcaram a ruptura de muitas sociedades com a Religião, definitivamente consumada no século XIX, destaca-se esta tendência para fazer acordos com Deus, resquício dos tempos em que o Homem apaziguava as divindades com sacrifícios.


Com o advento da Ciência no século XIX, apareceram as teorias para alcançar o paraíso na Terra, com uma inevitável demão de verniz científico e o exílio que se queria definitivo, de Deus. A Deus foi atribuída a causa da infelicidade humana, e as religiões, entendidas como procuradoras de Deus na Terra, foram ferozmente anatematizadas, como obstáculos ao progresso humano e à desejada felicidade e igualdade.


Falar-se em sentimento religioso, em religiosidade, ainda é, no mundo materialista ocidental, sinónimo Religião medieval, de Inquisição, de opressão e obscurantismo. Durante o século XX, os processo de engenharia social traduziram-se no cilindrar impiedoso dos que se recusaram a "ver a luz", 200 milhões de vítimas, mais do que as de todas as guerras e convulsões sociais III a.C e o século XIX.


Os adeptos da engenharia social são essencialmente materialistas. Vêem o ser humano como um agregado de células e o mundo como fruto do acaso. Coerentemente, vêem a sociedade como um intrincado de relações meramente materiais. E crêem que todas as mudanças terão de ser impostas, de fora para dentro, de forma mecanicista, e a todo o custo, porque afinal, a sua razão baseia-se supostamente no veredicto científico. E pouco lhes importa que a engenharia social não seja uma ciência, pois o conhecimento científico, embora baseado em dados objectivos, produz teorias que são científicas precisamente porque não são "certas", no sentido em que são abertas à refutação.
(3)


Tendo exilado Deus da paisagem cultural do mundo, e verificando que o paraíso prometido com a supressão de tal "atavismo", a sociedade ocidental inquieta-se e sente-se frustrada. As mais belas teorias falham, antes de mais por via da ganância, da cupidez e de todo o tipo de imperfeições que os líderes mundanos possuem. O Poder corrompe quem não se alicerça em fortes valores morais. Mas como até a Moral é depreciativamente conotada com caquécticos moralismos, restam poucas esperanças de felicidade a quem põe todo o seu ensejo de felicidade no atingir do ansiado paraíso terreno. A Democracia, um progresso extraordinário para a Humanidade, estagna assim na nostalgia democrática, fenómeno típico do mundo livre, que se traduz pela desistência da participação cívica e pela elevada taxa de abstencionismo político. Continua-se a arranhar a crosta do problema, escalpelizando as virtudes e defeitos do liberalismo e do centralismo, do socialismo e do capitalismo, que serão porventura instrínsecamente neutros, sem se levar em conta o factor humano, o ser humano que concebe os sistemas com a melhor das intenções, mas que falha na sua aplicação. O ser humano na sua totalidade, tem estado fora das cogitações. Discutem-se os sistemas.


Há algumas semanas, em França, o Povo saiu à rua para protestar contra uma vida de casa-metropolitano-trabalho-cemitério. Há 15 dias em Portugal, o Povo saiu à rua (ver imagem), não para protestar contra pessoas ou políticas, mas para exigir seriedade, valores, princípios. Hoje, em Londres o Povo está na rua por motivos idênticos.


É sinal de vitalidade cívica que o Povo saia pacificamente à rua para reivindicar valores, paz, igualdade, justiça. Mas subsistirá sempre a frustração de não se alcançar a felicidade na vida terrena, enquanto se acreditar que só existe a vida terrena, e/ou uma só vida terrena. Subsistirá sempre frustração enquanto a razão amadurecida do Homem de hoje não entender a posição do mundo terreno no concerto evolutivo. E em vão depositarão as Sociedades as suas esperança s de felicidade nas mãos de representantes que se entendam como senhores todos-poderosos, e não como fiéis depositários de mandato sagrado passado pelo Povo. E que tenham gosto (já que não têm o temor dos governantes da Antiguidade) em dar o seu melhor pela felicidade, pelas esperanças e pelos sonhos de quem acreditou neles. A contestação popular aos maus governantes e aos maus políticos em geral, é apenas um prenúncio e um sinal avisador da sanção da justiça divina, que os Antigos pressentiam nas suas representações infantis do Além.


O Povo, unido, jamais será vencido. A não ser que se convença de que, como decretaram alguns filósofos, somos meros agregados de células e filhos do acaso.


(1)
- Lynn Hunt et al., The Making of the West: Peoples and Cultures, Boston Bedford, 2001, p. 263.


(2)
- [O Mistério do Eterno Retorno, pág. 127-127, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, 1996]. (Si quis dicit, aut sentit proexistere hominum animas, utpote quae antea mentes fuerint et sanctae, satietatemque cepisse divinae contemplationis, e in deterius conversas esse; atque ideirco apofixestai id este refrigisse a Dei charitate, et inde fixás graece, id est, animas esse nuncupatas, demissasque esse in corpora suplicii causa: anathema) [Magia e Religião, Dr. Rozier, Editora Iniciação, abril de 1898, tradução para o francês por Papus. A Reencarnação, págs. 89-90, Editora Pensamento, São Paulo, 1995]. (CHAVES, 2002, pp. 185-187).


(3)
POPPER, KARL R. Lógica da pesquisa científica. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1975, p. 52 - 58.

Partilhe este artigo:

0 comentários:

Enviar um comentário