Artur Agostinho era uma daquelas instituições nacionais que damos por garantidas, e que por isso nem nos detemos devidamente a apreciar. Está sempre ali, acompanha-nos pela vida fora, é-nos familiar, é nosso e pronto. Noutro país seria considerado uma imagem de marca. Nós por cá não nos atemos a essas coisas.
Habituei-me a ouvi-lo relatar os golos do Eusébio e as defesas do Costa Pereira. Qualquer rapaz normalmente constituído, naquela altura, gostava de jogar futebol e pontuar as melhores jogadas por relatos à Artur Agostinho. Éramos todos jogadores-relatadores, e era bastante divertido passar assim gloriosas tardes, em que a rua se ampliava em estádio por obra dos altos voos do nosso pensamento.
A primeira vez que percebi que Artur Agostinho não era eterno foi quando o vi a fazer uma publicidade a uma cadeia de lojas de óculos. Como de costume, admirei-lhe a naturalidade e a versatilidade de actor. Mas depois comecei cá a pensar que, sendo cada ano de idade 1% de desconto, ele já ia perigosamente a caminho de levar a armação de borla. Mau, mau- pensei - isto um dia ainda acaba mal...
Esses malfadados três dígitos que representam uma espécie de meta, e ainda por cima poucos a alcançam. Não é chato morrer; o que é chato é morrer tão jovem. Morreu hoje, com 90 anos de idade, o Artur Agostinho. Ainda há pouco tempo apareceu numa série juvenil qualquer, a fazer uma perninha como actor. A idade, traiçoeira, atribuiu-lhe um papel de avô pacholas, aristocrata de brasão bordado no blaser. Mas se não fosse a limitação da idade biológica, fora do controle até de um Artur Agostinho, não me admirava nada de o ver pegar num skate ou numa BMX e fazer ali umas cabriolas, com os outros com idade para serem bisnetos.
Enquanto digito estas toscas linhas, ouço os pássaros a cantar, alegres, nas suas acrobacias aéreas, por sobre as mesmas ruas onde joguei à bola em miúdo. Estão lá agora outros miúdos, adornando o crepúsculo primaveril com fintas e passes estonteantes. A vida imita o futebol.
Artur Agostinho foi sempre jovem. Morreu jovem. E para que não digam que não falei de Espiritismo num blogue espírita, digo-vos que afinal nada acabou mal. Porque não acabou.


4 comentários:
22.3.11
Desencarnou hoje um espírito
muito jovem, muito positivo.
Que exemplo, meu Deus!
Que ser generoso.
Que força da natureza!
Cada minuto da vida de Artur Agostinho
foi uma profunda lição para todos.
Pois é assim, doando que se recebe, e
que se faz a vontade do Criador.
Sem necessitar de falar em Deus,
na sobrevivência da alma,
em Jesus, em Siddhartha Gautama,
em Alá, em Maomé,
em sacerdotes ou profetas,
sem rituais, nem velas ou superstições,
o nosso grande comunicador,
de forma muito brilhante, mas humilde,
de forma profissional, mas generosa,
interpretou o seu papel principal,
de acordo com o guião divino,
que lhe foi impresso na consciência.
Por detrás daquele corpo gasto,
já com 90 anos de idade,
viveu uma boa e eterna alma, agora livre,
A homenagem mais alta e mais útil,
que se pode fazer a um homem assim,
É deixarmo-nos contagiar,
dentro das nossas possibilidades,
salvaguardadas as devidas distâncias,
por tão grande, integra e bela força de viver.
Se todos fossemos íntegros, determinados, trabalhadores, generosos e positivos, como ele, Portugal seria bem melhor do que é! Sejamos quem formos, usemos cada um de nós, sem excepção, o seu maravilhoso exemplo e atitude, e não tenhamos medo do futuro
Até qualquer dia amigo Artur
Nota:
- Não tivemos o gosto de o conhecer pessoalmente, mas ele esteve sempre presente em nossas casas. Era da família de todos os portugueses. E a todos deixa, decerto, saudades.
VS
in http://cedak-pt.blogspot.com
22.3.11
Caríssimo André, vi mesmo agora uma entrevista que AA deu à SIC há cerca de 2 anos. Estava fresco como uma alface, cheio de energia e alegria de viver.
Terminou a entrevista com uma frase simples e demonstrativa do seu "ser": "gostava que se lembrassem de mim como um gajo porreiro".
Faço-lhe esse favor ao pensar na sua passagem.
Grande abraço.
23.3.11
Subscrevo as vossas palavras. O exemplo, mais que as palavras, demonstram a grandeza d'alma. Uma das coisas que apreciei nele foi como não guardou rancores em relação a certas injustiças que sofreu. Na minha singela crónica esqueci-me do Brasil, onde Artur Agostinho foi magnificamente acolhido em período difícil da sua vida, e onde deixa muitas amizades.
Abraço,
AA
23.3.11
Olá André
Não há dúvida que a vida dele é também um exemplo de perdão, de interiorização dos princípios ensinados por Jesus, por exemplo, na prece do "Pai Nosso".
Como dizia Jesus, aqueles que agem de forma agradável a Deus é que são os verdadeiros Cristãos. Pouco interessa o que dizemos que somos.
VS
Enviar um comentário