Spiga

"Um casal, dois clubes, um grande desafio"



olá, peço desculpas por ocupar este espaço para pedir conselhos, andei muito a procura e não sabia onde postar minha dúvida. Sou espírita, desde muito pequenina, como posso "convencer" meu companheiro a ir ao centro comigo? Ele não tem religião, não liga nada para isso. Ele nunca me disse, mas sei que no fundo, por ignorância associa espirito a rituais de "macumba", umbanda (não sabe distinguir uma coisa da outra) e eu tb não estou apta para esclarecer a maioria das dúvidas dele. Por onde devo começar? como convence-lo a ir comigo e começar aprender sobre a doutrina? Mais uma vez desculpe a invasão e obrigada desde já.

S.


Olá S.,

Quando li a sua mensagem lembrei-me imediatamente dos estádios de futebol em Portugal, que têm um sector para casais "especiais". Eu explico: Em Portugal, como em outros países, existem clubes que não geram grandes ódios, embora gerem grandes amores (Belenenses, Académica, Portimonense, Boavista, União de Leiria...), mas existem três que suscitam paixões extremas de amor ou de ódio (Benfica, Sporting e Porto). Quando estes últimos jogam entre eles, os adeptos são separados por cordões policiais já fora do estádio e seria impensável sentarem-se juntos. No entanto, para casais em que cada um é de um destes clubes, a direcção tem lugares especiais.

Enquanto os adeptos mais fanáticos se insultam mutuamente, marido e mulher de clubes diferentes sabem assistir ao jogo com paixão, com alegria (com pequenas provocações, até), mas sem nunca esquecerem as suas prioridades. Que são uma vida em comum, o cultivar do amor que os une, e o viver respeitando-se mutuamente - até no clube que apoiam.

Convenhamos que nem todos os pares seriam capazes de viver com a circunstância de serem de clubes diferentes. E se se tratar de religiões diferentes? Antes de mais, convém que se certifiquem que são capazes de viver com as vossas diferenças religiosas.

Conhecemos casais de religiões diferentes. Ou em que um é ateu/agnóstico e outro é religioso. Há situações desagradáveis, em que um dos cônjuges impõe condições:

"Podes ir, mas tens que estar em casa daqui a duas horas!"

Noutros casos, após um período de tolerância, aparecem os conflitos:

"Desde que começaste a ir ao centro espírita/igreja evangélica/missa católica/sinagoga/etc., eu fico aqui sozinho/a em casa, pois tu preferes a tua religião à minha companhia!"

Nem sempre é fácil. Se um dos membros do par prefere não conhecer a religião do outro, deverão estar bem seguros do compromisso de, já que não quer conhecer, pelo menos deverá sempre respeitar.

No Espiritismo não costumamos ver os casais como "irmãos siameses", aquele tipo de par que onde está um está o outro. Essa obsessão de estarem sempre juntos e fazerem as mesmas coisas pode ser tão prejudicial como o oposto, que é andarem sempre distantes um do outro, não partilhando actividades, sentimentos, alegrias, preocupações.

Se o seu namorado acha que o Espiritismo é uma coisa respeitável, mesmo que não saiba exactamente de que se trata, isso já é muito bom. Pode mostrar-lhe uma página espírita da Internet, mostrar-lhe um vídeo de um evento espírita, oferecer-lhe um livro como "O Espiritismo em Sua Expressão mais Simples" - até pode fazer o download aqui no site e enviá-lo por email.

Mas sem forçar. Cada pessoa é um mundo, e há que respeitar o ritmo de cada um. Há quem seja lento a resolver-se a aceitar conhecer uma coisa nova. Há quem tenha medos que não goste de partilhar. E de facto, não pode forçar as coisas. Desde que ele respeite a sua decisão de ser espírita, é de todo justo que respeite a decisão dele de não querer conhecer o Espiritismo.

Mais importante do que ele chegar alguma vez a conhecer o Espiritismo, é certificarem-se ambos de que o Espiritismo não seja nunca motivo de conflito entre ambos. A opção religiosa, filosófica, política, de cada um, é algo de profundo e de sagrado. Desistir de uma crença "por amor (como muita gente faz) em nossa opinião não é, de forma alguma, um acto de amor. É uma pessoa anular-se em nome de um erro - a intolerância. Duas pessoas que planeiam viver juntas devem decidir antes se conseguirão viver com as suas diferenças. Se não, mais vale não chegarem a casar. Casar na esperança de que depois tudo se resolva, é esquecer o velho ditado que diz que "pau que nasce torto, tarde ou nunca se endireita".

A imagem que ilustra esta entrada, bem como o título, é de uma iniciativa da rádio católica portuguesa. O vosso desafio é maior que um jogo de futebol. Mas é perfeitamente possível de ser ganho. Com amor e respeito, com elevação de sentimentos, é possível.

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