Hereafter - Outra Vida
De: Clint Eastwood
Com: Matt Damon, Cécile de France, Jay Mohr, Bryce Dallas Howard, George McLaren, Frankie McLaren
Género: Drama
Classificacao: M/12
Crítica Ípsilon por:
Mário Jorge Torres
Um belíssimo exercício "nocturno" sobre furtivas lágrimas, encontros e desencontros
Há no cinema de Hollywood uma imensa tradição de filmes sobre contactos com o além, representações do "post-mortem", "mediums", céus imaginados, com anjos e julgamentos celestiais, ou visões, desde "O Defunto Protesta" (1941) até "Ghost - O Espírito do Amor" (1990), passando por "Sempre" (1989), e não estamos sequer a ser exaustivos ou cronologicamente coerentes. O que pode parecer inesperado é associar esta dimensão metafísica ao nome de Clint Eastwood, mais conotado com narrativas sólidas, "terra-a-terra", girando em torno a interrogações de outra índole: o lugar do indivíduo num mundo complexo com o qual se defronta.
Por tudo isto, "Hereafter - Outra Vida" desafia o espectador a encontrar pistas alternativas de leitura que não se esgotem no aparato exposto das linhas argumentais de Peter Morgan, também ele mais conhecido por imaginativas variações sobre o docudrama ("A Rainha" ou "Nixon"): três histórias "desconexas" (chega a parecer-nos que estamos em filmes diferentes) sobre experiências parapsicológicas, centradas em três cidades diferentes, com passagem por outros espaços dispersivos, para se reunirem no final por via da coincidência (e o acaso das falsas coincidências é um motivo recorrente na obra de Eastwood) numa resolução eminentemente previsível.
A primeira história, que filma com primorosa eficácia um tsunami, numa ilha paradisíaca dos Mares do Sul, desemboca numa Paris de filme, ambientada nos bastidores televisivos com uma fabulosa Cécile de France em complexa jornalista. A segunda história parte de São Francisco para um périplo mental pelas experiências de um indivíduo (extraordinário Matt Damon, entregue aos seus fantasmas) com "verdadeiros" poderes mediúnicos que considera mais como uma maldição do que como um dom.
A terceira põe em cena dois gémeos, um dos quais morre atropelado, protegendo o outro (ao retirar-lhe da cabeça o boné que os une, enquanto duplos imperfeitos) de perecer no ataque terrorista ao metro à saída da estação de King''s Cross - tal como o tsunami inicial, uma entrada do real pela fantasia descabelada dentro.
A união do mosaico faz-se, de forma voluntariamente óbvia mas inteligente, pelos artifícios que a ficção constrói terna e persistentemente perante os nossos olhos: a jornalista francesa sobrevivente do tsunami insiste em registar em livro a sua estranha experiência de quase-morte; o gémeo procura comunicar com a sua outra metade, procurando na Net quem lhe possibilite a comunicação, defrontando-se com o charlatanismo reinante; o "verdadeiro" médium viaja até Londres, onde assiste ao lançamento do livro da jornalista e se depara com o gémeo que, de certo modo o procurava já. Tudo "irritantemente" previsível, caso não fizesse parte do projecto global como um "puzzle" em metódica construção.
A genialidade do argumento passa, aliás, por dois jogos culturais que convém destacar. Primeiro, a personagem de Matt Damon, George Lornegan, tem uma obsessão por Charles Dickens, cuja gravura preside ao espaço claustrofóbico do seu apartamento, ouvindo metodicamente no gravador excertos sintomáticos da sua fulgurante prosa, pretexto também para o "cameo" de Derek Jacobi, a lançar na feira do livro de Londres uma gravação de "Um Conto de Natal", chave codificada para a estrutura do filme: a opção por um realismo visionário. Mas não ficamos por aqui: na visita à casa-museu do romancista vitoriano, vemos Damon face a uma outra gravura que representa o sonho de Dickens, possuído pelas suas personagens, como se de espectros de uma outra vida se tratasse, desdobramento de uma extraordinária capacidade visionária, que, inclusive, transforma a história do gémeo, com a mãe toxicodependente e a sua entrega a uma família adoptiva, numa versão paródica (no sentido mais sério do termo) do jovem herói "dickensiano", variação moderna e descontextualizada sobre David Copperfield ou Nicholas Nickleby.
Segundo, num dos episódios subsidiários do filme, as aulas de cozinha italiana, que dão origem a um falhado (devido ao forçado uso dos seus poderes) encontro amoroso, encontram-se pautadas por três trechos de ópera (três como as histórias principais do filme): "Una Furtiva Lagrima", do "Elixir de Amor" de Gaetano Donizetti, "Nessun Dorma" da "Turandot" de Puccini e um excerto de "La Bohème", do mesmo Puccini. Se a última poderá resolver-se na interrupção patética do romance que não chega a existir com a sua "parceira culinária" (porque ele "vê" o segredo da sua infância), as outras duas articulam-se directamente com a essência da narrativa a que presidem: o modo como se configura uma espécie de melodrama em filigrana, em que as "furtivas lágrimas" aparecem como resquício de um sentimento filtrado e distante; a relação com o outro lado do espelho em que os mortos ("que nenhum durma", como na ária do príncipe Kalaf da "Turandot") despertam para comunicar com os vivos num diálogo mais "real" (e actuante) do que metafísico.
E aqui chegamos à questão essencial: mais interessado nas relações profundas entre as personagens do que no folclore psíquico (não é por acaso que a maioria dos videntes se revela como fraude), o filme de Eastwood institui-se, sobretudo, como interrogação inteligente aos mistérios da vida e da morte, sem tomar partido nem negar nenhuma das hipóteses sobre que elabora. Um belíssimo exercício "nocturno" sobre furtivas lágrimas, encontros e desencontros.
http://ipsilon.publico.pt/cinema/filme.aspx?id=272146
"Outra Vida": Clint Eastwood por territórios do além
Alexandre Costa (www.expresso.pt)
Inesperadamente, Clint Eastwood, o duro e implacável herói de outros tempos ou o mais recente realizador de filmes de realidades empedernidas como as de "Gran Torino" e "Million Dollar Baby", volta-se para o espiritismo. Em "Hereafter - Outra Vida", o seu novo filme que hoje estreia nos cinemas portugueses, Matt Damon surge como um medium que comunica com as almas do além.
O argumento é de Peter Morgan (o mesmo de "A Rainha" e "Frost/Nixon") que se inspirou em "If the Spirit Moves You: Life and Love after Death", o livro de Justine Picardie, uma jornalista inglesa, que em choque pela morte prematura da irmã, decidiu contactar mediums que se dizem capazes de ouvir os mortos.
No filme, George Lonegan (o personagem que Damon interpreta) adquiriu as suas capacidades espíritas em miúdo, após um problema de saúde que o deixou entre a vida e a morte. Em breve, percebeu que, longe ser um dom, as suas capacidades eram um verdadeiro tormento.
Os pais chegaram a dar-lhe fortes anti-psicóticos para o livrar desse mal, só que a medicação deixou-o em tal estado que parecia anulá-lo a ele próprio, enquanto ser vivo, de modo que teve de procurar outras formas de lidar com as suas capacidades.
Em tempos chegou a fazer disso uma lucrativa atividade, anunciando mesmo os seus serviços de medium num site na Internet. Agora está determinado em deixar isso para trás, mantendo um trabalho normal na sua cidade, São Francisco,e procurando a todo o custo que ninguém saiba das suas capacidades. A tarefa não é contudo nada fácil, porque ele é verdadeiramente perseguido por gente desesperada por falar com os entes queridos.
O filme começa com imagens de um destino turístico asiático, onde se encontra um casal francês quando ocorre o maremoto de 2004. Seguem-se impressionantes imagens do avançar da gigantesca onda por terra adentro. A mulher (Cécile De France), uma pivot de um canal francês, é apanhada na rua no momento do maremoto.
Arrastada pela onda é encontrada mais tarde desfalecida. Tentam reanimá-la, mas ela não reage. E quando todos à sua volta já a encaravam como mais uma vítima mortal, deixando-a espojada sozinha, ela reanima.
Apesar da experiência não lhe ter deixado sequelas físicas, a pivot guardou visões de "para além da vida", que a continuam a perturbar após ter regressado a França e retomado a sua atividade normal. Decide tirar uma licença para recuperar e escrever um livro sobre esse tipo de experiências.
Um pouco mais adiante a ação salta para Londres, onde dois irmãos gémeos (Frankie e George McLaren) tentam ludibriar os assistentes sociais, para que estes não encontram provas da negligência da sua mãe, toxicodependente, e os enviem para uma família adotiva. Pouco depois um dos miúdos morre atropelado, deixando o irmão profundamente perturbado.
Oriundos de diferentes pontos do globo, o caminho dos três personagens que, embora de modo de muito diferente, têm em comum uma proximidade para com almas que já não estão neste mundo, cruzam-se na fase final do filme.
http://aeiou.expresso.pt/publicarquinta-outra-vida-clint-eastwood-por-territorios-do-alem=f626895
Rectificações:
Fala de mediunidade, faculdade orgânica que os médiuns (não médiums) como personagem de Matt Damon têm de forma ostensiva
E este não tem uma capacidade espírita, tem uma capacidade medíunica
Espírita é uma pessoa que segue o Espiritismo como Doutrina Científica, Filosófica e Religiosa
São palavras criadas por Allan Kardec em 1857, o seu codificador
Há muitos espíritas q não são médiuns e muitos médiuns que não são espíritas
Mediunidade e médiuns existem desde que a humanidade existe
O Livro dos Médiuns de Allan Kardec, que celebra este mês 150 anos, continua a ser o maior tratado sobre Mediunidade publicado até hoje
Cada vez mais actual face ao desconhecimento e abuso da prática medíunica
Um estudo experimental e científico sobre as relações entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual.
Além da Vida - Trailer Legendado [HD]
http://www.youtube.com/watch?v=8lGyT38g4r0&feature=player_embedded
Leitores de O DIA podem conferir a pré-estreia de ‘Além da Vida’, filme de temática espírita
Rio - Assunto campeão de bilheteria no cinema nacional em 2010, a vida após a morte também está virando mania em Hollywood. Com lançamento programado para sexta-feira, ‘Além da Vida’, o novo filme de Clint Eastwood, coloca em xeque a tal passagem dessa para uma melhor e os leitores de O DIA vão poder assistir à pré-estreia do longa, nesta quinta-feira, às 21h30, no UCI do New York City Center. Os 100 primeiros que ligarem nesta quarta-feira (05/01/2011), a partir das 10h, para 2461-2004, ganham um par de ingressos.
Foto: Divulgação
A história reúne o destino de três personagens que têm suas vidas transformadas após entrarem em contato com a morte de diferentes maneiras. George, vivido por Matt Damon, é um médium norte-americano, que, assim como o nosso Chico Xavier, é procurado por pessoas que querem fazer contato com entes queridos que já não pertencem mais a este mundo.
Paralelamente, um tsunami destrói uma pequena cidade litorânea na Tailândia e quase mata a jornalista francesa Marie (Cécile de France). Enquanto isso, em Londres, um acidente faz com que o menino Marcus (George McLaren), filho de uma mulher drogada, perca seu irmão gêmeo Jason e comece a questionar se existe ou não o plano espiritual.
“Não sabemos o que acontece do lado de lá, mas, do lado de cá, tudo acaba. As pessoas têm suas crenças sobre o que acontece e o que não acontece depois da morte, mas é tudo hipótese. Ninguém sabe até chegar lá”, analisa o diretor e produtor Clint Eastwood.
Para a produtora do filme, Kathleen Kennedy, a vida costuma ser definida após a morte. “É engraçado olhar para isso dessa maneira. Acho que todos queremos acreditar que exista algo além, mas que não temos certeza do que possa ser”, diz ela.
O astro Matt Damon, que já havia trabalhado com Clint em ‘Invictus’, ano passado, aprecia a possibilidade da comunicação com o outro lado, diferentemente de seu personagem. “Acho que essa acaba sendo uma mensagem a favor da vida. Mas o George não quer ser assim, enxerga seu dom mais como uma maldição do que como uma dádiva”, acredita Matt.
O roteiro de ‘Além da Vida’ foi escrito por Peter Morgan depois que o autor perdeu um amigo querido. “Ele morreu de uma forma extremamente violenta. Não fazia sentido algum. O espírito dele estava tão vivo entre nós. No funeral, eu pensava o mesmo que muitos provavelmente estavam pensando: ‘Para onde ele foi?’”, conta Peter, que, no filme, procura trazer um alento às pessoas que lidam com a perda. “Repentinamente, uma pessoa vai embora e ficamos sem saber nada...”.
PLANO ESPIRITUAL SEM DRAMA
ALÉM DA VIDA **
CRÍTICA JOÃO FERNANDO
O tom de distanciamento da franquia hollywoodiana de Chico Xavier faz com que ‘Além da Vida’ não empolgue tanto quanto os filmes espíritas feitos por aqui. Apesar de apresentar cenas que retratam o outro plano, o filme aborda a relação com a vida após a morte de uma maneira bem diferente das produções brasileiras, repletas de sentimentalismo e lições de moral.
No longa, o envolvimento dos personagens com a questão da morte mistura o sentimento de curiosidade e admiração pelo plano espiritual, que lembra um pouco a avidez que os cidadãos de ‘Nosso Lar’ têm para se comunicar com quem está em outra dimensão.
O roteiro plausível de Peter Morgan (de ‘Frost/Nixon’ e ‘A Rainha’) se apoia em situações reais, como os atentados no metrô de Londres e o tsunami na Ásia, para temperar a trama, que, no início, se fragmenta muito, quando as três histórias se alternam na tela.
Com nomes de peso do cinema comercial e de arte no elenco, ‘Além da Vida’ equilibra bem as cenas de ação com efeitos especiais e as sequências feitas para refletir, todas com o toque de elegância da direção de Clint Eastwood, que deixa o drama tomar conta em planos feitos para tentar emocionar.
Ao contrário dos filmes de temática espírita brasileiros, pensados principalmente para atrair os seguidores da doutrina, ‘Hereafter’ (no original) tenta seduzir pelas sutilezas das relações humanas. Além disso, traz boas provocações para quem se ilude por charlatões e pessoas que se dizem médiuns e mostra ainda como a crença no outro plano pode se tornar um negócio rentável.
Recebido por email de Nuno Emanuel




1 comentários:
24.1.11
Parabéns pelos comentários do filme.
Sem misturar com o Espiritismo, é um filme de Hollywood, mas que é uma forma de divulgação de médium/mediunidade.
Gostei muito!!!
Um abraço
Enviar um comentário