Spiga

Vês, Tio?...



O jornal Público está a compilar as dez lições dos primeiros dez anos do século XXI, destacando hoje que deve haver muitas outras Terras no Universo.

Quando foi descoberto o primeiro planeta fora do Sistema Solar, confesso que senti que me fizeram justiça. Na minha já longínqua infância teimei com um tio meu que na vastidão incomensurável do Universo, deveria forçosamente haver outros planetas, segundo todas as probabilidades. O meu dogmático tio contrapunha-me os manuais escolares e os compêndios de Astronomia, que afirmavam peremptoriamente Mercúrio Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno e Plutão.

Aos argumentos do "Onde é que está escrito?" e do "Então prova que lá!", entusiasticamente apoiados por uma assembleia de familiares irritados com o atrevimento do garoto, não consegui replicar, pois só o poderia fazer com igual dose de sofisma, a que sempre fui avesso.

Em trabalhos bem piores que os meus se meteu Giordano Bruno, clérigo do século XVI, que afirmou a existência de outros sistemas solares e acabou queimado nas fogueiras da Santa Inquisição. Mais afortunado foi Galileu Galilei, que teve a ousadia de afirmar que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário. Só teve que abjurar oficialmente a sua descoberta científica.

O que é curioso é que ainda hoje, com a democratização do Conhecimento, a universalidade do Ensino e o progresso na difusão das Ideias, ainda há barreiras ao reconhecimento de que a Terra é no Universo o mesmo que um grão de areia em todas as praias da Terra. Se não menos...

Ainda há quem tenha a pretensão de que esta minúscula esfera detenha o exclusivo da vida inteligente, ou mesmo da vida biológica. Estaremos mais ou menos no ponto em que estávamos há uns seis séculos em relação ao globo terrestre, quando se acreditava que para além da linha do horizonte apenas existia um abismo. E monstros tragadores de naus.

A ideia de vida inteligente em outros planetas é particularmente inconveniente para as religiões cristãs tradicionais, que fundaram os seus dogmas na seguinte sequência de acontecimentos, com algumas variações:

1 - Deus cria o Universo e atribui à Terra o exclusivo da Vida.

2 - Deus coloca o Adão e Eva - primeiros seres humanos - na Terra.

3 - Adão e Eva cometem um "pecado" (nunca claramente especificado), e condenam os seus descendentes (descendência nunca claramente enunciada) a uma vida de atribulações, carregando, ao longo de gerações, a mancha do "pecado original".

4 - Deus, resolve apaziguar a própria ira (!!!), enviando o seu filho à Terra, com o objectivo de se fazer imolar numa cruz, como resgate pelo "pecado original" do primeiro casal humano.

5 - Cumprida a imolação, Deus faz as pazes com a Humanidade, a quem promete salvar, no Dia do Juízo Final, com uma condição:

6 - Os Homens terão que escolher, dentre as 35 mil religiões cristãs dogmáticas que existem, a que estiver "certa".

7 - Se errarem a escolha, correm o risco de penar a Eternidade nos Infernos, ou de serem simplesmente destruídos.

Não admira que a racionalidade do Homem de hoje rejeite uma cosmogonia* tão infantil e tão claramente mesclada de Antigos mitos pagãos. Não cabe na cabeça do Homem pensante que Deus requeira sacrifícios, ainda por cima humanos, ainda por cima do seu suposto primogénito, para acalmar a sua suposta ira.

Eis porque eram queimados homens de Ciência pela Inquisição: pela ameaça de fazerem ruir um castelo de dogmas irracionais.

Hoje, que já não existe Inquisição, ainda há contudo quem procure desacreditar as descobertas científicas, continuando a defender a ideia de um Deus criado à imagem e semelhança do Homem, um Deus que se zanga, que se arrepende, que tem, em suma, os nossos defeitos. A ideia de vida extra-terrestre, apelidam-na de delírio e ficção científica. Mas a ficção, como de costume, apresta-se para ultrapassar a realidade. O Deus antropomórfico, que acima das nuvens põe toda a sua solicitude neste pequeno globo, tem os dias contados. A Fé raciocinada nada tem a temer das descobertas da Ciência. Pelo contrário: a Ciência desvenda a obra da Criação - na óptica de quem crê numa origem não acidental do Universo.

A Doutrina Espírita, que considera Deus a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, não tem espaço para o milagre ou para o sobrenatural. Há 150 anos que Allan Kardec compilou nas 5 obras básicas do Espiritismo as informações oriundas do mundo espiritual, claramente favoráveis à existência de vida inteligente espalhada pelo Universo. A pluralidade dos mundos habitados é um dos 5 pilares do Espiritismo. Ainda não está cientificamente sancionada, mas vamos a caminho.

O meu tio também defendia a veracidade literal do mito bíblico dos Sete Dias da Criação e da vida inteligente como exclusiva da Terra. "Explicava " ele que é possível que a Génese Bíblica (tomada literalmente), e as teorias científicas sobre as origens do Universo sejam ambas verdadeiras, embora contraditórias, porque "Religião é Religião, e Ciência é Ciência".

Aguardo com curiosidade o que vai ele dizer quando se encontrar Vida fora da Terra. Se calhar serei eu a dizer, mais uma vez: "Vês, Tio?...".

* - Cosmogonia (do grego κοσμογονία; κόσμος "universo" e -γονία "nascimento") é o termo que abrange as diversas lendas e teorias sobre as origens do universo de acordo com as religiões, mitologias e ciências através da história.


Para saber mais sobre este tema, na óptica espírita, aconselhamos a leitura de O Livro dos Espíritos (a obra básica entre as obras básicas desta filosofia), e A Génese ( uma das cinco obras básicas). Para download neste site - gratuito, como todos os serviços espíritas.

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2 comentários:

Ivana Maria

28.12.10

É tão interessante analisar que apesar de tanta evolução científica os passos do homem para a sua evolução espiritual ainda são lentos. "A Fé raciocinada nada tem a temer das descobertas da Ciência. Pelo contrário: a Ciência desvenda a obra da Criação- na óptica de quem crê numa origem não acidental do Universo." Eu creio nisso. Um grande abraço.

André

29.12.10

Olá Ivana,

A "asa" da inteligência tem-se desenvolvido, mas a "asa" da moral nem por isso. O nosso "voo" está desequilibrado. Mas vêm aí novos Tempos, se Deus quiser.

Já há um número razoável de cientistas com coragem para desafiar a hegemonia Materialista.

Abraço,

AA

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