Spiga

"A Fé dos Homens"

A FÉ DOS HOMENS


"A Fé dos Homens"
é um programa de Televisão. Segundo consta da apresentação no site oficial da RTP, é "um espaço dedicado às diferentes religiões reconhecidas em Portugal e instituídas através de uma Igreja própria. Uma produção da responsabilidade da Artémis, Logomedia e Neva, este programa diário integra as participações de Aliança Evangélica Portuguesa, Igreja Ortodoxa, Igreja Adventista do 7º Dia, Comunidade Islâmica de Lisboa, Comunidade Bahai de Portugal, Igreja Vetero-Católica, Igreja Católica Ortodoxa, Igreja Católica Romana, Comunidade Hindu de Portugal, entre outras".

Na minha opinião - e esta é uma rubrica de opinião - trata-se de um programa salutar, que, além de providenciar informação aos fieis das diferentes confissões religiosas, é uma ponte para a tolerância. É natural que o adepto de uma religião assista aos segmentos das outras que compõem o programa. E assim se aprende sobre o que pensam os outros, se descobrem diferenças e semelhanças, e se contribui para o desfazer de estereótipos negativos que uns possam ter dos outros. Já não fazem sentido os preconceitos medievais que levam ainda a que os fieis de uma religião vejam os outros como "infiéis" - já para não falar dos casos extremos em que se combatem, no campo da propaganda ou mesmo em termos físicos...

Para os que felizmente já evoluíram para além da prisão do exclusivismo, e tenham eles a ideologia que tiverem (mesmo os ateus ou os agnósticos), este é um espaço de divulgação cultural interessante. Dentre os programas a que nesta semana pude assistir, destaco a entrevista ao clérigo católico D. Manuel Clemente acerca das perseguições religiosas na 1ª República; e uma outra a um líder espiritual muçulmano (cujo nome, lamentavelmente, não fixei) sobre o modo como o Islamismo vê a morte. Desta última destaco a frase: "Para os muçulmanos todos os dias são Dia de Finados". Segundo o entrevistado, o respeito pelos que partiram e a consciência de que todos partiremos, estão sempre presentes nesta religião.

Há tempos, tive oportunidade de trocar impressões sobre a possibilidade de o Espiritismo se juntar ao elenco de religiões que aparecem em "A Fé dos Homens". Só para os que gostam de jogos de palavras a questão de o Espiritismo ser ou não religião oferece dúvida. Allan Kardec abordou o assunto com a clareza que sempre o caracterizou, e deixou bem claro que o Espiritismo, do ponto de vista filosófico, é uma religião. Se tem como princípios básicos a existência de Deus e a imortalidade da alma, se tem como roteiro moral os ensinamentos de Jesus de Nazaré, será uma religião.

No entanto, em termos formais, carece dos elementos básicos que caracterizam as religiões: hierarquias, rituais, clero, remunerações, sacramentos, cerimónias, dogmas inquestionáveis, velas, procissões, defumadouros, uso de bebidas alcoólicas, e tudo o que se encontra nas religiões tradicionais. Daí Kardec ter referido também que, sob esse ponto de vista, o Espiritismo não é uma religião.

O Espiritismo é fé raciocinada. É a religião natural e a sua vivência é interior, tal como era a vivência do Cristianismo Primitivo. Os Primeiros Cristãos jamais pretenderam constituir-se em seita dissidente. A incompreensão e as perseguições de que foram alvo, acabaram por fazer deles o que não eram. Os perseguidores viam-nos como grupo dissidente; eles não se assumiram como tal.

Porque o Espiritismo não é formalmente uma religião; porque o Espiritismo é cultura; porque o Espiritismo não é salvacionista; porque o Espiritismo não pratica o proselitismo; porque o Espiritismo é voluntariado e não profissão; porque o Espiritismo é Cristianismo Redivivo e segue o exemplo dos Primeiros Cristãos; não me parece boa ideia que o Espiritismo integre um programa como "A Fé dos Homens".

Partilhe este artigo:

0 comentários:

Enviar um comentário