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Revista Veja - "Direito de Resposta"


Após publicação da Revista Veja, que propositadamente pretendeu descredibilizar Chico Xavier e a Doutrina Espírita, partilhamos convosco carta "Direito de Resposta" enviada por um confrade espírita que muito respeitamos - Carlos Alberto Ferreira.


Paço deArcos, 6 deOutubro de2010
Exmo. Senhor:
EurípedesAlcântara,
Director deRedacção, RevistaVEJA
CaixaPostal 11079 – São Paulo, SP
CEP05422-970 BRASIL
veja@abril.com.br

Os meus cumprimentos.

1. No ano das comemorações do centenário do nascimento de Francisco Cândido Xavier, seria muito difícil os media ignorarem este facto, cujo impacto nas consciências tem sido avassalador, não deixando ninguém indiferente, mesmo aqui na Europa. Por isso, fiquei curioso, mas apreensivo com o Especial – O BRASIL ESOTÉRICO, do jornalista Alexandre Salvador, publicado na prestigiada Veja de 15 de Setembro último. Apreensivo porque o título com a palavra «esotérico» para se referir ao Espiritismo é totalmente inadequada, pois que o Espiritismo é uma doutrina ostensivamente «exotérica». Nela nada há de escondido, de sibilino, ou destinado a uma elite restrita de privilegiados – é uma doutrina que veio parao Povo, independentemente da cultura, da riqueza, do grau de escolaridade,em suma, da classe a que pertence cada indivíduo.

2. Com a leitura, logo essa apreensão se transformou em tristeza e decepção. Verifiquei que a informação passada para os leitores, deformava e adulterava profundamente o Espiritismo e Allan Kardec, o seu codificador, que por sua vez sub-repticiamente visava o abnegado benfeitor dePedro Leopoldo, Chico Xavier, médium do espírito André Luiz, que nos deixou a obra NOSSO LAR, considerada a obra espírita mais importante do século XX.

3. Chico Xavier é considerado não só o mais lúcido intérprete da doutrina codificada pelo sábio de Lyon, mas a sua própria alma e a sua vida. Basta para tanto compulsar, com honestidade intelectual, qualquer livro da sua vasta obra psicografada, que ultrapassa as quatro centenas. Mas, tanto ou mais importante que a sua impressionante obra, foi a sua vida, um verdadeiro hino ao trabalho, ao sacrifício, à renúncia, à humildade, ao desapego, à honestidade, à tolerância.

4. O jornalista Alexandre Salvador revela grande desconhecimento do que é, na realidade, o Espiritismo, e qual a sua finalidade; o que é a mediunidade e a sua relação com o Espiritismo; quem foi Allan Kardec e quem foi Chico Xavier. A atitude da pessoa sensata, quando se propõe falar do que desconhece é informar-se nas fontes genuínas e idóneas e nunca junto dos adversários e contraditores. Mas, o Sr. Salvador foi entrevistar um mágico, o canadense James Randi que criou uma fundação para desacreditar os fenómenos anímicos e espíritas. Foi entrevistar o sociólogo anti-espírita que caracteriza Allan Kardec como «um pensador de pouca importância por não ter dado nenhuma contribuição à história da filosofia.» Não entrevistou nenhuma pessoa integrada no movimento espírita, nomeadamente dos meios universitários e médicos, isto para não citarmos os próprios dirigentes de Instituições Espíritas. Penso que este facto, por si só, diz-nos comqueintenção foi feita a reportagem.

5. No entanto esclareço que Allan Kardec, é o pseudónimo celta do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, não foi nenhum filósofo, nem tão pouco um teólogo, mas sim um educador e um pedagogo, discípulo emérito do suíço Heinrich Pestalozzi, um dos mais importantes pais da escola nova. Foi ele o criador dos neologismos «Espiritismo» e «espírita», hoje adoptados em todas as línguas, incluindo o esperanto. Logo no primeiro itemdaintrodução de OLivro dos Espíritos (18.04.1857)– a certidão de nascimento do Espiritismo – explica-nos as razões da sua
criação. O professor Rivail, para além de um pedagogo, homem de ciências e humanista, era um especialista em línguas e um gramático: falava fluentemente o alemão, o inglês, o holandês, o italiano, conhecia bem as clássicas (grego e latim) e editou uma gramática que teve várias edições. Quando tomou contacto com os fenómenos que dariam origem à nova doutrina, já tinha dobrado o meio século de existência e tinha publicados 20 livros integralmente dedicados à educação e instrução das crianças e jovens, vários com décadas de sucessivas edições. É só pesquisar as bibliotecas francesas.

6. Confunde-se, por ignorância e por má-fé, nalguns casos, o Espiritismo que é uma doutrina recente, de tríplice aspecto (ciência, filosofia e religião) com a mediunidade que é um fenómeno natural, inerente ao ser humano, portanto, é de todos os tempos e lugares. Os médiuns sempre existiram. Na Antiguidade eram designados de necromantes, adivinhos, sibilas, pitonisas, mágicos, profetas, etc.; na IdadeMédia por feiticeiros ou santos; na actualidadepor indivíduos psi ou paranormais.

7. Foi o Espiritismo que estudou esse fenómeno que sempre esteve envolto no temor, na fantasia, na superstição, em suma na ignorância, que gerou tanto fanatismo, violência e sofrimento. Allan Kardec retirou a esse fenómeno natural a pecha de sobrenatural. Fundou em 1858 o primeiro laboratório do Planeta de estudos psíquicos: a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Allan Kardec que para o Sr. Alexandre Salvador tem pouca credibilidade como pensador, está simplesmente na origem de
todas as ciências psíquicas até à actual parapsicologia, que surgiram após a sua monumental obra. Se o Sr. Salvador lesse com humildade os escritos do professor Rivail e depois os de Allan Kardec, verificaria que a forma escorreita, límpida e objectiva, com que expõe o seu pensamento e descreve os factos, não poderia ser feita por um intelectual qualquer. Não obstante a intolerância e o fanatismo, das corporações científicas e da Igreja para o desprestigiarem e silenciarem, a nova doutrina sobreviveu e hoje começa de forma decisiva a chegar a todas as mentes e corações, em todos os rincões do Planeta.

8. O Espiritismo é ciência enquanto observa e estuda esse fenómeno inusitado que nos põe em relação com o mundo invisível; é filosofia quando responde racionalmente às questões que sempre inquietaram o espírito humano: quem sou? Donde vim? Para onde vou? Porque sofro? Etc.; e é religião quando nos fala de forma lógica e racional do Criador – retirando-lhe o carácter antropomórfico, tão vincado nas religiões –, da imortalidade do espírito e da sua evolução rumo à perfeição; dando-nos, assim, uma fé racional em contrapartida à fé cega e dogmática das religiões e seitas. A moral do Espiritismo radica nas lições de Jesus na sua pureza primitiva que os homens adulteraram ao longo dos tempos para servirem a interesses particulares.

9. Os fundamentos do Espiritismo são: 1º - Deus; 2º - Imortalidade da alma; 3º - Comunicabilidade dos Espíritos (mediunidade); 4º - Pluralidade das existências (reencarnação – lei biológica e causa e efeito – lei moral); 5º - Pluralidade dos mundos habitados («Na casa de meu Pai há muitas moradas», Jesus). Os dois primeiros são comuns a todas as religiões, mas interpretados de forma muito diferente pelo Espiritismo, que é a doutrina da fé raciocinada: «Fé inabalável só o é a que pode encarar a razão, face a face, emqualquer época da Humanidade».

10. Para conhecermos e compreendermos o que é na realidade o Espiritismo teremos que nos debruçar na codificação espírita que Allan Kardec realizou com o auxílio dos Espíritos: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo(1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Génese (1868); e, ainda, a Revista Espírita (1858-1869), Obras Póstumas (1890) e a pequena brochura, muito importante, O que é o Espiritismo (1859).

11. Para se praticar o espiritismo, no campo particular da mediunidade há que ter em conta que «A mediunidade e o dinheiro são incompatíveis», conforme nos informou Chico Xavier, o maior médium psicógrafo que a Humanidade conheceu e um dos maiores de sempre, no que se refere às diversas faculdades mediúnicas (psicofonia, vidência, materialização, clariaudiência, etc.). Disse-nos esse benfeitor que o médium para exercer as suas faculdades com idoneidade e eficiência terá primeiro que obedecer a duas condições basilares: 1º - Cuidar da família e 2º - Ter uma profissão para ganhar a vida com dignidade. Só depois de satisfeitas essas duas condições fundamentais é que poderá utilizar as suas faculdades, uma, duas ou três vezes por semana, sem nunca pôr em causa a família e o seu ganhapão. Tem sempre presente as palavras de Jesus: «Dá de graça o que de graça recebeste».

12. Com Chico Xavier o legado de Allan Kardec é consolidado e ampliado, pois que o Espiritismo não é uma doutrina fechada, dogmática; ela acompanha a evolução das ciências, está livre dos prejuízos causados pelo «espírito de sistema» que dogmatizam as doutrinas, quer sejam científicas, filosóficas ou religiosas, cristalizando-as, impedindo assim o progresso. O Espiritismo não tem dogmas como as religiões, conforme é afirmado no Especial, tem princípios ou fundamentos, designados por dogmas filosóficos, que podem sempre ser analisados e discutidos, o
que não acontece com os dogmas religiosos, que por mais que firam a inteligência, o bom senso, por mais absurdos que sejam, não é permitida a discussão, têmdeser aceitos pelos profitentes.

13. Os espíritas não constituem nenhum «rebanho» que seguem cegamente um líder, como é apresentado pelo repórter Alexandre Salvador. O espírita só deve aceitar o que lhe satisfaz a razão, porque o que a razão e o bom senso reprovam, deve ser rejeitado corajosamente. «Mais vale rejeitar dez verdades do quea dmitir uma única mentira, uma única teoria falsa».

14. A respeito do proselitismo Chico Xavier afirmava: «Nunca quismudar a religião de alguém, porque, positivamente não acredito que a religião A seja melhor que a religião B. Se Allan Kardec tivesse escrito que “Fora do Espiritismo não há salvação” , eu teria ido por outro caminho. Graças a Deus ele escreveu “Fora da caridade não há salvação.”»

15. Se o repórter Alexandre tivesse apenas lido sem prevenção o Parnaso de Além-Túmulo, em que 56 poetas brasileiros e lusos vieram provar à saciedade a imortalidade da alma, por certo iria se abster de fazer o Especial da forma como o fez. Essa obra caiu como uma bomba nos meios culturais e académicos da época. Como um moço com precária escolaridade, num meio humilde e obscuro, donde nunca saíra, poderia produzir os poemas que raiavam o sublime? Ainda por cima de conteúdo e estilo semelhantes aos autores. Como? Tal fenómeno levou a direcção dum dos maiores diários da época, O Globo, do Rio, a enviar um dos seus melhores repórteres, tanto em cultura, como em honestidade e profissionalismo, à obscura localidade para estudar e contar o caso. Assim, o jornal do Rio, publicaria a partir de 1 deMaio até ao dia 25 de Junho de 1935, com especial destaque da redacção, pois todas as reportagens diárias iniciavam-se na primeira página, sempre ilustradas com fotografias, com a conclusão na terceira página. É relevante analisarmos a postura nobre e digna do jornalista Clementino de Alencar, que sem ser espírita, não se
deixou enredar em juízos subjectivos condicionados pelas crenças próprias, limitou-se a informar e entrevistar, mantendo sempre uma postura de neutralidade, como éapanágio dos grandes profissionais.

16. Por fim, gostaria de informar que devo a Chico Xavier e à sua obra muito da minha paz, bem-estar e saber, pois não obstante a grande distância, foi-me um verdadeiro mestre, um verdadeiro discípulo de Jesus. Foi ele que me ajudou a compreender a verdadeira dimensão de Jesus. Neste canto da Europa conheço e conheci, nas duas últimas décadas, centenas, senão milhares, de pessoas que a ele devem o seu equilíbrio, segurança e paz, conquistadas num mundo tão conturbado nesta fase históricada sua evolução.

Agradecendo a publicação deste esclarecimento, renovo os meus melhores cumprimentos e desejo votos sinceros de felicidade a V. Exa. extensivos à prestigiada Veja e a todos os seus colaboradores.

Atenciosamente,
___________________
CarlosAlberto Ferreira
Portugal

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4 comentários:

Vinicius

20.10.10

Por favor, não percam tempo. A maioria das revistas aqui no Brasil denotam cunho pessoal de quem as editam. Nunca mais folheei uma página da "Super(?)interessante", tampouco o farei com a "Veja". Espero que passem melhor aí na Europa!
Abraço,
Vinicius

André

20.10.10

Olá Vinicius,

Por aqui também existe preconceito anti-espírita em diversas publicações. E noutros temas, sobretudo no campo político, também sabemos sempre o que esperar da revista/jornal, televisão, A, B, ou C.

É sempre uma maçada ter que rebater este tipo de ataques tão mesquinhos, que por cá também aparecem. No entanto, e porque a causa é nobre, ainda vamos fazendo um esforço.

Por vezes interrogamo-nos se o silêncio não é a melhor resposta. No sentido de esclarecer os incautos, temos ainda optado por responder.

Abraço fraterno,

AA

Anónimo

21.10.10

ELES NÃO GOSTAM DE ESPÍRITAS!GOSTEMOS NÓS DE DEUS,JESUS CRISTO,EVANGELHO,CARIDADE,E O DEVER Á PRÁTICA DA BONDADE,E JUSTIÇA.AMÉM

Anónimo

21.10.10

A resposta do Sr. Carlos A. Ferreira é excelente, mas tenho as minhas dúvidas que as pessoas em questão se deiam ao trabalho de a lerem. É que pensar exige algum esforço...

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