Spiga

"Crenças Bárbaras"


" Como é que vedes um argueiro no olho de vosso irmão,
quando não vedes uma trave no vosso olho? - Ou, como
é que dizeis ao vosso irmão: Deixa - me tirar um argueiro
do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? - Hipócritas,
tirai primeiro a trave do vosso olho e depois então, vede
como podereis tirar o argueiro do olho de vosso irmão."
Mateus, cap VII, vv. 3 a 5


"CRENÇAS BÁRBARAS" ou O ARGUEIRO E A TRAVE


É um lugar-comum dizer mal da programação dos canais portugueses de Televisão. Faz parte da maneira de ser nacional, deplorar tudo o que por cá se faz - com excepção do sacrossanto império do pontapé na bola, que constitui actualmente o único grande desígnio nacional.

A RTP2, ainda que já tenha estado bem melhor, continua a apresentar uma programação de alta qualidade, divulgando o que de melhor se faz em Portugal e no Mundo. É o caso da National Geographic, uma instituição que dispensa apresentações.

Uma destas noites acompanhava, no seio de um grupo alargado de gente, um programa que mostrava práticas religiosas de sacrifício ao redor do mundo. No Japão, um homem fora escolhido para uma celebração em que milhares se acotovelavam para o tocar. Acreditam os xintoístas que tocar aquele homem traz boa fortuna e afasta as nuvens negras da vida dos felizardos que o consigam. O espectáculo é caótico. O homem, que aceitou estoicamente a escolha dos deuses, está seriamente maltratado pela multidão, que quer desesperadamente chegar-lhe. À minha volta há exclamações de surpresa pelo "primitivismo" da cerimónia, de desdém pela "crença supersticiosa" dos japoneses, de indignação pela violência do ritual.

A National Geographic está apresentar uma série muito interessante sobre estes costumes. Recordo, de passagem, os muçulmanos sufi que enfiam espetos metálicos na boca e na língua. Ou os hinduístas do Sri Lanka que levam andores de 40 quilogramas na cabeça e oferendas cravadas na pele com anzóis. Nos quatro cantos do mundo, os crentes castigam o corpo para desagravo dos seus pecados e em busca dos favores e do perdão da(s) divindade(s). É grande o constrangimento dos meus companheiros de ocasião, quase todos cristãos católicos ou protestantes, ante a "barbárie" daqueles costumes exóticos.

E diz o narrador: "São muitas as religiões em torno do mundo em que um indivíduo se redime a si mesmo e ao grupo, pelo sacrifício físico". As palavras são acompanhadas de imagens de católicos que todos os anos se fazem crucificar, na sexta-feira da Páscoa, lá para as Filipinas.

Agora é que ficou tudo embatucado... Os jejuns e as flagelações que ainda são praticados, as peregrinações para além do limite das forças e com prejuízo da saúde, se não são centrais para as diversas expressões do Cristianismo-Religião, não são menos "bárbaros" que tudo o que se viu no documentário.

Além de que as diversas religiões cristãs apresentam Jesus como sendo Deus, mas também o filho de Deus, vindo ao mundo com a missão expressa de ser crucificado, para, com o seu sofrimento, o seu sangue, aplacar a ira divina e "limpar" a "mancha" que a pretérita e alegada desobediência de Adão e Eva terá deixado sobre toda a Humanidade, aquando do famoso episódio da maçã.

Não sei se estes costumes e estas ideias são considerados bárbaros, pelos muçulmanos, hinduístas, budistas, xintoístas, sikh, Bahá'í, paganistas, umbandistas, candomblecistas, taoístas, judaístas, e tantos outros. Haverá pessoas fanáticas, nessas correntes, como em tudo na vida. Mas convenhamos que essas religiões não se apresentam com a pretensão de retirar as traves dos olhos dos outros. E consequentemente com a presunção de não terem argueiros nos seus. E isso é bastante cristão.

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