O debate que antecedeu o segundo Referendo à Interrupção Voluntária da Gravidez, voltou a ser paupérrimo. Ambas as campanhas se pautaram pelo ataque à facção contrária, muito mais do que pela justificação das suas posições. Do lado do "sim ao aborto", acusava-se os partidários do "não ao aborto" de desejarem a morte das mulheres que recorriam a esse expediente. Do lado do "não ao aborto", acusava-se os partidários do "sim ao aborto" de abortarem por gosto.
Algumas posições, como a do prestigiado comentarista político Marcelo Rebelo de Sousa, raiaram o absurdo e deram o mote a paródias que ficaram célebres, como esta.
Impulsionados pelos ventos da política partidária, os activistas de ambas as partes, salvo raras excepções, não trataram o tema com a seriedade devida. As implicações psicológicas, morais, filosóficas e espirituais do aborto, mal foram abordadas. Do lado dos materialistas, um ser humano em potência não é um ser humano, pelo que, impedir que uma semente vingue, não tem a mesma gravidade do que abater a árvore adulta. Do lado dos religiosos, o aborto não é sequer discutível, quem nele colabora está condenado ao fogo do Inferno, e ponto final.
Concluído o referendo, e colhidos os dividendos políticos da demanda, o que restou? A ignorância e o descaso dos que fazem do aborto um método contraceptivo, continuou. A inflexibilidade dos que acham que a proibição só por si impede o aborto, continuou.
Hoje, o jornal Público noticia:
Onde se podia fazer a diferença, as lacunas são enormes. Onde se podia dar uma palavra que evitasse a interrupção da gravidez, em 50% dos casos, não há nada. Há um processo mecânico, burocrático, estatístico.
Os partidários do "não ao aborto" continuam, tão cegos e surdos como antes, a rosnar que "essas mulheres não merecem que se gaste o nosso dinheiro em psicólogos". Os partidários do "sim ao aborto" estão contentes. Ganharam o referendo e agora já se pode desenterrar livremente as sementes que poderiam vir a ser árvores.


0 comentários:
Enviar um comentário