Spiga

O Rei das Manhãs

E achei por bem fazer o gosto ao dedo e tentar falar um pouco de Televisão. Não pretendo falar de "Espiritismo e Televisão", embora ocasionalmente possa haver considerações doutrinárias acerca do que vemos na TV. As figuras aqui focadas não terão que ter algo a ver com Doutrina Espírita, nem interessa saber a sua orientação filosófica ou religiosa.


O REI DAS MANHÃS


Imagino que o horário matinal seja um pequeno terror para os apresentadores de Televisão. Os programas vêm e vão, os formatos sofrem alterações, e o alvo parece sempre fugir, como uma sombra. Parece que ninguém acerta com a receita ideal para as manhãs televisivas. Muda-se de canal e sucedem-se as imagens estafadas dos ranchos folclóricos a dançar no adro da igreja, e daí a câmara passa para inevitável mesa de queijos e enchidos, e inevitavelmente para o discurso interminável e sonolento do Presidente da Junta, que enumera pela enésima vez as virtudes gastronómicas da região. E boceja-se...

Se for época de frio, a emissão é do estúdio, e os Presidentes da Junta dão lugar aos especialistas da Imprensa Cor-de-Rosa, que esticam, e esticam, e esticam, o último affaire do Cristiano Ronaldo, a última cirurgia plástica da Floribela ou a última zanga entre as irmãs Jardim. E boceja-se...

Depois, o público não é dos mais fáceis. Há que agradar aos que se levantam para ir trabalhar e aos que atravessam a angústia do desemprego. Há que transmitir energia à heróica dona de casa atarefada, e ao reformado, refastelado nas suas mais que merecidas pantufas. Há que interessar o doente na cama do hospital e a recepcionista do hotel.

E por estas e outras, os apresentadores vêm e vão. Mas quem se mantém de pedra e cal, há anos seguidos, é o Manuel Luís Goucha, que tem a virtude rara de fazer cada programa como se fosse o primeiro. E de estar tão confortável em directo como a tomar um banho de espuma na sua banheira. E que tem uma paciência de santo para as senhoras que teimam em levar telemóveis ligados para o estúdio, e um sentido de humor que a rotina não consegue desgastar, e uma grandeza de coração que reduz a nada as chamadas telefónicas provocatórias e mesquinhas que já o vi receber.

Há os casos sérios, como o daquela mãe alentejana, que já não consegue cuidar sozinha do filho com atraso mental, 150 quilos de apetite, força e agressividade. Mas que o ama incondicionalmente. No programa do Manuel, o caso não é apenas mostrado. Questiona-se cada situação e as possibilidades de resolução, e apresentam-se com dignidade os heróis anónimos, para que nos sirvam de exemplo.

E passa-se do sério para o alegre, e o Manuel (lindamente coadjuvado pela Cristina Ferreira) sempre fresco que nem uma alface. E por falar em alfaces, estava eu uma vez a fazer compras num supermercado e tudo parou. Em directo de uma feira agrícola, o apresentador, fardado de moço de forcado, pegava um garraio (um jovem toiro, para quem não sabe). E as gargalhadas ecoaram. E a manhã ficou iluminada. E o mundo ficou um bocadinho melhor.

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