O desfecho do Processo Casa Pia, após 8 anos de tramitação pelos tribunais portugueses, agitou a vida pública nacional nos últimos dias. Como é costume nestas coisas, as opiniões dividem-se. Alguns acham que as penas foram injustas e que os condenados estão inocentes. Outros acham que são efectivamente culpados e que se fez Justiça. Outros ainda, acham as penas demasiado brandas, atendendo à extrema gravidade dos crimes cometidos. E têm vindo à baila estas passagens bíblicas:
Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que crêem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar.
(Marcos 9,42)
Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!
Parece-nos claro que Jesus não aconselha a pena de morte, antes afirma desta forma vigorosa o quão terrível é atentar contra a inocência das crianças.
E o que dirão os Espíritos acerca do tratamento a dar aos criminosos?
O Evangelho Segundo o Espiritismo é uma das obras básicas do Espiritismo, e contém os comentários dos Bons Espíritos aos Quatro Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João).
Vejamos o que nos diz o
CAPÍTULO XI
Amar o próximo como a si mesmo
O índice deste capítulo é:
O maior mandamento. Fazermos aos outros o que queiramos que os outros nos façam. Parábola dos credores e dos devedores.
Dai a César o que é de César
Instruções dos espíritos - A lei de amor
O egoísmo
A fé e a caridade
Caridade com os criminosos
Deve-se expor a vida por um malfeitor?
Começa-se por citar e comentar os ensinamentos de Jesus, nomeadamente:
Fazei aos homens tudo o que queirais que eles vos façam, pois é nisto que consistem a lei e os profetas. (Idem, cap. VII, v. 12.)
Tratai todos os homens como quereríeis que eles vos tratassem. (S. LUCAS, cap. VI, v. 31.)
O capítulo avança com considerações sobre os ensinamentos de Jesus acerca da Lei de Deus e das leis dos Homens ("Dai a César o que é de César"), e outros aspectos pertinentes.
Transcrevemos parte de uma comunicação dos Espíritos sobre este assunto:
Caridade para com os criminosos
14. A verdadeira caridade constitui um dos mais sublimes ensinamentos que Deus deu ao mundo. Completa fraternidade deve existir entre os verdadeiros seguidores da sua doutrina. Deveis amar os desgraçados, os criminosos, como criaturas, que são, de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem, como também a vós, pelas faltas que cometeis contra sua Lei. Considerai que sois mais repreensíveis, mais culpados do que aqueles a quem negardes perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles não conhecem Deus como o conheceis, e muito menos lhes será pedido do que a vós.
Não julgueis, oh! não julgueis absolutamente, meus caros amigos, porquanto o juízo que proferirdes ainda mais severamente vos será aplicado e precisais de indulgência para os pecados em que sem cessar incorreis. Ignorais que há muitas acções que são crimes aos olhos do Deus de pureza e que o mundo nem sequer como faltas leves considera?
(...)
Deveis, àqueles de quem falo, o socorro das vossas preces: é a verdadeira caridade. Não vos cabe dizer de um criminoso: "é um miserável; deve-se expurgar da sua presença a Terra; muito branda é, para um ser de tal espécie, a morte que lhe infligem." Não, não é assim que vos compete falar. Observai o vosso modelo: Jesus. Que diria ele, se visse junto de si um desses desgraçados? Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia um doente bem digno de piedade; estender-lhe-ia a mão. Em realidade, não podeis fazer o mesmo; mas, pelo menos, podeis orar por ele, assistir-lhe o Espírito durante o tempo que ainda haja de passar na Terra. Pode ele ser tocado de arrependimento, se orardes com fé. E tanto vosso próximo, como o melhor dos homens; sua alma, transviada e revoltada, foi criada, como a vossa, para se aperfeiçoar; ajudai-o, pois, a sair do lameiro e orai por ele.
Elisabeth de França. (Havre, 1862.)
Que cada um julgue por si. E se julgue a si...


2 comentários:
10.9.10
Senhor André
O arguido Manuel Abrantes fez umas declarações nas quais manifestou o seu ódio contra os rapazes que o acusaram. Admitindo que esse arguido é realmente inocente (o que não sei se é verdade), eu pergunto-lhe: considera ou não legítimo que alguém possa odiar outra ou outras pessoas que lhe destruiram a sua vida profissional e até pessoal e o ameaçam com vários anos de cadeia por actos que não cometeu?
10.9.10
Amigo Anónimo,
O sentimento de ódio é inerente ao meu, ao seu, ao estado evolutivo da generalidade dos habitantes do nosso planeta. Se Manuel Abrantes está inocente, é mais que humano que sinta esse ódio. Estar na cruz inocente, e a perdoar aos seus algozes, só está ao alcance de criaturas perfeitas, como Jesus.
O meu texto é dirigido aos que avidamente vêm para a praça pública aconselhar o linchamento dos supostos criminosos do caso Casa Pia. Esquecem esses duas coisas:
1 - Toda a gente erra, e a severidade com que tratamos os que erram, será usada para o julgamento dos nossos erros.
2 - Além do mais, sempre houve erros judiciários, e assim sendo, quem nos garante que não os haverá neste caso?
Espero ter respondido,
AA
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