Spiga

Diabos, Cerveja e Telemóveis



É um pequeno bar, de ambiente pacato e clientela certa, que de há muito se conhece. O Verão costuma trazer revoadas de clientela, para bem do negócio, e às vezes para desconforto dos clientes habituais. Desta vez, o grupo era de turistas bem peculiares. A noite de lua encoberta, e o nevoeiro dançando em volta dos candeeiros de luz amarela, todos oxidados pela maresia, foi lentamente deixando ver os casacos compridos, a profusão de ornamentos de pregos, as melenas roxas e a maquilhagem carregada, em que pontuavam estranhos símbolos tatuados nas testas. Eles vinham lá!...

Pela primeira vez neste bar, ao vivo e a cores, senhoras e senhores, um grupo de "devil worshippers". De "adoradores do Diabo", em Português. Confesso que fiquei um tiquinho desiludido com um pormenor: o guarda-roupa e a maquilhagem mereciam um Óscar, mas no lugar dos automóveis ficava bem melhor uma enorme carruagem puxada por corcéis negros, coerentemente em número de treze. E um cocheiro com dentes de vampiro. Ou, pelo menos, que os automóveis fossem kitados estilo batmóvel...

Brincadeiras à parte, a entrada do animado grupo causou alguma sensação. Não por causa da apresentação, que cada um anda como quer e o País é livre, mas por causa dos enormes crucifixos que traziam ao pescoço... pendurados de pernas para o ar.

Ninguém esteve para lhes dar troco à provocação óbvia. Afinal, além de o País ser livre, a má educação e imaturidade não pagam imposto. Para não falar da estupidez, que, dir-se-ia, deve gozar de incentivos pecuniários da União Europeia.

Ninguém deu troco. Nem mesmo quando o talentoso animador musical da noite atacou o imorredoiro "Corcovado":

"Da janela vê-se o corcovado, o redentor
Que lindo"

e o simpático grupo rompeu em urros do fundo da sala, enquanto batiam com as canecas de cerveja ruidosamente nas mesas.


Assinale-se contudo a cultura geral, pois quando o músico, versátil, executou a sua versão acústica de "Como As You Are", dos Nirvana, a cena repetiu-se, e ainda mais aparatosamente, pois estávamos nessa altura umas quantas canecas à frente.

O padeiro e o médico cá da terra, ambos conhecidos por terem pavio curto, ainda resmungaram qualquer coisa sobre "umas bofetadas no raio dos garotos". Ainda bem que não concretizaram, para bem da paz e da harmonia, e porque era uma vergonha ver "garotos" na casa dos 30 anos a levarem palmadas, como se fossem pirralhos.


Foi melhor deixá-los sair, frustrados por não terem assustado nem indignado visivelmente quase ninguém. Ou pelo menos assim pensava eu. Quando saí, meia hora depois, deparei com um enorme pentagrama traçado a giz, no chão, de vértices assinalados por velas acesas. Trocistas, os "devil worshippers" estavam encostados aos carros, gozando o espectáculo de uma pequena multidão que não se atrevia a pisar o arabesco. Uns queriam entrar no bar, outros queriam sair, e ninguém avançava.


Filosoficamente, o meu irmão murmurou, com a sua inamovível boa disposição:


- Estes adoradores do Diabo, se vissem aparecer-lhes uma "coisa dessas" à frente, borravam-se todos...


Como não tinha uma fantasia de Diabo à mão, para dar seguimento a essa ideia digna de uns "Apanhados", limitei-me a pedir-lhe o telemóvel. Sou avesso a esse útil aparelho, mas sobretudo irrita-me a moda de andar na rua a falar ao telemóvel. Mas pela causa em questão, cedi. Fiz-me distraído, entusiasmado com a conversa telefónica fingida, como quem não repara que está a pisar o pentagrama bloqueador do trânsito. "Distraidamente", parei no meio do traçado, como quem está a ouvir uma anedota hilariante, e por ali fiquei, até os primeiros corajosos vencerem o medo e os desiludidos "seres das trevas" resolverem ir chatear para outro lado.


E afinal de contas, quem é, ou o que é o Diabo? No Antigo Testamento existe UMA referência a um Satan, mais precisamente no Livro de Job. É um executor da vontade Divina, que coloca os Homens à prova. Já no Novo Testamento, não existe qualquer referência ao suposto "anjo caído", defendido por alguma teogonia cristã. Em 2 Coríntios 11:14 há referência a que Satanás se transfigura em anjo de luz. Mesmo sem atendermos a contextos, significados e significantes, convenhamos que é pouco para dar como provada a existência de um cidadão de cascos de bode e forquilha.


Dizem os sociólogos, antropólogos e historiadores, que essa imagem de bode antropomórfico foi herdada das deidades pagãs e assimilada pela Igreja como o famoso cidadão Satanás, Diabo, O Maligno, e outras tantas designações.


Como as opiniões são como os narizes, não serei eu a contestar os que consideram ter o Diabo existência objectiva, não simbólica. Pessoalmente - que não sou menos que os outros e tenho direito igual às minhas opiniões - considero que Deus, sendo Todo-Poderoso, não pode ter quem com ele rivalize. E para acidular mais a argumentação, acrescento que crer no Diabo é admitir uma falha capital na Criação. E consequentemente desconsiderar a Deus. Blasfemar, se o quiserem.


É claro que ninguém balizou o século XXI como altura de deixar para trás todas as crendices. Mas uma pessoa ter que pegar num telemóvel, um prodígio tecnológico da nossa Era, e ir para o meio de uma símbolo mágico para dissipar medos atávicos, convenhamos que dá que pensar! E, como dizia o meu irmão, o cidadão de pés de cascos de bode jamais apareceu aos humanos. Que eu saiba, pelo menos. Se tiverem notícias nessa área, digam-nos qualquer coisa, sff. Obrigadinho...

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1 comentários:

Rogers Sampaio

14.8.10

Qual é a criança que não gosta de uma boa história de terror? LOL.

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