Nos meus primeiros tempos de trabalhador espírita, fui convidado para fazer uma palestra pública na associação que frequento. Gizei a apresentação de slides, fiz o plano da palestra, e deparei-me com uma dúvida: achei que estava porventura simples demais, e que os frequentadores habituais a achariam maçadora.
Por outro lado, os que vêm pela primeira vez a uma palestra espírita, os que têm menos capacidade intelectual, os que se acham em situação de sofrimento, pouco proveito colheriam de uma palestra sofisticada.
Resolvi então pedir opinião a um dos companheiros mais experientes, que foi peremptório:
"Primeiro estão os que menos sabem e que mais precisam. A missão do Espiritismo é esclarecer e consolar".
Procuro por isso, em todo o trabalho espírita, pôr sempre em primeiro os que menos sabem e mais precisam. Tanto se me dá como se me deu que os Donos da Verdade, sejam eles ateus ou religiosos, verberem o Espiritismo, que trocem ou que odeiem. Procuro não perder tempo com negadores sistemáticos, pois esse tempo é precioso para os que menos sabem e mais precisam.
Quando Jorge Hessen fala do Espiritismo à luz da candeia, não significa que tenhamos que mandar cortar a electricidade nas associações espíritas, e que afectemos uma falsa humildade. Significa que devemos viver, sempre, o espírito fraterno e humilde da Doutrina Espírita.
Quando Alamar Régis fala das vantagens da Televisão e da Imprensa, da Rádio e da Internet, na divulgação do Espiritismo, não significa que estejamos a perder a proximidade que só os pequenos grupos espíritas podem proporcionar. Significa que podemos esclarecer e consolar mais gente, evitar abortos e suicídios, aliviar sofrimentos e apontar caminhos cristãos a quem anda perdido na incerteza, no vício ou na violência.
O Espiritismo, de facto, recupera o espírito do Cristianismo Primitivo. O Espiritismo vive o Cristianismo na sua mais simples expressão, sem atavios desnecessários, com muita fraternidade, com muito amor.
A par dessa simplicidade, o Espiritismo é também uma Doutrina aberta ao progresso. O Espiritismo acompanha e promove o debate científico, filosófico, histórico, antropológico. Se não o fizesse, seria apenas mais uma religião, tentando vergar a realidade aos seus dogmas inquestionáveis.
O Espiritismo cabe, por isso, no centro de congressos e debaixo do abacateiro. Se fosse exequível, as jornadas e congressos seriam feitos debaixo de um abacateiro. Como não cabe tanta gente confortavelmente debaixo de uma árvore, temos que pedir, alugar ou construir outros espaços. Mas vivemos o Espiritismo sempre com a mesma alegria e simplicidade que encontramos debaixo do abacateiro.


2 comentários:
20.8.10
Parabéns pela lucidez, clareza e concisão dos conceitos.
Sem dúvida um texto inspirado.
Continue.
20.8.10
Obrigado,
O seu blogue também é para nós uma referência e uma fonte de alento.
AA
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