
Tal como referimos em posts anteriores, a jornalista Aura Miguel escreveu uma crónica intitulada "Cair na mentira", que começava assim:
«Quem não acredita em Deus, acaba por acreditar em tudo o resto. Horóscopos, amuletos, superstições de vária ordem, búzios, ferraduras, deitar as cartas, pêndulo, tarot, espiritismo, magia... »
e avançava assim:
«E o sucesso em Portugal destas práticas de paganismo merece agora honras televisivas, com mortos a falarem para as câmaras através de espíritas...»
Para terminar metendo tudo no mesmo cesto das "ciladas do demónio"...
Aproveitando o ensejo, e mais uma vez na tentativa de ajudar a esclarecer o que é o Espiritismo, e a diferença entre "médium" e "espírita", escrevemos alguns textos, tais como este.
A jornalista teve a atenção de nos responder, remetendo o seguinte excerto do Catecismo da Igreja Católica, "sobre espiritismo e afins" (sic).
Vamos lá então comentar, de forma sumária, o documento. A castanho está o documento; os nossos comentários vão a preto...
Do Catecismo da Igreja Católica
2110. O primeiro mandamento proíbe honrar outros deuses, além do único Senhor que Se revelou ao seu povo: e proíbe a superstição e a irreligião. A superstição representa, de certo modo, um excesso perverso de religião; a irreligião é um vício oposto por defeito à virtude da religião.
O Espiritismo tem como pilar básico a existência de Deus, tal como afirmado por Moisés nos Dez Mandamentos, e por Jesus no "Mandamento Maior":
Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. - Esse o maior e o primeiro mandamento. - E aqui está o segundo, que é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. - Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.
(S. MATEUS, cap. XXII, vv. 34 a 40.)
Pugnando por uma fé raciocinada, e sendo alheios a qualquer tipo de cerimónias, rituais, liturgias, velas, defumadouros, palavras ou orações sacramentais, vestes ou cantarolas especiais, pirâmides, bebidas, magias, adivinhações, leituras de presságios, práticas mágicas ou ocultistas, etc., somos também alheios a qualquer tipo de superstições.
Pugnando igualmente pela fé em Deus, por oposição às crenças materialistas, somos evidentemente cultores do sentido de religiosidade, por oposição à irreligião.
PARECE QUE AQUI ESTAMOS ENTÃO DE ACORDO...
A SUPERSTIÇÃO
2111.
A superstição é um desvio do sentimento religioso e das práticas que ele impõe. Também pode afectar o culto que prestamos ao verdadeiro Deus: por exemplo, quando atribuímos uma importância de algum modo mágica a certas práticas, aliás legítimas ou necessárias. Atribuir só à materialidade das orações ou aos sinais sacramentais a respectiva eficácia, independentemente das disposições interiores que exigem, é cair na superstição (39).
CONTINUAMOS FRANCAMENTE DE ACORDO...
A IDOLATRIA
2112. O primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige do homem que não acredite em outros deuses além de Deus, que não venere outras divindades além da única. A Sagrada Escritura está constantemente a lembrar esta rejeição dos «ídolos, ouro e prata, obra das mãos do homem, que «têm boca e não falam, têm olhos e não vêem...». Estes ídolos vãos tornam vão o homem: «sejam como eles os que os fazem e quantos põem neles a sua confiança» (Sl 115, 4-5.8) (40). Deus, pelo contrário, é o «Deus vivo» (Js 3, 10) (41), que faz viver e intervém na história.
CONTINUAMOS DE ACORDO. A DOUTRINA ESPÍRITA CONSIDERA QUE A PRIMEIRA DAS LEIS MORAIS É A LEI DE ADORAÇÃO. ADORAÇÃO A DEUS, NATURALMENTE...
2113. A idolatria não diz respeito apenas aos falsos cultos do paganismo. Continua a ser uma tentação constante para a fé. Ela consiste em divinizar o que não é Deus. Há idolatria desde o momento em que o homem honra e reverencia uma criatura em lugar de Deus, quer se trate de deuses ou de demónios (por exemplo, o satanismo), do poder, do prazer, da raça, dos antepassados, do Estado, do dinheiro, etc., «Vós não podereis servir a Deus e ao dinheiro», diz Jesus (Mt 6, 24). Muitos mártires foram mortos por não adorarem «a Besta» (42), recusando-se mesmo a simularem-lhe o culto. A idolatria recusa o senhorio único de Deus; é, pois, incompatível com a comunhão divina (43).
Respeitamos as religiões pagãs/politeístas, e os seus adeptos. No entanto, e como foi dito, adoramos exclusivamente a Deus, Único, Omnipotente, Soberanamente Justo e Bom.
CONTINUAMOS DE ACORDO...
2114. A vida humana unifica-se na adoração do Único. O mandamento de adorar o único Senhor simplifica o homem e salva-o duma dispersão ilimitada. A idolatria é uma perversão do sentido religioso inato no homem. Idólatra é aquele que «refere a sua indestrutível noção de Deus seja ao que for, que não a Deus» (44).
Nem mais! Muitas vezes os Homens adoram o deus dinheiro, o deus poder, o deus prazer, dispersando-se por caminhos que o afastam das Leis de Deus.
CONTINUAMOS, PORTANTO, DE ACORDO...
ADIVINHAÇÃO E MAGIA
2115. Deus pode revelar o futuro aos seus profetas ou a outros santos. Mas a atitude certa do cristão consiste em pôr-se com confiança nas mãos da Providência, em tudo quanto se refere ao futuro, e em pôr de parte toda a curiosidade malsã a tal propósito. A imprevidência, no entanto, pode constituir uma falta de responsabilidade.
Como diz o ditado, o futuro a Deus pertence. Não julgamos as pessoas que recorrem à adivinhação, aos oráculos, aos mapas astrais, etc., para tomarem decisões. A Doutrina Espírita, no entanto, é alheia a essas práticas, e convida o Homem a entregar-se nas mãos de Deus, com ilimitada confiança.
E... ESTAMOS DE ACORDO...
2116. Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demónios, evocação dos mortos ou outras práticas supostamente «reveladoras» do futuro (45). A consulta dos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e de sortes, os fenómenos de vidência, o recurso aos "médiuns", tudo isso encerra uma vontade de dominar o tempo, a história e, finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo de conluio com os poderes ocultos. Todas essas práticas estão em contradição com a honra e o respeito, penetrados de temor amoroso, que devemos a Deus e só a Ele.
Repetimos exactamente o comentário anterior.
2117. Todas as práticas de magia ou de feitiçaria, pelas quais se pretende domesticar os poderes ocultos para os pôr ao seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo – ainda que seja para lhe obter a saúde – são gravemente contrárias à virtude de religião. Tais práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas da intenção de fazer mal a outrem ou quando recorrem à intervenção dos demónios. O uso de amuletos também é repreensível. O espiritismo implica muitas vezes práticas divinatórias ou mágicas; por isso, a Igreja adverte os fiéis para que se acautelem dele. O recurso às medicinas ditas tradicionais não legitima nem a invocação dos poderes malignos, nem a exploração da credulidade alheia.
Nas obras básicas da filosofia espírita, nomeadamente no essencial O Livro dos Espíritos, a crença em feiticeiros, talismãs e poderes ocultos é desmontada racionalmente. Esse tipo de crenças faz-nos sorrir, ou lamentar os que lhes dão crédito e os que os exploram. O mesmo podemos dizer em relação às crenças em demónios e seus supostos poderes.
ESTAMOS PORTANTO DE ACORDO.
Portanto, quando o Catecismo da Igreja Católica afirma que "o espiritismo implica muitas vezes práticas divinatórias ou mágicas", erra redondamente. Onde se lê "espiritismo" talvez se devesse ler "mediunismo". Aí estaria certo.
O Espiritismo é uma filosofia cristã, defende a fé raciocinada, e é por natureza avesso a qualquer tipo de superstição. Magias ou práticas divinatórias não têm lugar na nossa doutrina, que pugna pela aliança entre Religião e Ciência.
A IRRELIGIÃO
2118. O primeiro mandamento da Lei de Deus reprova os principais pecados de irreligião: tentar a Deus por palavras ou actos, o sacrilégio, a simonia.
Adorando a Deus e nEle depositando a nossa confiança irrestrita, é claro que estamos em sintonia com estas considerações. E CONTINUAMOS DE ACORDO.
2119. Tentar a Deus consiste em pôr à prova, por palavras ou actos, a sua bondade e a sua omnipotência. Foi assim que Satanás quis que Jesus se atirasse do templo abaixo, para com isso forçar Deus a intervir (46). Jesus opôs-lhe a Palavra de Deus: «Não tentarás o Senhor teu Deus»(Dt 6, 16). O desafio contido em semelhante tentação a Deus fere o respeito e a confiança que devemos ao nosso Criador e Senhor, implicando sempre uma dúvida relativamente ao seu amor, à sua providência e ao seu poder (47).
Idem. E CONTINUAMOS DE ACORDO.
2120. O sacrilégio consiste em profanar ou em tratar indignamente os sacramentos e outras acções litúrgicas, bem como as pessoas, as coisas e os lugares consagrados a Deus. O sacrilégio é um pecado grave, sobretudo quando é cometido contra a Eucaristia, pois que, neste sacramento, é o próprio corpo de Cristo que Se nos torna presente substancialmente (48).
Pugnamos incansavelmente pela tolerância religiosa. Fomos, aliás, vítimas de perseguição religiosa no período do Estado Novo...
ESTAMOS PORTANTO DE ACORDO, MAIS UMA VEZ.
2121. A simonia (49) define-se como a compra ou venda das realidades espirituais. A Simão, o mago, que queria comprar o poder espiritual que via operante nos Apóstolos, Pedro responde: «Vá contigo o teu dinheiro para a perdição, porque julgaste poder adquirir por dinheiro o dom de Deus» (Act 8, 20). O apóstolo conformava-se, assim, à Palavra de Jesus: «Recebestes de graça, pois dai gratuitamente» (Mt 10, 8) (50). É impossível alguém apropriar-se dos bens espirituais e comportar-se a respeito deles como proprietário ou dono, pois eles têm a sua fonte em Deus, e só d'Ele se podem receber gratuitamente.
Não podemos estar mais de acordo! O Espiritismo é um movimento cultural e filantrópico de rigoroso voluntariado. Nenhum espírita aufere rendimentos com as suas actividades espíritas, e ninguém paga para beneficiar dos nossos serviços (palestras, cursos, apoio espiritual, passe, etc.).
E CONTINUAMOS DE ACORDO.
2122. «Além das ofertas determinadas pela autoridade competente, o ministro nada peça pela administração dos sacramentos, e tenha o cuidado de que os pobres, em razão da pobreza, não se vejam privados do auxílio dos sacramentos» (51). A autoridade competente fixa essas «oblações» em virtude do princípio segundo o qual o povo cristão tem o dever de contribuir para o sustento dos ministros da Igreja. «O trabalhador merece o seu sustento» (Mt 10, 10) (52).
Nada temos a obstar a que nas religiões tradicionais os crentes contribuam para a manutenção das suas igrejas e dos seus sacerdotes. Desde logo porque não nos diz respeito, mas também porque nos parece moralmente correcto.
Ignoramos o motivo pelo qual o Catecismo da Igreja Católica mistura Espiritismo com "práticas divinatórias ou mágicas". Errar é humano, e não estamos "zangados" com a Aura Miguel por causa da sua crónica. Achamos que não esteve bem, e que ao ir buscar as "ciladas de demónio" para verberar o que aparentemente desconhece, não foi prudente. Mesmo sem o ter querido, colocou-se ao nível de certos pregadores fanáticos que investem por exemplo contra a religião católica, considerando que as imagens dos templos infringem mandamentos bíblicos e que por isso são "ciladas do demónio". E às vezes passam
à acção!...
Neste mesmo blog estão disponíveis as obras básicas da Doutrina Espírita. As associações espíritas estão abertas, com actividades de entrada livre, para quem queira confirmar se lá se fazem algumas "magias ou adivinhações". A Associação de Divulgadores de Espiritismo e a Federação Espírita estão sempre à disposição para entrevistas e esclarecimentos. A Internet tem sites espíritas muito bons e muito completos.
Portanto, a quem tenha dúvidas, basta querer informar-se. Cada um é livre de não concordar com a nossa Doutrina e mesmo de a combater e detestar. Temos pena é que a tomem pelo que não é.
Mas melhor será se nos respeitarmos todos, apesar das diferenças. Atitude digna de cristãos é a de construir pontes, ultrapassando divergências em nome da Fraternidade pregada pelo Nazareno.
3 comentários:
29.7.10
Em jeito de adenda, veja-se a resposta de Chico Xavier a uma questão directamente a ver com a religião católica:
http://www.youtube.com/watch?v=RYdyZLJWcYw
30.7.10
Parabéns!
Esta vossa resposta, complementada com o pequeno vídeo do Chico Xavier,merece os meus parabéns, pois tem uma excelente qualidade.
Não é uma troca de galhardetes entre espíritas, mas uma tentativa de incentivar o bom trabalho. Quando vejo aqui alguma coisa que não concordo tb o digo sem papas na língua.
Como dizia Jesus: pelos frutos se conhece a árvore. E esta resposta é um fruto de excelente qualidade, em meu entender.
O bom trabalho, para mim, é aquele que vai no sentido da melhoria de nós mesmos e, por consequência, de toda a humanidade, que não é mais do que o conjunto de todos nós.
O catecismo de Jesus, para nós, é o novo Testamento da Bíblia. São as próprias palavras do nosso Mestre e Modelo. E, por isso, estamos seguros de que o que diz no catecismo católico, a respeito do espiritismo, não foi inspirado nas palavras de Jesus de Nazaré!
Reconhecemos que há charlatães que se dizem espíritas. Mas as obras de Allan Kardec, explicam muito bem o que é e o que não é o espiritismo. Estão disponíveis para download gratuito na Internet, em muitos sites, começando por este mesmo site. Até há áudio-livros das mesmas, para quem tiver dificuldades de visão.
Será que quem elabora e traduz os catecismos, e também A Aura Miguel não têm acesso à Internet?
Não nos parece uma postura que nos possa servir de exemplo, a avaliação de uma doutrina com bases nos maus exemplos dos seus adeptos. E muito menos daqueles que, não sendo sequer adeptos da doutrina espirita, procuram ilegitimamente apresentar-se sob um nome respeitável para esconder as suas vigarices.
E, se a história nos mostra católicos exemplares, como aquela que encarnou aqui na Terra sob o nome Teresa de Calcutá, por exemplo, mostra-nos também maus exemplos antigos e recentes, não de simples adeptos, mas até de sacerdotes que são representantes profissionais legítimos da instituição católica.
Ora nunca me passaria pelo pensamento generalizar os erros de alguns sacerdotes a toda a organização católica. E se eu o fizesse faltaria aos meus deveres de Cristão e de Espirita. E seria mesmo ingrato.
Com efeito, conheci sacerdotes, como, por exemplo, o padre João Cabeçadas, a quem presto aqui a minha homenagem póstuma, que foi para mim um exemplo, e que me motivou a estudar as palavras de Jesus, que são a inspiração primeira de toda a minha espiritualidade.
As obras de Kardec só me vieram ajudar a clarificar e valorizar as palavras de Jesus. A mensagem é a mesma: a vida do espírito é eterna, mas a do corpo de carne está condenado à morte e à destruição. Assim sendo, é fácil de julgar qual é a mais importante: a vida do corpo de carne ou a vida do espírito eterno.
Contudo, devemos manter o corpo saudável, para não perder a oportunidade de aperfeiçoar o espírito.
30.7.10
Obrigado, CEDAK.
Espírito crítico é que se quer. Quem é amigo, concorda e discorda abertamente, porque tem sempre boa intenção.
Abraço amigo,
AA
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