Na noite do dia 8 de Julho de 1981, numa homenagem que se lhe prestava a Chico Xavier pelos seus 54 anos; no salão de vidro do Uberaba Ténis Clube, com o salão lotado, Chico se pronunciou nas seguintes palavras:
“Quero lembrar-me da noite de 21 de Junho, quando foi fundado o Centro Espírita Luiz Gonzaga, mas especialmente quero, com o vosso consentimento, recordar o pequeno grupo no qual recebemos a primeira mensagem na noite de 8 de Junho de 1927.
Conquanto a nossa fé fosse viva e sincera, o meu espanto foi muito grande e não posso apagar da memória aquele grupo de companheiros que, durante alguns meses e alguns poucos anos, me acompanharam, oferecendo-me o melhor de seus corações e de suas vidas. Quero dizer da herança de amor que eles me transmitiram, da bondade com que me toleraram, do carinho que me ofereceram para que, naquelas primeiras horas, em minha fragilidade, eu não esmorecesse.
Lembro-me de Dona Josefa Barbosa Chaves, em cuja residência efectuávamos as nossas primeiras reuniões e que, ao partir para a Vida Espiritual depois de alguns meses, após a noite de 8 de Julho de 1927, à vista de problemas coronários que se agravaram de uma hora para outra (…) me recordo daquelas mãos que apertaram as minhas e disseram:
- Eu não tenho coisa alguma para dar a você, mas esteja certo: eu vou orar muito porque pressinto a Espiritualidade perto de mim; darei a você as minhas preces, pedirei a Deus protecção para os seus passos…
Depois de poucos dias, aquele que presidia a nossa Casa, Ataliba Ribeiro Viana, sofria ruptura de vasos cerebrais e tornou-se hemiplégico, com a desencarnação chegada em poucas semanas; e, ao partir, ele me recordou:
- A mensagem que eu tenho para você é a certeza de que a morte não existe e que nós estaremos juntos sempre…
Logo após, foi Dona Joaninha Gomes, criatura de um maravilhoso coração que, ao se despedir de nós neste Plano Físico, na véspera da sua Grande Viagem, retirou de sob o travesseiro um pequeno envelope em forma de carta e me entregou aquela relíquia, asseverando ao meu coração:
- Isto é o que eu tenho para dar a você para o caminho… Na mesma tarde em que recebi semelhante brinde, abri o envelope: era a cópia de uma Prece de Cáritas…
Recordo Agripino da Paula Curz, que partindo logo após, na véspera da Grande Transformação, me ofereceu um volume de O Evangelho segundo o Espiritismo…
Recordo José Felizardo Sobrinho, grande coração, com quem trabalhei em regime de subalternidade, pois ele era meu chefe, com que trabalhei nove anos antes que a mediunidade despontasse em meu coração e em minhas mãos... Esse mesmo companheiro, que terminou os seis dias na Terra esmolando, de porta em porta, o pão de cada dia, me ofereceu por herança, no dia preciso em que nos deixava, uma efígie de Jesus Cristo – um quadro simples em que o olhar do Mestre parecia trespassar o meu coração…
Depois de alguns poucos anos, um companheiro de que dispunha e que era meu irmão na consanguinidade, José Cândido Xavier, uma semana antes de partir, me comunicou com bondade:
- Eu desejo tanto ficar com você! Eu sinto que a minha viagem por este mundo é muito curta e que o meu tempo se aproxima…
O meu irmão, o nosso irmão na fé e no ideal, estava com 33 janeiros apenas e partiu depois de uma semana, após confiar-me os seus votos de boa vontade em meu favor…
Recordo Dona Júlia de Carvalho, que partiu com a provação da cegueira. Movimentava-se através de uma corda que a ligava ao fundo de sua pequena residência até à ponta do terreno (…) para receber o pão que lhe davam, em consideração à sua vida de outros tempos…
Recordo ainda, com a vossa licença, aquela que foi a segunda esposa de meu pai, Cidália Batista, que partiu da Terra, minha mãe e minha melhor amiga, porque ela foi sucessora daquela que me trouxe à reencarnação.
Ela me disse:
- Chico, eu sei que parto. Mas eu vou pedir muito a Jesus por você… Eu não sei se você lembra que muitas vezes me dizia ver assembleias no ar…
Então, eu lhe disse:
- Por que a senhora vai nos deixar, quando eu preciso tanto de alguém que me assista?
Ela me respondeu:
- Eu creio que você irá encontrar esses irmãos do arco-íris. Eles existem em alguma parte. O que é que eu posso fazer por você?!
Ela que me havia dado um livro de exemplos. (…) Ela que me havia ensinado a encontrar a melhor directriz, me falou com humildade:
- O que é que eu posso fazer por você, se eu não sei ler?
(Continua)

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