Spiga

O Período das "Catacumbas"


Quando Jesus de Nazaré esteve na Terra, arrastou multidões com a sua Boa Nova. Era acompanhado por gente de todas as classes sociais, níveis de instrução, nacionalidades e religiões. Jesus anunciou claramente não ter vindo para destruir a Lei. Referia-se à Lei de Moisés, ao Decálogo, os Dez Mandamentos sobre os quais estava fundada a religião Judaica. Tão pouco Jesus manifestou alguma vez a intenção de revogar fosse o que fosse na religião vigente ou em qualquer religião. O Evangelho (a Boa Nova) de Jesus, dizia respeito a todas as pessoas, fossem elas de que religião fossem.

Ao período de entusiasmo sobrevieram em breve as intrigas e as conspirações, que viam em Jesus - um homem de paz e de união - a semente de possíveis agitações sociais e perigo para a organização religiosa vigente. A execução de Jesus foi uma dessas tristes jornadas em que a estupidez humana cobra as vítimas mais puras.

Com o Espiritismo, no nosso País, as coisas tiveram uma evolução idêntica. O Espiritismo não veio ameaçar nenhuma religião. Não veio tentar arrebanhar adeptos de nenhuma religião. Não veio provocar quaisquer conflitos ou hostilizar fosse quem fosse. A proposta espírita, porque cristã, é de aproximação entre os Homens e de glória a Deus.

No entanto, os que temem o livre-pensamento e sentem ameaçadas, sem razão, as suas "capelinhas", quando o movimento atingiu maior visibilidade, apressaram-se a silenciá-lo. Havia cidades portuguesas que possuíam jornais espíritas diários, versando Doutrina Espírita, sem intuitos políticos ou proselitistas. Floresciam as publicações, as conferências, a fraternidade extensiva a todos, fossem eles espíritas ou não. O Espiritismo em Portugal apresentava uma vitalidade rara no panorama mundial.

Com a proibição oficial das actividades espíritas não se silenciou totalmente o Espiritismo em Portugal. Três associações mantiveram actividades de assistência social. Algumas conferências públicas iam tendo lugar. Mas sob o movimento pairava o estigma de tudo o que é proibido. De 1953 a 1974, ser-se espírita passou a ser considerado "subversivo".

Portugal deixou por exemplo de poder receber livremente expositores espíritas estrangeiros. Divaldo Franco (na imagem), o brilhante médium e conferencista brasileiro, foi dos que "sobrevoavam" corajosamente a proibição, e nunca deixou de visitar Portugal e as suas Colónias. Ficaram célebres entre os espíritas da altura as jornadas gloriosas em que Divaldo, em cima de um atrelado de tractor, à luz da Lua, fazia as suas palestras, que muitas vezes acabavam abruptamente com o aviso da aproximação da polícia política e a consequente debandada dos espíritas pela serras e pelos pinhais.

Foi uma época que também teve semelhanças com a perseguição aos Judeus declarada pelos Reis Católicos, de Espanha, e pelo Rei D. Manuel I, em 1496. Se ainda hoje, em regiões portuguesas como a Beira Interior, os adeptos do Judaísmo ainda se reúnem, com certa precaução, ainda que já não justificada, é fácil de imaginar o ferrete que ainda marca o Espiritismo em terras lusas...

Foi um tempo que ficou conhecido como das "catacumbas", pelo paralelismo com os Primeiros Cristãos, perseguidos quer pelos Judeus, quer pelos Romanos, obrigados a refugiarem-se em grutas, sem terem cometido qualquer delito ou representarem qualquer ameaça, a não ser para a ignorância, a intolerância e o Mal em geral...

O tempo das "catacumbas", em Portugal, teve consequências para o movimento espírita nacional. O isolamento dos espíritas em pequenos grupos clandestinos, familiares, fez com que se perdesse muita da qualidade que só se consegue com o intercâmbio, o convívio, a aprendizagem constante em clima aberto.

Quando em 1974 se reconquistaram as liberdades democráticas, o movimento espírita encontrava-se paralisado pela longa inacção. Os antigos impulsionadores estavam avançados na idade. Os que mantiveram grupos familiares, habituados ao isolamento e sem capacidade de mobilização. Foi altamente meritória a actividade de todos os que se esforçaram por reactivar os grupos espíritas, por reconstruir a Federação, e por voltar a divulgar a Doutrina.

A reorganização foi lenta. Muitos núcleos espíritas tardaram a abrir portas ao público. E muitos dos que o fizeram continuaram a praticar um Espiritismo a que se habituaram durante os longos anos da proibição, pouco dado ao estudo e com laivos místicos pouco condizentes com a verdadeira essência da Doutrina. Alguns centros ditos espíritas mais se assemelhavam a centros mediúnicos, em que o fenómeno tinha toda a prioridade e o estudo era relegado para segundo plano. Não é raro ainda hoje encontrarem-se espíritas que nunca leram as obras básicas, por as suas leituras terem sido orientados essencialmente para descrições romanceadas do mundo espiritual.

(continua)

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2 comentários:

Anónimo

11.4.10

Excelente este conjunto de informações sobre a história do espiritismo em Portugal!
O vosso blog consolida-se como sendo um dos melhores blogues sobre o espiritismo a nível mundial bem como um dos melhores blogues a nível nacional sobre qualquer assunto. Dou-vos os parabens.

Mário

12.4.10

Olá Anónimo/a,

Endosso as suas felicitações a manuela vasconcelos, cuja obra "Movimento Espírita Português" tem sido o mote principal para estas breves pinceladas.

Agradeço, em nome da equipa, as felicitações pelo blogue, que vamos fazendo nos nossos tempinhos livres, com o melhor da nossa boa-vontade.

Abraço amigo,

Mário

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