
As interferências do plano espiritual no plano físico e vice-versa e respectivas consequências
O principal motivo por que Susie Salmon opta ficar no seu mundo transitório relaciona-se directamente com os laços que mantém com as pessoas que deixou no plano físico: de amor pela família e por Ray; de medo e ódio pelo Sr. Harvey, o seu assassino. Essa relação estabelece-se ao nível dos sentimentos e é bidireccional, com consequências directas em ambos os planos e na vida de cada um.
Para compreender as relações entre encarnados e desencarnados, sugiro a leitura de O Livro dos Médiuns, que faz parte da Codificação Espírita. Para este post continuo a ter como base O Livro dos Espíritos cuja segunda parte aborda este assunto de uma forma mais condensada.
É comum pensar-se que os desencarnados conseguem ver-nos e influenciar-nos de alguma maneira. Dependendo do grau de evolução e daquilo que para seu bem lhes é permitido ver e influenciar, assim é. Os espíritas conhecem muito bem as duas passagens que aqui transcrevo:
456. Vêem os Espíritos tudo o que fazemos?
"Podem ver, pois que constantemente vos rodeiam. Cada um, porém, só vê aquilo a que dá atenção. Não se ocupam com o que lhes é indiferente".
459. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?
"Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem."
No entanto, este não é um privilégio dos desencarnados. Se existem alguns encarnados que possuem a faculdade de ver e interagir directamente com os desencarnados (isto é, detentores de mediunidade), a verdade é que todos nós, advertida ou inadvertidamente, por força do pensamento e das emoções, nos influenciamos uns aos outros e interferimos na vida de encarnados e desencarnados.
Em Visto do Céu, o amor entre Susie e o seu pai é de uma força tal que a sintonia vibratória é constante e ambos acabam por agir como que por simbiose. A reacção violenta e desesperada de Jack Salmon perante a morte da filha coincide com a decisão de Susie em adiar a sua ida para o Céu e inverter a sua marcha em direcção ao local onde se sente próxima do passado, das memórias, dos afectos, da Terra. Sem o saber, o pai acaba por se co-responsabilizar pela permanência da menina no mundo intermédio. A entrada no Paraíso ameaça um maior afastamento que o estádio intermédio parece atenuar.
Atentemos à seguinte passagem d' O Livro dos Espíritos:
936. Como é que as dores inconsoláveis dos que sobrevivem se refletem nos Espíritos que as causam?
"O Espírito é sensível à lembrança e às saudades dos que lhe eram caros na Terra; mas, uma dor incessante e desarrazoada o toca penosamente, porque, nessa dor excessiva, ele vê falta de fé no futuro e de confiança em Deus e, por conseguinte, um obstáculo ao adiantamento dos que o choram e talvez à sua reunião com estes.
Estando o Espírito mais feliz no Espaço que na Terra, lamentar que ele tenha deixado a vida corpórea é deplorar que seja feliz. (...)"
O desespero de Jack irrompe no mundo de Susie: as pesquenas garrafas de colecção de anos, com barcos e miniatura, que o pai, minado pela dor, vai partindo uma a uma, adentram pela costa, em dimensões gigantescas e alteram a paisagem, com os seus cacos e o perigo que a violência implica. No entanto, Jack não consegue destruir a primeira garrafinha de Susie e coloca-a à janela, com uma vela acesa, como que um altar. A luz dessa vela acende-se no mundo de Susie ccomo um farol cuja luz luz é vista, pelo pai, no interior da garrafinha. Podemos considerar essa luz como uma metáfora do amor, belo e forte, que une pai e filha. Mas também o sinal de que ainda necessitam para sentirem a presenção um do outro, numa dependência de que precisam de se libertar. Os dois mundos interpenetram-se e Jack compreende que Susie ainda existe.
A outra personagem que influencia a disposição de Susie e interfere na mudança da paisagem do seu mundo é George Harvey, o vizinho assassino. As nuvens fecham o céu, as folhas secam, o ambiente fica pesado e tudo se torna sombrio e invernoso. Para vencer o domínio que o homicida exerce sobre o seu mundo, Susie terá de conseguir romper os laços de medo e de ódio que a unem a ele.
Assim como existe uma interferência dos encarnados no plano espiritual, o contrário é também muito comum. Isso é abordado no filme através da exploração de diferentes tipos de mediunidade:
- O seu irmãozinho vê-a e ouve-a. Sabemos que as crianças pequenas têm uma sensibilidade mediúnica mais apurada que, com o passar dos anos, tende esmorecer.
- Com o pai, que por vezes consegue perceber o seu chamamento e sentir a sua presença, Susie consegue alguns efeitos físicos: a luz bruxuleante, a rosa seca que readquire cor... mas com ele a sintonia é muito intensa e a indução torna-se fácil. Assim, o desejo de justiça é tão forte que Jack, encorajado pela filha, decide, num impulso, utilizar as próprias mãos. O desfecho é trágico e a menina, horrorizada, compreendendo que seria responsável pela morte do seu pai, percebe que o caminho será necessariamente outro.
- A colega, considerada pelos demais, como uma rapariga esquisita e diferente, possui vidência. Quando vê Susie a fugir em pânico, compreende, mesmo antes da própria, que a menina estava desencarnada. No final do filme, é a ela que Susie se socorre para poder conversar com Ray. Através da psicofonia, os encarnados transmitem, oralmente, as ideias que os desencarnados pretendem fazer passar. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não se trata de qualquer incorporação ou possessão. No entanto, esta é uma inverdade que o cinema gosta de explorar e, por isso, assistimos à transfiguração da rapariga . De repente, Ray tem Susie Salmon nos seus braços e beija-a apaixonadamente. Uma impossibilidade na vida real.
The Lovely Bones, traduzido para português como Visto do Céu, foi estreado recentemente nas salas de cinema em Portugal e é baseado num romance homónimo de Alice Sebold. Dirigido por Peter Jackson, conta com a participação da jovem Saoirse Ronan no papel principal. É um filme tocante que permite e merece mais leituras que ultrapassam a minha capacidade.
Fico-me por aqui, anotando ainda que, muito embora o final seja relativamente apaziguador (Susie liberta-se e sente-se preparada para ir para o Céu, a sua família o seu caminho, a própria vida encarrega-se de fazer justiça e o mau da fita tem o fim que merece), fica por justificar o mal de que muitos padecem nas mãos de outros, assim como o destino cruel de crianças como Susie e as outras vítimas de George Harvey e outros horrores que por associação nos vão chegando à cabeça.
A Lei de Causa e Efeito, em estreita articulação com a da Reencarnação e a do Livre-arbítrio trazem esclarecimentos preciosos, mas este não é um filme espírita. Visto do Céu apresenta uma abertura fenomenal a estas questões. A nós de irmos mais além.
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