Há quem reduza o Espiritismo à simples expressão daquilo que pensa que é o Espiritismo: a mediunidade, os fenómenos mediúnicos.
Chamamos aos fenómenos mediúnicos, também, fenómenos espíritas. Não porque estes tenham começado ou sido inventados pelo Espiritismo, ou Doutrina Espírita, mas porque são fenómenos que têm como origem os Espíritos, as almas dos homens que viveram na Terra.
Moisés, tal como aparece na Bíblia, no Livro do Deuterónimo, Capítulo XVIII, proibiu a evocação dos mortos. Se a proibiu, foi porque ela se fazia. E proibiu-a, tal como proibiu, no mesmo édito, outras práticas, que incluíam o sacrifício de crianças aos deuses (!).
Nessa época, a Humanidade terrena era bem mais rude e insensível que hoje, o senso moral achava-se menos desenvolvido, e o medo supersticioso comandava o dia-a-dia dos Povos.
Ainda subsistem, em nossos dias, práticas que à época já repugnavam a pessoas mais evoluídas, como Moisés. A comercialização da mediunidade, por exemplo. O povo Hebreu achava-se imbuído dos costumes egípcios, que incluíam a consulta constante dos mortos para a tomada das mais simples decisões no dia-a-dia.
Habituados a envolver a História Bíblica nas roupagens do épico e maravilhoso, à maneira da Arte Antiga ou do Cinema de Cecil B. DeMille, ainda pintamos Moisés ou Jesus como mensageiros de um Deus a quem é preciso agradar e não desobedecer, sob pena de desencadear a sua "cólera". Muitos de nós, homens do século XXI, ainda atendemos mais aos contornos espectaculares das Escrituras do que ao seu conteúdo espiritual e moral. Se pusermos a hipótese - como alguns investigadores põem - de Moisés não ter "partido" o Mar Vermelho, mas antes ter aproveitado sabiamente as marés, a narrativa bíblica perde para esses todo o sabor.
Presos a uma religiosidade ainda infantil, alguns teimam que Deus tem seus caprichos, e prescrevem, segundo sua interpretação da Bíblia, formas de usar a roupa ou o cabelo, dietas, e outros hábitos.
A alegada proibição de contactar os mortos, que Moisés com muita razão promulgou, teve como objectivo evitar os abusos e a exploração comercial da mediunidade. Bem assim cortar laços com os hábitos egípcios e fomentar a criação da nova identidade cultural Judaica, pois para mais se tratava do Povo escolhido para Primeira Revelação, a do Deus Único.
Se Deus permite que os Espíritos se comuniquem, e por outro lado proibisse todo o contacto com eles, Deus não seria, como é, infinitamente perfeito e infinito em todas as suas perfeições. Por isso, considerar o Deuterónimo XVIII como uma regra caprichosa ditada por Deus, retirá-lo do seu contexto histórico e racional, é, para nós, inaceitável.


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