Spiga

"Liberdade de Designação" X Burla Descarada



Perdoem-me a insistência, mas ainda estão no ar as ondas de choque provocadas pela emissão de A Voz do Cidadão dedicada a desfazer a confusão entre Espiritismo e Bruxaria.

A equipa da RTP que esteve envolvida no programa, desde a captação de imagens à montagem da peça, parece-me ter feito um excelente trabalho. Tratava-se de distinguir duas filosofias:

- O Espiritismo, doutrina filosófica de consequências morais, cristã, voluntária e livre.

- A Bruxaria na sua acepção actual: comércio de comunicações com o Além, curandeirismo, rituais mágicos.

O Provedor do Telespectador cumpriu o seu dever de bom-senso e imparcialidade. De forma exemplar, a meu ver. A peça teve a qualidade que seria de esperar da parte de profissionais.

Do feedback que tenho tido, na rua, de conhecidos, companheiros de trabalho, amigos, tem havido três reacções: uns manifestam abertamente o seu agrado, porque "perceberam, afinal, o que é isso do Espiritismo"; outros lamentam, ainda, que tenha havido mistura de imagens entre Espiritismo e Bruxaria. Entendo que melhor seria não haver associação alguma, mas quem a fez não foram os espíritas, que se demarcaram, como sempre, de práticas duvidosas de índole comercial.

Outra questão que tem levado a reflexões é a afirmação de Moisés Espírito-Santo, de que cada pessoa tem o direito de se designar como entender, em termos religiosos ou filosóficos. Para além do que a Denise já explicou de forma brilhante clara, como lhe é peculiar, quero acrescentar algumas considerações:

- Se um indivíduo se apresenta na televisão a proclamar-se autoridade máxima na extracção de "maus-olhados", e em rodapé aparece escrito que esse indivíduo se dedica a Espiritismo, isso não colide com nenhuma "liberdade auto-classificação". Isso é um mal-entendido lamentável ou uma burla descarada!


Uma burla tão grave como a que fazem aquelas pessoas que andam a fazer peditórios em nome da Cruz Vermelha ou da Casa do Gaiato, e que botam o dinheirinho nos seus próprios bolsos.

Porque não passa em rodapé nenhuma referência ao partido político, clube de futebol ou religião da pessoa. Passa uma suposta informação da "especialidade" que ela está a propagandear.


Se um indivíduo se apresenta na televisão a falar de "cofres abertos e fechados", de "maus-olhados" e de outras superstições e crendices, e se em rodapé nos "informam" que essas práticas e conceitos são Espiritismo, está-se a prestar um péssimo serviço ao público, que confunde duas coisas diametralmente opostas, e está-se a vilipendiar a honradez de uma doutrina e de pessoas que consagram os seus tempos livres a estudar uma filosofia e a ajudar o próximo, gratuitamente.


Moisés Espírito-Santo
decerto não estava dentro da questão quando chamou ao debate a liberdade de auto-classificação. Não é disso que se trata. Trata-se da usurpação de uma qualidade, da designação de uma filosofia, para fins comerciais. Se algum indivíduo se apresentar alguma vez a praticar artes mágicas e se as designar como Catolicismo, Protestantismo, Anglicanismo, Racionalismo Cristão, Rosacrucianismo, Umbanda, Teosofia, etc., decerto que os representantes dessas religiões ou filosofias se manifestarão contra tal abuso. E bem!


Moisés Espírito-Santo
afirmou que existe um "espiritismo popular, antigo" e um "espiritismo teológico, mais moderno". Não é assim. O Espiritismo é uma doutrina recebida por médiuns em todo o mundo e compilada, ou codificada, por Allan Kardec. Antes de 1857 não havia nenhuma corrente, nenhuma prática, nenhum movimento cultural chamado Espiritismo. E desde 1857 que existe apenas um movimento cultural com esse nome.
Só existe um Espiritismo. Pretender que as práticas dos médiuns comerciantes, dos curandeiros, dos bruxos, dos leitores de sina, dos receitistas de velas, amuletos e defumadouros, são Espiritismo, é um erro crasso.

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4 comentários:

AVC

22.7.09

Não sabe que as deformações de perspectiva estão na razão directa das imperfeições das "almas" incarnadas? Deixe-os evoluir espiritualmente, ou seja, cumprindo as suas vidas aqui em baixo.

Não lhe parece que está na altura de desvalorizar polémicas?

Cumprimentos.

João Eduardo

23.7.09

"almas " incarnadas !
Alguém que me explique o que isso é !

Guido Pinheiro

12.8.09

Todos temos que crescer moralmente, por isso temos que ser tolerantes. No entanto existe limites dentro da tolerância e não, podemos deixar criar monstros com a capa da tolerância.

André

13.8.09

Olá AVC,

Este texto visa esclarecer, apenas. Não me moveram intuitos de "puxar as orelhas" a Moisés Espírito-Santo.

Sendo ele a pessoa inteligente, culta e humilde que é, não vai amofinar-se. Pelo contrário.



Será que o seu comentário é dirigido às chamadas de atenção que sempre fazemos acerca de quem se faz passar por espírita indevidamente?

Será o AVC daqueles que acha que devemos calar perante isso? Mesmo quando são os burlões mais impiedosos a prejudicar o próximo, e a definirem-se, ou a serem definidos, como espíritas?

Em minha opinião, isso não é caridade! Temos o dever de denunciar esses casos, para defesa dos incautos, e a bem da reposição da verdade.

Não gostamos de polémicas. Mas temos o dever moral de informar e esclarecer.

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