Podem dizer que sou picuinhas, mas, e ainda relativamente ao programa A Voz do Cidadão...
Ponto um - da imagem - Quanto ao cenário que enquadrou os espíritas entrevistados, o Mário teve direito a um belíssimo muro de pedra verdadeira e o nosso Toni ao sol e aos arbustos e às árvores de um jardim. Em espaços interiores, a consolidar a ideia de que Espiritismo é cultura, o Lucas mostrou uma sala de palestras de uma associação espírita (sóbria e destituída de imagens, como se quer) e a Amélia esteve na companhia de livros (reconhecem-se, de imediato, as lombadas d' O Livro dos Médiuns). Lógico. Irrepreensível. Agora...
... alguém me pode explicar o motivo por que aparece uma igreja como fundo nas intervenções de António Teixeira?
A Igreja Matriz de Barcelos , ex libris da cidade, é um monumento de inegável valor histórico, cultural e artístico. Mas, também, um templo, de índole arreigadamente católica, religiosa, onde não cabe o Espiritismo que, sendo uma doutrina cristã, não é uma religião.
Ponto dois - Moisés Espírito Santo, entre os minutos 04:43 e 05:14 - Há sobretudo duas concepções de "Espiritismo": há o Espiritismo Tradicional, que inclui bruxaria, exorcismo, possessão demoníaca... pronto, o Espiritismo Popular.
Depois, há uma concepção filosófica, criada por Allan Kardec, no séc. XIX, e que criou toda uma série de codificações para o Espiritismo, para a Doutrina Espírita, baseada nos Evangelhos. Portanto, digamos que é uma doutrina filosófica, teológica, sobre os espíritos, sobre a vida dos espíritos.
Permitam-me as seguintes considerações:
a) Há sobretudo duas concepções de "Espiritismo": a errada e a verdadeira, pois que Espiritismo só há um: o de Kardec e mais nenhum.
b) Confundir rituais supersticiosos com Espiritismo corresponde à concepção errada da Doutrina: bruxaria, exorcismo, possessão demoníaca são práticas que, mesmo que lidando com espíritos, fluidos e energias (sejam eles reais, fantasmagóricos, efabulados), em nada, nadinha!, são espíritas.
c) O termo "Espiritismo" é um neologismo criado por Allan Kardec e divulgado em 1857 com a publicação d' O Livro dos Espíritos. A utilização de conceitos é tão importante que Kardec teve a preocupação de explicar o motivo da criação da palavra logo no primeiro parágrafo da «Introdução»:
Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos "espiritual", "espiritualista", "espiritualismo" têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras "espiritual", "espiritualismo", empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos "espírita" e "espiritismo", cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo "espiritualismo" a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os "espíritas", ou, se quiserem, os "espiritistas".
Resumindo: "espiritismo", "espírita" e "espiritista" são palavras que, em rigor, só podem ser aplicadas no contexto da doutrina dos espíritos.
d) Não há uma "série de codificações" para o Espiritismo. A codificação é só uma, resultante do trabalho incansável de Allan Kardec e da sua equipa de estudo e investigação.
e) Allan Kardec não criou a Codificação Espírita. Compilou-a. Efectivamente, o seu trabalho consistiu na pesquisa, no levantamento de hipóteses, na elaboração de entrevistas, no tratamento dos dados, na selecção e organização das respostas obtidas e na edição dos livros que constituem a Codificação cujos autores são, sim, diversos espíritos desencarnados.
f) O Espiritismo é uma doutrina filosófica sim. Mas não só. Contempla, também, os aspectos científico e moral. Assim o definiu Allan Kardec no «Preâmbulo» de O que é o Espiritismo: ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal. Um pouco mais à frente acrescenta: O Espiritismo é ao mesmo tempo ciência experimental e doutrina filosófica. Como ciência prática, tem a sua essência nas relações que se podem estabelecer com os espíritos. Como filosofia compreende todas as conseqüências morais decorrentes dessas relações.
Ponto três - Moisés Espírito Santo, entre os minutos 07:30 e 07:51 - As pessoas têm o direito de se autonomearem, autoclassificarem do ponto de vista da religião. As pessoas que se quiserem classificar de católicos são católicos, se quiserem classificar como mulçumanos são mulçumanos...
Portanto, a autoclassificação é um direito de liberdade religiosa.
Portanto, é natural que alguém que pratica bruxaria também se autonomeie "espírita".
Ora...
a) Parece-me muito clara a confusão que aqui se estabelece entre aquilo que é liberdade religiosa e o que é a liberdade de autoclassificação. A liberdade religiosa inclui o direito a seguir e/ou a se pertencer a qualquer religião como ao agnosticismo e ao ateísmo, sem que, por isso, se seja alvo de perseguição e/ou descriminação de qualquer espécie. A liberdade de autoclassificação consiste no direito de nos classificarmos como bem entendermos.
b) O hábito não faz o monge nem o facto de eu me proclamar maçaroca de milho me coloca num tacho de papas quentes aqui em Monchique.
c) Mutatis mutandi, não é o facto de uma pessoa se classificar como católica que a torna católica, nem um mulçumano o é só porque assim se autonomina.
d) A liberdade de autoclassificação é uma falsa liberdade, na medida em que, maliciosa ou inadvertidamente, induz os outros ao erro. No primeiro caso, resulta de um claro uso abusivo de consequências ora inócuas ora graves. No segundo caso, resulta do desconhecimento das coisas. E, como sabemos, a ignorância pode ser mesmo muitíssimo atrevidota...
e) Assim, não é natural que um bruxo se autonomeie "espírita". Porque subverte um léxico já existente. Porque não corresponde à verdade.
e) O uso malicioso dessa falsa liberdade deve ser incansavelmente combatido visando a reposição da verdade. O uso inadvertido dessa falsa liberdade deve ser incansavelmente combatido visando o esclarecimento.
f) É o que os que aqui escrevem neste blogue, a Adep e muitos espíritas deste mundo de provas e expiações procuram fazer relativamente ao conceito de "Espiritismo".
(A picuinhas retira-se, desejando a todos uma excelente semana de férias ou trabalho)


4 comentários:
20.7.09
Denise, uma vénia a este texto.
Realmente, para um homem com um nome desses (mais religioso é quase impossível, que se diz professor em sociologia das religiões, são gafes difíceis de compreender.
20.7.09
Obrigada, Catsone :-)
São deslizes que podem acontecer, sobretudo em discurso oral, mas que não foram cometidos por má-fé. O importante é desmontá-los em prol da dignidade da Doutrina Espírita.
20.7.09
Não só concordo com o texto, como me curvo perante a sua eloquência.
20.7.09
Bravo!!Eu vi a peça na RTP... quando o homem começou a falar só pensei: mas onde o foram buscar? Terá sido por indicação da ADEP...no way...Bem visto! Bem esclarecido!
Enviar um comentário