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Alamar - "Fazer justiça com as próprias mãos"

Fazer justiça com as próprias mãos

Todo o mundo já ouviu esta frase, que se traduz na disposição das pessoas praticarem vinganças, quando violentadas, elas ou membros das suas famílias.

Um elemento, dirigindo em alta velocidade, bêbado, atropela e mata um cidadão. Os familiares e amigos da vítima o procuram e o matam também.

Uma mulher passa uma vida inteira apanhando de um marido violento, que criou o hábito de agredi-la e aos seus filhos. Em um determinado dia, levada pelo desespero, ela o mata.

Outro elemento, abusando da confiança que lhe é depositada, rouba a empresa e todo o património do seu patrão, destruindo-lhe tudo, acabando com o seu nome e deixando a sua família na miséria absoluta. A vítima, desesperada, o mata.

Policiais, revoltados com o nível de perversidade de perigosos e monstruosos bandidos, que assassinam covardemente os seus colegas, resolvem reunir grupos e saírem em caça dos mesmos e os matam também, naquela prática que é conhecida como “esquadrão da morte”.

Todos estes casos são conhecidos como “fazer justiça com as próprias mãos”, que é um procedimento ilegal, imoral e incompatível com os princípios espirituais ou religiosos, como queiram.

As religiões não admitem isto, porque ensinam o contrário, a polícia não admite isto, a Lei não admite isto, a Justiça não admite isto, inclusive a JU$TI$$A brasileira.

Todavia, já que perguntar e questionar não ofende, partamos, então, para o questionamento aqui neste artigo.

Será que a religião tem moral suficiente para recomendar e exigir que a sociedade não pratique este, que é um ato imoral?

Será que a instituição policial, também, tem moral para punir, prendendo os que praticam esse ato?

Será que a “justiça”, sobretudo essa sem vergonha JU$TI$$A brasileira, tem moral para condenar alguém que pratica esse tipo de acção?

Quero deixar bem claro que eu, Alamar Régis, sou também contra a prática da “justiça” com as próprias mãos, sou contra a vingança, sei que violência gera violência e acho a maior burrice do mundo aquele eterno derramamento de sangue entre Judeus e Palestinos, porque qualifico como burros tanto um lado quanto o outro.

Guerra nenhuma tem vencedor, só tem perdedores.

Digo isto, porque sempre aparece algum leitor para, talvez lendo rápido ou tirando conclusões precipitadas, enviar-me e-mails alegando que eu esteja pregando a violência e a vingança. Acho que um leitor, responsável e sensato, que deseja manifestar qualquer opinião sobre uma matéria (o que é um direito), deve ter o indispensável cuidado de RELÊ-LA, lenta e atenciosamente, para checar bem o que o seu autor realmente quer dizer, para evitar laborar no achismo que, invariavelmente, é irresponsável.

Estou apenas questionando e sugerindo que as pessoas pensem, raciocinem e ajam, em relação às autoridades e aos legisladores, para que coisas sejam mudadas neste país de valores morais invertidos.

Vejam este caso:

Um adolescente, de 18 anos, acostumado a sair com o carro do seu pai para fazer “cavalo de pau” e aquelas extravagâncias no trânsito, num desses momentos, dirigindo em alta velocidade, bêbado ao volante, atropelou e matou um cidadão, pai de família, deixando esposa e filhos na orfandade, passando por necessidades, além do sofrimento natural proporcionado a uma família que perde, bruscamente, um ente querido.

O seu pai, irresponsável e insensivelmente, providenciou escondê-lo, para evitar que ele fosse preso em flagrante.

Por ter muito dinheiro, ser um homem influente e poderoso na cidade, contratou os três “melhores” advogados da cidade (não foi um advogado, apenas) que já foram à delegacia tomar as providências para “livrar a cara” do delinquente.

Já que quem tem dinheiro pode tudo, neste país, não tiveram dificuldade nenhuma em conseguir um juiz que assinasse um “habeas corpus”, imediatamente, para garantir a liberdade do assassino.

Agora, vejam bem o que aconteceu:

O jovem bandido, como é comum em todo adolescente que tem a protecção de pais irresponsáveis, como é o caso daquele personagem da novela da Globo (Caminho das Índias), muito bem denunciado pela autora Glória Perez, percebendo que “não pegou nada com ele”, não foi preso, não apanhou, não sofreu pena nenhuma, o que fez?

Continuou a fazer a mesma coisa. Não deixou de dirigir bêbado porque sabe que “O velho sempre dá o jeitinho dele e tudo fica numa boa”.

Sabe o que ele faz, hoje:

Faz questão de parar o carro em frente a casa da família que ele enlutou, debochar da cara da viúva, dos seus filhos, dos seus sogros, com sorrisos sádicos e, inclusive, chegando ao ponto de dizer que matou um e matará quantos atravessarem à sua frente, que não pegará nada com ele.

Como se não bastasse, (me contava a viúva), ele tem o desplante de, costumeiramente, telefonar para ela e fazer propostas assim:

- “E aí, gata? Tudo maneiro? Um tempão sem transar, né? Que tal a gente se encontrar, numa boa? Olha aí, ó: comigo você vai ter na cama o que o seu marido nunca lhe deu. Chega de tristeza, agora tudo tem que ser só alegria.”

Gente. Pelo amor de Deus, quem é que aguenta uma coisa dessa?

Consta que o filho dela, de apenas 12 anos de idade, certo dia, sabendo que um seu tio tem uma arma em casa, começou a arquitectar pegar o revolver dele, para vingar a morte do pai, e tinha conseguido pegar a arma, quando foi abordado pela tia, na hora que saía da casa, já que ela percebeu.

A história desta família é bastante interessante, porque o que está acontecendo é algo que precisa ser debatido em grande fórum de abrangência nacional, envolvendo imprensa, governo e o povo em geral.

A maior vítima de provocações do assassino hoje, é exactamente o garoto, que só é tratado de “boiola”, “viadinho” e “babaca”, todas as vezes que o bandido passa com o carro, na sua rua.

O garoto já jurou, para a mãe, que vai matar o “Ricardinho”, que é nome do assassino.

- “Mãe, eu vou vingar a morte do papai, eu vou matar o Ricardinho e não adianta você tentar me fazer mudar de ideia. Eu vou acabar com a vida dele, antes de fazer dezoito anos, porque eu já sei que se eu matar, sendo de menor, nada vai acontecer comigo”.

A mãe já o levou à igreja, para falar com o Padre Bruno, que é um padre muito alegre, carinhoso, afectuoso e tem muito jeito de lidar com os jovens. É daqueles padres bons e que agem com equilíbrio e coerência com os princípios cristãos.

O padre, por sua vez, deu-lhe os conselhos cristãos, que recomendam não matar, não vingar e não praticar o "olho por olho, dente por dente", do Velho Testamento.

Veja o que o garoto, de apenas 12 anos, disse para o padre, na presença da sua mãe e de uma tia:

- “Padre Bruno, eu aceito os seus conselhos, mas vou praticá-los do mesmo jeito que a igreja pratica. Fazer de um jeito na teoria e de outro na prática, assim como a igreja fez, ensinando a não matar, mas tendo matado milhares de pessoas na inquisição. Eu vou matar, sim, o Ricardinho. Depois eu peço perdão a Deus”.

Gente. Não se faz mais crianças como antigamente! Os meninos de hoje estão vindo com as cabeças diferentes.

O bandido Ricardinho está pedindo para ser morto, assim como muitas e muitas pessoas adoram humilhar as outras, perseguir, caluniar, difamar, boicotar, sabotar, chantagear e violentar de todas as formas.

Sei do caso de uma moça, negra, empregada doméstica de uma residência, que por mais de um ano vinha sendo humilhada, explorada, agredida e violentada, como uma escrava, pelos seus patrões e todos os membros da casa. Chegou, inclusive, a ser estuprada pelo patrão e o seu filho adolescente, ao mesmo tempo, ameaçada de morte, caso contasse para alguém.

Em um determinado momento, ela simplesmente colocou veneno na comida da família.

É certo isto? Claro que não. Mas quem é que consegue ser tão santo, tão equilibrado espiritualmente e ter um nível tão elevado de tolerância para aguentar tanta pressão, tanta humilhação, tanta perseguição e tanta perversidade?

É o que acontece no mundo, há muitos séculos e milénios, e ninguém se dispõe a abordar o assunto com este nível de profundidade.

Do mesmo jeito que o garoto de 12 anos deixou o padre Bruno sem palavras, quando questionou a igreja pelo fato de ensinar uma coisa na teoria e fazer outra na prática, questionemos a polícia, os políticos e a justiça:

Que moral tem a polícia para prender alguém que faz "justiça com as próprias mãos", se ela também mata pessoas inocentes? Claro que não são todos os policiais, mas muitos matam, sim.

Que moral tem a justiça para condenar alguém que faz "justiça com as próprias mãos", se ela também é corrupta, é venável, é sem vergonha e descarada, porque só actua para beneficiar quem tem dinheiro, possui em seus quadros inúmeros magistrados mercenários que não pensam duas vezes em assinar um habeas corpus para atender aos interesses criminosos de bandidos ricos? É claro que não são todos os magistrados que agem assim, mas muitos agem, sim.

Que moral tem a Lei de um país, que é feita por senadores e deputados também safados, ladrões, descarados e até criminosos, que legislam conforme os interesses dos poderosos, como é o casos de leis feitas, às pressas, para beneficiar os bancos, que chegam a agredir a própria Constituição?

Que moral tem a hipócrita Comissão dos Direitos Humanos, se ela só se faz presente para defender bandidos e nunca aparece para defender os cidadãos de bem, que também são violentados?

Fazer justiça com as próprias mãos é um ato não recomendável, sim, mas algo precisa ficar bem claro e todos têm que ter consciência disto:

Muitos o fazem pela revolta de vêem uma polícia, uma justiça, uma lei e uma acção governamental totalmente falida, hipócrita, demagoga, cínica, mau carácter, parcial e praticada em dois pesos e duas medidas.

Muitos o fazem por não suportarem insistentes pressões, chantagens e tanta violência advinda dos cruéis e perversos.

Você comeria uma barata? Claro que não. Mas se tivesse num cativeiro de sequestro, com um revólver apontado para a cabeça e o bandido lhe dissesse: - “Só há uma alternativa de liberdade, para voltar ao convívio dos seus familiares: comer esta barata”. Comeria ou não?

A pressão e a tortura, em níveis elevados, levam a pessoa à loucura e afectam a lucidez.

Tornam-se necessárias acções enérgicas de todos os segmentos da sociedade para dar um basta no mau caratismo, nas suas diversificadas formas de acção. A sociedade tem que pressionar para que mude a vergonhosa legislação brasileira; precisa denunciar os políticos safados que, explicitamente, ficam milionários e donos de tudo em suas cidades e estados, na cara de todo mundo, ninguém fala nada e termina por reelegê-los no próximo pleito eleitoral; precisa denunciar delegados de polícia, juízes e desembargadores safados que envergonham a magistratura.

Paremos com essa mania de achar que nada tem mais jeito, que não adianta reclamar porque nada muda. Muda sim!!!!

O brasileiro precisa deixar de ser idiota e parar com essa mania de ir na onda de achar que o Protógenes é que é o bandido e que é normal um ministro do Supremo Tribunal Federal agir como um simples juiz para manter solto um bandido milionário, revogando a decisão de outro juiz.

O Brasil tem jeito, sim, basta o povo querer, basta a imprensa se unir, basta as instituições sérias e de vergonha na cara se unirem em acções enérgicas, imediatamente.

Se o Alamar está abrindo a boca, por esta tribuna de Internet, falando para pouco mais de cem mil pessoas, abra a boca você também, porque aí a mensagem vai para milhões.

Repensemos, portanto, esta questão da “justiça com as próprias mãos”, porque ela só acontece porque o país é descarado e não tem moral para botar na cadeia os “Ricardinhos” da vida.

Contra o mau caratismo, o falso moralismo e a hipocrisia!!! Que viva a dignidade, a seriedade, a decência e a vergonha na cara.



Indignadamente.



Alamar Régis Carvalho - Analista de Sistemas, Escritor e actor.

Criador da ideia do Partido Vergonha na Cara - www.partidovergonhanacara.com
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