Habituei-me a vê-los, de coletes reflectores verde fluorescente, logo nos primeiros dias de Maio, palmilhando as estradas em enormes grupos, frequentemente com uma carrinha de apoio. São para mim uma visão ainda relativamente recente. Não era costume haver grupos organizados de peregrinos de Fátima, nem usavam estes coletes. Havia pequenos grupos, de meia dúzia de pessoas no máximo, agarrados cada um a sua vara, dormindo onde calhava. Num palheiro, numa garagem cedida por alguma alma bondosa, ao relento. Caminhando e rezando.Ontem como hoje, gosto de os ver. Vão em grupos alegres, conversando, rindo, despontam a cada curva da estrada, agora encastoada na paisagem maravilhosa da Primavera da Estremadura. Sobre os campos cultivados de batatas, de vinha, de pomar, tudo no auge da explosão de fertilidade primaveril, os pássaros volteiam e afadigam-se em levar comida para as crias que aguardam no ninho, exigentes e barulhentas.
Flores silvestres, de mais cores que a nossa imaginação pode conceber, abrem-se agora e revelam-se mais esplendorosas que a mais esplendorosa das coroas que algum monarca já teve. Em grandes manchas, forram as encostas que pendem suavemente até à beira das estradas e dos caminhos. Fogachos de luz e cor, as borboletas dão o toque final neste cenário de alegria e paz.
Fala-se de caminhos pedestres, longe do movimento assustador das estradas principais, que estarão a ser criados para que estas pessoas possam viajar com mais segurança e mais paz. Que assim seja, porque em certos troços, a tráfego é assustador para quem se desloca a pé.
Grupos de peregrinos descansam, bebem e comem à sombra dos choupos, de folhagem agitada pela brisa. Alguns passam pelas brasas. Ontem como hoje, o que me custa é ver alguns no limite das suas forças, coxeando, de face transfigurada pelo sofrimento físico, esgotados. Ontem como hoje, abro os braços e pergunto:
- Para quê tanto sofrimento, meus irmãos? Deus não há-querer isso!...
Não entendem a minha pergunta, no estado em que estão. Tomam-na por mais um grito de encorajamento e esboçam um aceno de agradecimento. Não há nada a fazer...
Já fui católico, e quando o era, a minha pergunta era a mesma. E as recomendações da Igreja Católica vão nesse sentido, também. Os que não estão fisicamente aptos, que não tenham receio de desagradar a Deus, e cumpram a promessa indo de comboio, de autocarro, de automóvel. Mas talvez a gratidão e a fé destas pessoas lhes exija mais. Resta-me orar por eles. Que resistam o melhor possível ao esforço desumano que se impuseram.
Os antropólogos identificam a necessidade humana de peregrinar como uma herança dos tempos muito remotos em que se peregrinava em homenagem às deusas mães, que representavam a fertilidade, e a quem se ia pedir boas colheitas ou boas caçadas. Estes peregrinos vão ao encontro da mãe de Jesus de Nazaré, que consideram também sua mãe. Palmilham as estradas e peregrinam interiormente, como me diz uma amiga que anualmente se junta a um grupo que todos os dias, após o trabalho, se junta para cumprir um troço do caminho até Fátima. Voltam ao escurecer e no dia seguinte uma carrinha leva-os ao ponto onde ficaram. Não vão para pagar nenhuma promessa. Vão pelo gosto de viajar em grupo, unidos por um laço espiritual que os renova e os melhora.
Estes peregrinos, todos os peregrinos, caminham para o aconchego anual no regaço maternal de Maria. Não faço ideia do que exactamente terá acontecido com os três pastorinhos, há muitos anos. Não sei se terá sido a mãe de Jesus que se mostrou. Antes de quaisquer considerações ou questionamentos legítimos de quem gosta de estudar e entender, respeito cada uma destas pessoas como respeito as que vão a Meca, as que demandam as margens do Ganges, as que cruzam os picos do Tibete.
Na noite de 12 de Maio o santuário católico de Fátima enche-se de vencedores da distância, do cansaço, dos rigores da caminhada. Cada velinha, naquele mar de pontinhos luminosos, é um mundo, é um ser humano que ri, que chora, que ama, que sofre, que espera, que pede e que agradece. Ontem católico, hoje espírita, continuo a remeter-me a um silencioso respeito por cada uma daquelas estrelinhas que brilham na noite de Fátima. Como os de Meca, os do Ganges ou os do Tibete, são meus irmãos. E já lhes sinto a falta.
(Dedicado a Mª de Carmo e Marido, católicos e amigos do coração)

2 comentários:
19.5.09
Que bela homenagem e que orgulhosos se devem sentir essas pessoas por o terem como amigo. Que bem que escreve, André! E a sensibilidade emana do texto, peça poética de uma bela literatura.
Obrigada pelo momento.
Um abraço
Joana
21.5.09
Obrigado :)
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