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Recuo Evolutivo e Espiritismo

Um conceito muito caro ao Espiritismo é o de recuo evolutivo. Com todas as grandes Ideias, verificamos, a princípio, grande resistência, depois aceitação e entusiasmo generalizados, e depois uma espécie de aculturação aos costumes antigos. A nova Ideia ergue-se, galvaniza as multidões, para depois se deformar consideravelmente. os hábitos antigos não se perdem facilmente.

No campo da Espiritualidade, que é o que nos interessa, foi assim com Moisés e o Judaísmo, doutrina monoteísta pioneira. A ideia do Deus Único custou a entrar na cabeça de um povo rude, de pastores, fortemente influenciado pela cultura pagã da sua época e sobretudo pelos anos de cativeiro no Egipto politeísta, onde os Judeus serviram de escravos nas obras colossais da Civilização dos Faraós.

Moisés sobe ao Sinai para receber os Mandamentos. A fé do povo vacila, na ausência do líder. Enquanto a mediunidade de Moisés recebia o código sublime que ainda hoje é um tratado simples mas sublime de Moral, em 10 alíneas, o povo derrete as jóias e forja um bezerro de ouro, ao qual presta culto.

O Judaísmo não podia prescindir da materialização dos sacrifícios e da segurança dos símbolos. A Arca da Aliança, o desenho do Templo, as prescrições detalhadas dos sacrifícios e das actividades dos sacerdotes, o rígido código de conduta do povo, estavam ao nível do entendimento vigente, ainda "verde" para abarcar o conceito de um Deus que se apresentava como "Aquele que É".

João Baptista, 18 séculos mais tarde, era o Profeta excêntrico do deserto, que apelava ao Amor, em detrimento dos preceitos religiosos, que relegava para segundo plano. Jesus de Nazaré, o rebelde tranquilo, encarna na Terra com a missão de substituir a visão do Deus Único, que, de chefe político e guerreiro, passa a ser visto como o Deus de Amor.

"Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos". Toda a lei e todos os Profetas aí contidos. Quem era esse filho de carpinteiro que arrastava multidões e a quem chamavam rabi, sem que este tivesse recebido insígnias da instituição religiosa judaica? jesus pregava, e nem todos o entendiam. Eram seus companheiros homens simples do povo, pescadores, cobradores de impostos que abdicavam da fortuna imoralmente ganha para seguirem um homem que não tinha onde deitar a cabeça. O jovem de Nazaré pregava, e os que não o entendiam chamavam sua mãe, para que o fosse buscar. Achavam que era um louco.

Vítima do despeito dos chefes religiosos, vítima da impaciência dos que esperavam um chefe político para expulsar os Romanos, Jesus é vítima de um julgamento e de uma condenação infames. Quatro séculos transcorreram em que os cristãos mantiveram acesa a chama dos ensinamentos sublimes do Mestre. Atirados para as arenas, perseguidos, vítimas da injustiça e da incompreensão, os Primeiros Cristãos não vacilavam na sua fé, Estêvão lapidado por fundamentalistas religiosos que viam nos cristãos uma seita perigosa, aceita o sacrifício com resignação e fé.

O Cristianismo, de doutrina universalista, de Espiritualidade pura e simples, converte-se entretanto, por obra das conveniências políticas, em religião oficial do Império Romano. Erguem-se templos e altares, é criado o sacerdócio, os rituais, e as cisões entre Igrejas instituídas originam as primeiras guerras e perseguições entre cristãos. A Humanidade não estava madura ainda para a mensagem de Jesus ser vivida em plenitude. O Cristianismo toma ares de religião, bebendo claramente no Judaísmo a organização hierárquica. O panteão dos deuses pagãos dos Romanos é tomado pelos santos. Os deuses pagãos presidiam aos fenómenos da Natureza. Passam a ocupar esse lugar os santos. É recuo evolutivo, mais uma vez. Os ciclos da reencarnação explicam em parte este fenómeno. Como explicam, segundo alguns Espíritos, a queda do Império Romano, nascido com ideais nobres, e que acaba por sucumbir no vício e na corrupção, com exageros e barbárie indizíveis.

Jesus prometeu o Consolador. Na concepção Espírita, o advento do Espírito de Verdade corresponde ao cumprimento dessa promessa. Não é o Espiritismo o Consolador Prometido. O Espiritismo é uma doutrina que foi criada em consequência dessa Revelação. Se o Espiritismo souber transmitir essa mensagem à Humanidade, bom serviço terá feito. Nem é preciso referir que o espírita não se acha mais perto da Verdade por ser espírita. Irmãos de Jesus são os que fazem a vontade de Deus, conforme o Mestre deixou bem claro.

O Espiritismo não é imune ao recuo evolutivo, como o Judaísmo e o Cristianismo não o foram. Na sequência do que vimos referindo, a nossa doutrina, nascida na capital do mundo Novecentista, a França; por ter Jesus como modelo e Guia; e pela sua aceitação nos países de Língua Latina - Europa meridional e América do Sul, mundo católico - acaba por sofrer a aculturação da Igreja Católica. O igrejismo no Espiritismo é compreensível, mas não é desejável.

O igrejismo espírita é compreensível, mas deve ser contrariado. Quando alguém apresenta esta ideia, não raro é acusado de pretender introduzir "novidades". Quem foi habituado a frequentar um centro espírita como se fora uma igreja, numa religião tradicional, pensa, realmente que o Espiritismo é mais uma igreja e uma religião tradicional.
"Novidade" foi essa deriva religiosa. Prioridade deve ser restaurar, onde for necessário, a vocação original da doutrina, como Kardec a definiu. A fonte para tal? A Codificação.
Uma religião tradicional tem sacerdotes, hierarquias, rituais, etc., mas tem sobretudo dogmas inquestionáveis e exige uma fidelidade que roça a dependência. Já o Espiritismo apela ao livre exame, fé raciocinada e liberdade de consciência. Livre-arbítrio e auto-ajuda, em vez de sujeição a quem pense por nós. E é por isto que é necessário desigrejificar o Espiritismo.

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2 comentários:

Anónimo

16.5.09

Só retificando, a primeira forma de monoteísmo foi encontrado no Egito governado pelo faraó Akhenaton, o monoteísmo propriamente judaico surgiu apena por volta de 700 A.C. com o contato que os judeus tiveram com o Zoroastrismo quando estiveram cativos na Bebilônia pelos persas.

Anónimo

5.1.12

Excelente artigo!
Comecei a frequentar há uma semana um Centro Espírita pela primeira vez. Aprecio muitíssimo o ambiente livre de sectarismos dogmáticos, sem hierarquias, lideranças, etc. Todos são irmãos e os mais experientes passam informações para os novatos sem tom impositivo. O importante é o desenvolvimento interior, do caráter, do Espírito e apenas a própria pessoa pode avaliar o quanto está crescendo. Penso que o viés religioso "igrejista" do Espiritismo ocorre sobretudo com o culto à personalidades como as dos médiuns como Chico Xavier e Divaldo Franco, entre outros. Eles são encarados por muitos como "grandes espíritas" e não apenas como Espíritas. Ninguém deveria depender das obras mediúnicas dessas pessoas como se elas fossem um tipo de sacerdócio espírita. E sequer parece ser o objetivo desses médiuns. Cada um deve pensar em seu próprio processo evolutivo, sem depender de ninguém, sem se espelhar em ninguém. Pode aprender com eles mas jamais cultuá-los.

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