
Pictures at an Exibition
ou
Cromos da Minha Caderneta
ou
Muita Luz, Muita Luz!
por A.A. (Autor Anónimo)
Os Espirilampos
Mais um congresso espírita mundial, e eu mais uma vez sem dinheiro para apanhar um avião, pagar um hotel, e assistir in loco. Combinámos assistir pela tv espírita da Internet, num local de convívio de portugueses e brasileiros, em "comunhão fraterna". Tudo no Espiritismo é redundantemente "fraterno". O convívio é fraterno, o atendimento é fraterno, a caridade é fraterna!
O fru-fru habitual dos grandes acontecimentos, as exclamações dos amigos que há longo tempo não se viam, e a aristocracia espírita a marcar o ritmo dos acontecimentos. "Fulano é espírita de berço!". "Sicrano conheceu pessoalmente Beltrano!". Como em qualquer outro círculo da actividade humana, ninguém se gaba de ter conhecido o Zé Lelé, o idiota da aldeia. São em grande número, contudo, os que procuram a sombra dos "grandes". E ninguém vai contrariar alguém que é espírita "de berço". Em caso de dúvida, o "berço" prevalece.
Começa a emissão e as exclamações dividem-se entre a alegria dos rapazes que deixam escapar um "Eita trem bão!" e as contorções do rosto da turminha do "Muita luz!", que se mostra incomodada com a populaça e resolve contra-atacar:
- "Orai e vigiai, orai e vigiai!" - diz uma
- "Muita luz, muita luz! Que Deus ilumine os irmãos perturbados!" - diz a outra.
Espírita é simpático, e tem formas de saudação características, que, pessoalmente me encantam. Muita paz, muita luz, tudo de bom, quem é que pode levar a mal? Mas o proverbial "Muita Luz!", repetido como estribilho de virtude e defesa contra os "profanadores" da beatitude espírita, soa de um modo peculiar...
Espirilampo é espírita que vive a repetir "muita luz" por tudo e por nada. Faz lembrar um pirilampo, de tanto que acende a "luz".
A turminha to “trem bão” já se calou há muito. Foi apenas a alegria de estar a assistir a um evento tão especial que os motivou a manifestarem-se. Mas a turminha do "Muita Luz!" continua na sua "corrente de oração". A pieguice religiosa não tolera a alegria simples, de modo que para marcar melhor a posição, há uma menina que irrompe em lágrimas.
- "Este irmão fala como um Anjo! (snif, snif) É Deus que fala pela sua boca!" - explica a nossa espirilampa.
- "Tenha dó, Lucinha!" - replica um dos rapazes.
Estava dado o mote para a batalha religiosa da noite. O grupo irrompe em recriminações à "descaridade" do rapaz. O grito de guerra habitual ressoa (Muita Luz! Muita Luz! Orai e Vigiai! Orai e Vigiai!) e as "orações do grupo" são atiradas furiosamente à cara dos pobres rapazes que queriam assistir ao Congresso.
- "Tenha dó, Lucinha! Isso é descontrolo emocional!" - justifica-se o mesmo rapaz.
Ao grupinho virtuoso só faltam os véus e os terços, e a arengada só vai decrescendo porque, prudentemente, os rapazes optam por não replicar mais.
No final, um dos do grupo que foi ali para ouvir as intervenções dos congressistas, não deixa de atirar com malícia, para as moças que fazem questão de assinalar o encerramento dos trabalhos com mais choros e fungadelas:
- "Vai ter showzinho outra vez, é?".
Um serão agradável... Eita trem bão, sô!

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