Spiga

Culpa? Qual Culpa?

Esta foto foi hoje publicada no Público online, com a seguinte legenda: "Envergando o traje tradicional dos penitentes, uma criança prepara-se para participar na Procissão das Velas que acontece durante a Semana Santa na Cidade de Goiás, Brasil. Durante esta semana celebram-se, no Brasil, centenas de procissões de Páscoa que atraem milhares de visitantes."

E fez-me lembrar a minha infância e o dramatismo da Quaresma e da Sexta-Feira-Santa. O meu avô, habitualmente alegre e jovial, envergava uma indumentária semelhante à da foto, saía para a Procissão. O barulhos das matracas, a luz das velas, os encapuçados, e, acima de tudo, a figura do Senhor dos Passos, tiravam-me o sono por muitas noites e povoavam os meus pesadelos.

O Jesus amigo, do meu catecismo, que eu e os meus colegas adorávamos colorir a lápis de cor, sob a supervisão da catequista, em agradáveis tardes de sábado, aparecia agora no andor, suando sangue, de expressão dolorosa. E todo o ambiente era trágico. Porquê?

A visão tétrica da procissão da Paixão perturbava os meus sentidos de criança. Como o ênfase do sofrimento de Jesus questionou a minha razão de jovem adulto. E como eu, muitos terão sido os que sentiram abalados os fundamentos da sua fé. A ideia de que somos todos pessoalmente responsáveis pelo sofrimento de Jesus, para um espírito que questiona, começa a ser mais uma de muitas contradições que se vão somando e esbatendo cada vez mais a imagem do Jesus amigo e sorridente do catecismo.


Como posso ser responsável pelo suplício de Jesus, se nada de mal fiz? O que vem a ser o "pecado original"? O que acontece a quem não vê esse "pecado" removido pela cerimónia do Baptismo? Porque é que Jesus permite que haja pessoas a ir para o Inferno?


Eis algumas das muitas questões sem resposta consistente, que fazem abalar a fé de muito boa gente. No fundo do coração, fica sempre, contudo, a esperança. E a convicção de que jesus há-de ser mais e melhor do que alguém que nos condena sem remissão se não cumprirmos certos rituais e sacrifícios.


No meu caso foi o Espiritismo a chave para a compreensão madura da mensagem de Jesus. É na mensagem que o Espiritismo põe a tónica, e não no suplício. Muito menos na culpa. Jesus teria a mesma importância, mesmo que não tivesse sido crucificado. Mas em nada se distinguiria de tantas outras vítimas de erros judiciários, se não fosse a sua mensagem refulgente.


É esse o Jesus do Espiritismo. O mestre e amigo que dá o exemplo, e não o que nos faz sentir uma culpa irracional.

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