Hoje é dia 25 de Abril de 2009. A Revolução que devolveu a Liberdade a Portugal faz 35 anos. Há quem celebre, há quem não celebre. Há quem faça um balanço positivo da Revolução e há quem faça um balanço negativo. São questões que dizem respeito às ideias políticas de cada um, e na Política o Espiritismo não se mete.
Uma coisa é consensual: com a Revolução, a liberdade de expressão, de associação, de pensamento, chegaram a todo o lado.
A todo o lado?... Não; para o Espiritismo, o 25 de Abril ainda não chegou. No início do século XX, a actividade espírita era intensa em Portugal. Com a implantação da República, a perseguição a todas as formas de pensamento religioso foi intensa. Mais tarde, o Estado Novo e António de Oliveira Salazar, Presidente do Concelho de Ministros, proibiram a actividade espírita em Portugal e confiscaram os bens e a sede da Federação Espírita Portuguesa.
35 anos depois da Revolução, os bens e a sede continuam por devolver.
E não é só isso. As décadas de censura e clandestinidade deixaram marcas na opinião pública difíceis de apagar.
Divaldo Franco vinha Portugal durante essa época de perseguição, fazia palestras nas aldeias à luz o gasómetro, em cima de reboques de tractor, e chegou a ter que fugir da PIDE, a polícia política, juntamente com os companheiros espíritas portugueses.
No Portugal democrático, a chaga persiste. As iniciativas espíritas (palestras, congressos, jornadas médicas, etc.) são sempre divulgadas junto da Comunicação Social, mas esta nunca aparece, a não ser quando lhe "cheira" a fenómeno.
Nos jornais, nas televisões, nas rádios, o nome do Espiritismo é usado para designar coisas que nada têm a ver com Espiritismo - fraudes, burlas, seitas, religiões, rituais, crendices, etc.. Os pedidos de esclarecimento seguem, mas só muito raramente são respondidos. A Comunicação Social só muito raramente tem uma actuação isenta e equitativa para com a doutrina espírita.
Continuamos, pois, à espera de que o 25 de Abril chegue para nós.


2 comentários:
27.4.09
Prezado Senhor
Gostaria que vocês informassem melhor os leitores sobre a perseguição aos espiritas em Portugal antes de 1974: os motivos, as formas, as consequências. Existe algum livro que informe sobre o tema?
De qualquer forma, o 25 de Abril trouxe aos espiritas, como a muitos outros, um bem inestimável: a liberdade de reunião e de expressão.
27.4.09
Caro Anónimo,
Em Portugal, como em Espanha, houve ditaduras durante o século XX, com Salazar e Franco, respectivamente. Em ambos os países a religião oficial era o Catolicismo, que continua a manter os livros espíritas no Índex de Livros Proibidos e a proibir os seus fiéis de frequentarem centros espíritas, de lerem lvros espíritas, ou de, de qualquer forma, tomarem conhecimento com esta filosofia.
Nada temos contra esta posição, que a Igreja Católica tem todo o direito de tomar, mas decerto sabe que durante o Estado Novo, todas as formas de pensamento livre eram proibidas e perseguidas. No campo das ideias sobre Deus, a opinião oficial era a da igreja Católica, e tudo o resto tinha dificuldades em sobreviver:
Há um episódio célebre, relativo à Fé Bahai, em que a correspondência da pacatos cidadãos foi violada e estes interrogados pela PIDE por pertencerem a uma das filosofias proibidas, a Fé Bahai, quando afinal as cartas comentavam as obras do célebre compositor musical Bach!
O Espiritismo nada tem a ver com a Fé Bahai, mas este episódio ilustra o que era a intolerância e o obscurantismo vigentes.
Para além do aspecto da exclusividade católica, havia o medo do regime em relação a todas as formas de pensar que pudessem eventualmente contrariar a hegemonia ideológica vigente: "O Estado Novo é infalível; a Política é para os políticos, orgulhosamente sós; Angola é nossa; etc..).
Por esse motivo, o Espiritismo, que apela ao livre pensamento, à liberdade de consciência, à igualdade entre todos os homens, era temido e perseguido pelo regime.
Salazar mandou fechar todos os centros, apreender os bens da Federação Espírita Portuguesa e proibiu toda a actividade dos espíritas. As reuniões passaram a ser clandestinas,e, como relatei, a PIDE muitas vezes aparecia de improviso.
Divaldo Franco, palestrante e médium brasileiro, esteve também em Angola, nessa altura, a divulgar esta filosofia que apela à Paz e à Tolerância.
A Federação Espírita Portuguesa tem os seus arquivos abertos a toda a pesquisa que se pretenda fazer sobre isto, e seria, de facto, uma excelente ideia escrever-se um livro, ainda que faça parte da nossa filosofia o princípio de "não destacar o mal".
O actual presidente da F.E.P., Sr. Arnaldo Costeira, foi, aliás, um dos capitães revoltosos que levaram a cabo a operação de 25.4.74.
O 25 de Abril tirou-nos, a nós e a outros, da clandestinidade, é certo. Contudo, a devolução da sede e dos bens da Federação Espírita Portuguesa, seria um acto de elementar justiça, que, não se tendo ainda realizado, nos mantém, de certa forma, numa condição de inferioridade de direitos.
Na Imprensa, o longo período de obscurantismo provocado pela Ditadura, continua a fazer-se sentir, sob a forma de uma barragem sistemática da divulgação das nossas iniciativas e do nosso direito de resposta.
Não temos pretensões de nos propagandearmos, note. Divulgamos os nossos eventos porque é um direito nosso, porque é bom dar a conhecer as coisas a potenciais interessados, e porque queremos deixar bem patente que não somos nenhuma sociedade secreta, como por exemplo a Maçonaria, cujas actividades se realizam em segredo. As nossas actividades são de portas abertas, como convém a uma sociedade livre e democrática.
Nota: a nossa reivindicação de devolução da sede e dos bens da Federação é uma questão de princípio, pelo simbolismo do acto, pois não temos fins lucrativos. Pelo contrário: o Espiritismo desaprova totalmente o comércio da espiritualidade e a charlatanaria. TODOS os nossos serviços são gratuitos e sem compromissos.
Abraço amigo,
André Afonso
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