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Mais Cedo ou Mais Tarde: O Espiritismo

Também eu ouvi, com atenção extrema, a entrevista a José Lucas, ontem conduzida por João Paulo Meneses no programa Mais Cedo ou Mais Tarde da TSF.
Em conversa fluida, José Lucas procurou explicar o que é ser espírita e o surgimento do Espiritismo enquanto doutrina, desconstruiu a informação errada veiculada pelo ocultista Zetor, falou de Allan Kardec, dos conceitos de espírito e mediunidade (também a propósito da reportagem com Florêncio Anton sobre psicopictografia), posicionou a impermeabildade que ainda existe em Portugal na herança da perseguição efectuada durante o Estado Novo.

Devido à pressão do tempo e à complexidade inerente à gestão do discurso oral, assuntos houve que não foram suficientemente desenvolvidos e, assim, esclarecidos. Vejamos alguns:

1º: À primeira questão, "Como é que alguém descobre que é espírita?", respondeu José Lucas que espírita é o adepto da Doutrina Espírita. Da insistência do entrevistador ao questionar se se é espírita só por se ser adepto do Espiritismo ou se é preciso algo mais do que isso, José Lucas inferiu a confusão que comummente se cria entre os conceitos de espírita e médium e que procurou dilucidar de imediato (sobre esta questão aconselho este texto do Francisco). A conversa seguiu pelas veredas da mediunidade e, embora já no fim se tenha enfatizado a ausência de rituais e hierarquias, pergunto-me se os ouvintes terão estabelecido a relação deste pormenor com o inicial e que se me afigura de suma importância, isto é, porque "não é mais uma seita nem é mais uma religião" (palavras de J. Lucas), o Espiritismo dispensa a celebração quaisquer cerimónias de iniciação ou passagem ou purificação como o baptismo o é para as igrejas cristãs, como o chahada o é para os muçulmanos, como o shuddhi karma o é para o hinduísmo processual. Acresça-se que, para se ser espírita, não são necessários requerimentos, autorizações, certificados, declarações, nem tão pouco oferendas, dádivas, pecúnias ou a assiduidade meramente corporal nas mais diversas actividades. Ser-se espírita resulta de um processo interior que harmoniza, conscientemente, princípios doutrinários e prática de vida. Um espírita não se afirma na adversativa ("Eu sou espírita, mas..."). Não faz sentido. Ou é ou não é.

2º - No que ao conceito de Mediunidade diz respeito, fiquei com a nítida sensação de que entrevistador e entrevistado estariam a atribuir significados diferentes a um mesmo significante. Como José Lucas explicou, todos nós, seres humanos, somos detentores de mediunidade, ou seja, médiuns. Mas quando avançou com a afirmação de que nem todos os médiuns são espíritas como nem todos os espíritas são médiuns, sem que tenha tido a oportunidade de se explicar devidamente, algo ficou confuso. Na verdade, todos nós possuímos capacidade mediúnica, isto é, a faculdade que permite a comunicação entre o plano espiritual e o plano material. No entanto, atribui-se o nome de médium a quem detém uma mediunidade mais apurada, conseguindo estabelecer contactos significativos com os irmãos desencarnados. Nas instituições espíritas, a prática da mediunidade é regrada, discreta e gratuita, visando o estudo, a instrução e o auxílio. Sobre a as reuniões mediúnicas na casa espírita, sugiro a leitura da confissão do André.

3º - A propósito das sessões públicas de psicopictografia de Florêncio Anton, João Paulo Meneses alertou para a discrepância entre essa realidade e a declaração de J. Lucas quanto à discrição, à privacidade, à fuga do fenómeno enquanto espectáculo e à rejeição de entrada de dinheiros. Confusão de premissas, na medida em que a) as sessões são absolutamente livres; b) a receita das telas vendidas, na maioria dos casos por sorteio (só compra quem quer), reverte inteiramente a favor de obras de assistência social; c) a mediunidade ali demonstrada serve o propósito de alerta para a realidade do mundo espiritual.

4º - Quanto à permeabilidade ao Espiritismo em terras lusas, morosa devido aos preconceitos também inculcados durante o Estado Novo, relembro a vantagem da língua que nos une aos irmãos além-Atlântico, pois, apesar de ter nascido em França, actualmente o Espiritismo tem maior receptividade no Brasil.

Tendo em conta a idoneidade da rádio em questão, foi uma excelente oportunidade para se conversar sobre o que o Espiritismo efectivamente é. Agradecemos o tempo que tão prontamente nos concedeu o jornalista João Paulo Meneses. Quanto ao que ficou por falar sobre a Doutrina Espírita, procuraremos, neste blogue, transformar o tempo em palavra escrita e alongarmo-nos no esclarecimento de dúvidas, na dilucidação de confusões, no combate à má-fé, ao estigma e ao preconceito.

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4 comentários:

Catsone

5.3.09

Parabéns pelo texto.
Como disse num post anterior, o Sr. José Lucas fez uma descrição organizada e clara sobre o que é a doutrina. Apesar do tempo disponibilizado pela TSF, é difícil manter um diálogo quando se é constantemente interrompido por blocos de notícias e publicidade, bem como, pela frase "Tem que responder às minhas perguntas", proferida logo no início da entrevista, quando José Lucas se preparava para fazer uma introdução mais pormenorizada do Espiritismo.
Concordo com as suas apreciações, mas, como você mesmo diz, foi uma óptima oportunidade para a divulgação da doutrina espírita.

Denise

5.3.09

Obrigada Catsone.
Algumas observações:
1ª: Pode ouvir a emissão sem interrupções em http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=1016877&audio_id=1158977
2ª: Parece-me mais que natural que numa entrevista se sigam as regras do entrevistador que é quem conduz e regula o diálogo. De qualquer forma, o Lucas conseguiu explicar, em linhas gerais, o que é o Espiritismo e essa é uma oportunidade que nós só podemos agradecer.

Catsone

5.3.09

Concordo plenamente.
Ouvi a entrevista completa no site da TSF. Nós temos facilidade em aceder à entrevista completa, sem interrupções, referia-me aos ouvintes que, com facilidade, mudam de estação de rádio se o programa estiver sempre a ser interrompido.
Obviamente que o entrevistado sujeita-se às regras do entrevistador,só queria frisar que por vezes isso amputa um pouco a informação.
Abraço e boa continuação.

Denise

5.3.09

Certo. E tb pode atrapalhar o raciocínio de quem fala, quebrando o fio condutor. Ou,pelo contrário, permitir que a pessoa recupere o fôlego e reorganize e reestruture as ideias.
Um abraço e regresse sempre.

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