Spiga

Elogio do Cascão

Sou um leitor ávido da Turma da Mônica. Desde os 8 anos, pelas minhas contas. Recordo-me exactamente da primeira vez que me veio parar às mãos uma revistinha da Mónica: eu e a minha mãe comprámos um bilhete de camioneta para Lisboa, a viagem prometia durar umas boas duas horas, e, timidamente, mostrei interesse por uma revista cuja capa me chamara a atenção. Nessa altura reinavam as revistas de Walt Disney e as dos super-heróis da Ebal, além de que não era todos os dias que podíamos comprar uma revista de banda desenhada. A minha escolha, foi, por isso, um tanto corajosa.

Não me arrependi. Fiquei imediatamente cativado por aquele mundo de picolés (gelados, em Portugal), sorvetes, bolinhas de gude (berlindes, em Portugal), carrinhos de rolimã (de rolamentos, em Portugal) e futebol de rua. Os personagens eram do mais engraçado que se possa imaginar. O Cascão, que adorava brincar na lixeira, era o mais excêntrico, juntamente com a Magali, a menina de apetite insaciável. Nessa viagem, fiquei hipnotizado por uma história de uma luta de almofadas, cujas penas se soltavam e acabavam por tomar conta de todo o cenário!

Maurício de Sousa sabe, como muito poucos, captar a sensação de liberdade e de fantasia do quotidiano infantil. Que eu também tive a felicidade de poder viver em plenitude. Brincar na rua, nos quintais dos amigos, construir carrinhos de rolamentos, jogar futebol na rua, brincar aos cientistas, brincar aos piratas, brincar aos espadachins. Brincar!

Brincar não era uma actividade muito bem vista, quando eu era pequeno. Havia bastante ingenuidade da parte dos pais e dos adultos em geral, se não insensibilidade. Não se podia jogar futebol na rua, oficialmente. E a Guarda levava as bolas que apanhava. Para muitos pais, o velho e lamentável provérbio fazia todo o sentido: "O trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco".

Uma tarde de brincadeira, pagava-se, às vezes, bastante caro. Um, cujos pais tinham um lugar de fruta e verduras, acabava a tarde com umas valentes palmadas, porque era suposto que ao vir da escola os fosse ajudar. Outro levava porque tinha sujado a roupa e esfolado os sapatos. Outro porque isto, outro porque aquilo, poucos se livravam de um raspanete.

Brincar era uma actividade um pouco clandestina. Mas conseguia-se brincar, com alguma criatividade e alguma coragem para enfrentar as consequências... Hoje, muitos anos volvidos, deixou de ser socialmente aceitável e bem visto que as crianças trabalhem e que levem pancada. Mas continua a ser difícil brincar. As crianças têm uma agenda carregada, de executivos de palmo e meio. É ballet, natação, dança, karate, teatro, ginástica, hóquei em patins, futebol... Ah, o futebol... que para mim era uma oportunidade de na rua nos imaginarmos Rivelinos, Eusébios, Pelés, e que hoje é uma imposição de muitos pais, para que os filhos venham a ser milionários Ronaldos, Figos, Messis...

Na minha rua, quando jogávamos futebol, brincávamos às selecções. Se éramos o Brasil, jogávamos a fazer tabelinhas. Se éramos a Inglaterra, era correr até à linha e centrar para a cabeça do companheiro. Hoje, os garotos têm treinadores que lhes dizem exactamente o que fazer, levam infiltrações nos joelhos desde pequeninos, são postos de parte se não têm talento suficiente, e não têm oportunidade de ser o Eusébio nem o Pelé, como nós fomos, como até eu fui, apesar de ter pouca queda para a bola.

Os tempos livres, que na minha geração iam desde o nascimento até à entrada para a escola, acabaram. Hoje, as educadoras de infância ensinam a brincar. E parte-se-me o coração ao ver os minúsculos operários, devidamente uniformizados, em pátios sem uma árvore, sem acaso, sem amor, a serem pastoreados por uma educadora a quem se exige que tome conta de umas dezenas de crianças, que vagueiam, apáticas, obedecendo a vozes de comando. Hora de comer, hora de dormir, hora de fazer actividades supervisionadas, planificadas. Brincar tornou-se científico!

Ao fim-de-semana alguns pais ainda levam as crianças para workshops e teatros infantis, tudo muito educativo, tudo muito visando "apetrechar" as crianças de "capacidades" para a dura batalha da sobrevivência, onde não há lugar para a fantasia, onde "só os mais fortes sobrevivem", como não se cansam de repetir os adeptos da nova Darwinmania!

É isto a infância? É isto a vida?

Os "novos pais" são chaffeurs e personal trainers dos filhos. A pretexto de os "prepararem para a vida", insistem em roubar-lhes a infância. O pobre Cascão tem sofrido ataques de pais politicamente correctos, que acham que é anti-higiénico, um herói que não gosta de tomar banho! O Chico Bento também está na lista negra, porque "fala errado". A Magali não é "nutricionalmente correcta", porque come muito!
E não se sabe afinal o que é pior. Se os pais que entregam os filhos à ama televisão e ao amo computador, se os que obsessivamente teimam em suprimir qualquer réstia de humor e de fantasia das proximidades dos seus filhos!

Anuncia-se a obrigatoriedade de entrega das crianças ao Estado, desde tenra idade.
O velho slogan terrorista jacobino de que “As crianças pertencem à mãe até aos cinco anos, e depois pertencem à República até à morte”, ganha vida, de novo. Nos países europeus que nos costumam servir de exemplo, os pais têm redução de horário de trabalho e regalias diversas, pois o acompanhamento dos filhos é um direito respeitado e valorizado. Em Portugal, pensa-se antes em armazenar as crianças enquanto os pais trabalham cada vez mais e ganham cada vez menos!...

Crianças que não brincam, que são sujeitas à disciplina da "escola" desde o berço, que não podem gozar a companhia dos pais, que não podem fazer amigos livremente, tornam-se adolescentes saturados de regras, carentes, e revoltados.
Brincar é ser-se livre. Brincar não é compaginável com folhas de planificação de actividades onde estão previstos conteúdos, objectivos, aprendizagens e competências afectivas, cognitivas e psico-motoras! Dentro desses parâmetros politicamente correctos e medíocres, as histórias da Turma da Mônica perderiam toda a graça. Como esse mundo robotizado que nos querem impingir!

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