Spiga

Da triste reportagem na Happy Woman...


Era revista que eu não conhecia. Na capa da edição deste mês, uma manequim escanzelada e, entre outros destaques, aquilo que despertou a minha atenção: "Espíritos - fomos ter com eles". Rendida à curiosidade, folheio as primeiras páginas, em busca do índice. Ali, escarrapachadinho, com indicação da página, "A viagem - uma jornalista na casa dos espíritos". Quedei-me para confirmar as minhas suspeitas, não fossem elas infundadas, e avancei para a página 90. Touché. Bastaram-me as letras gordas: na reportagem intitulada "A viagem à descoberta do mundo dos espíritos" e assinada por Alexandra Pais, torna-se evidente a confusão entre Espiritismo, práticas mediúnicas e espiritualismo.
Paguei um euro e noventa por três páginas de texto escrito (as restantes vieram por acréscimo)para poder escandalizar-me no sossego da minha privacidade, escrever, depois, a devida contestação que convosco aqui partilho e, ainda, apelar a que todos o façam também.
Envie o seu email para Carla Ramos, a Directora da Happy Woman: carla.ramos@baleskapress.pt

Exma. Sra. Directora da Happy Woman, Carla Ramos,
Foi com surpresa e consternação que, ao ler a reportagem de Alexandra Pais "A viagem - À descoberta do mundo dos espíritos" publicada na vossa edição do corrente mês, constatei a confusão que muitas vezes se estabelece entre os conceitos de Espiritismo, Mediunidade e Espiritualismo.
Embora o texto revele abertura de mente da autora e vise a desmistificação de preconceitos a partir do raciocínio, da lógica e da observação de fenómenos que evidenciam ou, pelo menos indiciam, uma realidade que se estende para além do mundo físico, a verdade é que, ao introduzir a palavra "Espiritismo" no seu texto, Alexandra Pais, porque não devidamente documentada, incorre na apresentação de informação falsa.
Passo a explicar:
1. O Espiritismo é uma doutrina de aspecto tríplice (científico, filosófico e moral) que estuda a origem, a natureza e o destino dos espíritos, bem como as relações existentes entre o plano espiritual e o plano material.
2. O primeiro princípio fundamental da Doutrina Espírita é a existência de Deus, pelo que é incorrecto afirmar que para se ser espírita "Não é preciso acreditar num Deus, numa energia, num Alá (e que) basta saber que a vida não termna na vida".
3. Nem todos os médiuns são espíritas e nem todos os espíritas são médiuns. A mediunidade é uma faculdade do ser humano, independentemente das suas convicções éticas, morais ou religiosas, e que consiste na capacidade em estabelecer comunicação com o mundo espiritual.
4. A mediunidade exercida pelos espíritas é sempre feita na casa espírita e em equipa, regrada pelo estudo contínuo, pela descrição e por propósitos que, ultrapassando a mera curiosidade, se relaciona com pesquisa, auxílio e instrução.
5. Nas instituições espíritas, as reuniões mediúnicas não consistem naquilo a que vulgarmente se chama de "consulta". As reuniões mediúnicas espíritas restringem-se única e exclusivamente à equipa constituida pelos médiuns da instituição. É , sim, disponibilizado, sempre gratuitamente, como é próprio de todas as actividades espíritas, o atendimento fraterno, durante o qual, através do diálogo, as pessoas podem adquirir informação, esclarecimento, orientação, apoio e acompanhamento enquadrado na Doutrina Espírita.
6. Todos nós somos espíritos. No nosso caso, estamos encarnados, isto é, limitados pela contigência do corpo. Mas há, também, os espíritos desencarnados. Isso não nos torna nem melhores nem piores. Por isso há que ter cuidado com a ingenuidade da frase "Não precisamos de ter medo, os espíritos não nos fazem mal algum, pelo contrário".
Assim, esperando que, pelo acima exposto, tenha conseguido explicar os motivos pelos quais, não se pode considerar que Alexandra Pais, ao contrário do que afirma, tenha tido uma consulta espírita nem as pessoas que a receberam sejam espíritas (espiritualistas sim)...
Alertando para o facto de que espírita é o adepto do Espiritismo (e que Espiritismo só há um: o de Kardec e mais nenhum)...
Sublinhando que, embora recorra à mediunidade com ferramenta de estudo, o Espiritismo não se pode restringir nem confundir com tal prática...
Recordando que o bom jornalismo não se compadece com a confusão de conceitos nem com a transmissão de informação falsa, procurando repor a ordem das coisas quando se cometem erros (porque errar é humano)...
... venho solicitar a rectificação dos conceitos erradamente introduzidos na reportagem e propor a publicação de um novo texto sobre a Doutrina Espírita a ser redigido pelos vossos jornalistas ou, a título gracioso, pela ADEP (Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal.
Peço-lhe, também, que faça chegar estas minhas palavras à jornalista Alexandra Pais, cujo contacto não é disponibilizado pela Happy Woman. É meu intuito, com elas, contribuir para o esclarecimento do verdadeiro conceito de Espiritismo e aguardar por uma posição intelectualmente honesta sobre assunto.
Alguns sites que recomendo como fontes de informação:
Associação de Divulgadores de Espiritismo em Portugal - http://adeportugal.org/mambo/
Associação Médica-Espírita da Área Metropolitana do Porto - http://www.ameporto.org/

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