Spiga

A Cada Dia Basta o Seu Cuidado

Não sou contra os Jardins de Infância. Eu mesmo frequentei um, que na altura se chamava creche. E gostei muito. Os meus pais trabalhavam fora de casa, e fui eu que preferi ir para a creche em vez de ficar em casa, com a minha avó. A creche era da Igreja Católica, mas não fazia triagem de religiões dos seus utentes - pelo menos que eu saiba. O que posso garantir é que nunca lá recebi qualquer doutrinação religiosa. Era um edifício grande e muito bonito, à maneira dos de Raul Lino, e tinha muito espaço à volta, jardim, pomar, horta, parque de diversões.
O que lá mais fazíamos era brincar livremente. Não éramos constantemente atormentados com actividades programadas, e, quando uma das senhoras pegava na guitarra para cantarmos umas cantiguinhas, era ao mais puro estilo Música no Coração! De outras vezes desenhávamos, modelávamos barro, ouviamos discos.
Recordo com muito gosto os almoços, e as toalhas de mesa de vinil com motivos gravados da série de banda desenhada dos Sobrinhos do Capitão. As cadeirinhas e as mesas pintadas de cores garridas ajudavam a abrir o apetite.

A instituição creche é uma bênção para os pais, que assim podem ir trabalhar descansados, sabendo que os filhos estão em segurança, e estão a brincar, que é a ocupação própria de quem tem entre 0 e 6 anos! E é uma bênção para os filhos, que estão muitíssimo melhor na creche que em outros locais onde não teriam amiguinhos, espaço, brincadeiras, carinho e segurança.
O que me arrepia é a visão estreitinha e distorcida de quem vê a creche como "pré-primária", como "preparação para as aprendizagens". Muitos pais meus amigos, cheios de orgulho, relatam-me que os seus rebentos de 4 anos já sabem ler, escrever, fazer contas, já sabem Inglês e Francês! E não o sabem por terem querido, mas porque a "pré" é "muito boa", e eles assim já vão para a escola a saber mais que os outros e fazem um brilharete!

Não é verdade. Assim eles já estão é mais fatigados que os outros. As "aprendizagens" da escola não são um fim! São um meio! Hoje em dia são muitos os pais que sacralizam a escola, a ponto de sacrificarem muito da infância dos filhos a "prepará-los para a escola", e de lhes suprimirem as férias escolares, fazendo-os alombar com a livralhada toda para a praia ou para o campo - nas escassas semanas que a modernidade ainda lhes concede de férias...

Nós não sentíamos a diferença da brincadeira na creche e nos quintais dos amigos ou na nossa rua. As férias eram férias. Era-nos permitido ser crianças, e nunca quiseram fazer de nós adultos precoces, cheios de preocupações e apreensões, armados para a "luta". Nunca nos disseram como já ouvi dizer a pais modernaços para os seus atónitos filhos:

- "Não sejas infantil!" (!!!!!).

Olhando os lírios do campo, que não fiam nem tecem e se vestem esplendorosamente, e as aves do céu, que não semeiam nem colhem e a quem não falta alimento, lembro o Evangelista Mateus:

“Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.” (Mt 6,34)

Não se trata de manter as crianças num limbo em que lhes sejam escamoteados os aspectos mais duros da vida. Trata-se apenas de as respeitar, de as deixar cumprir as etapas do seu crescimento, tal a Natureza determina, de não as adestrar para a competição doentia, mas sim para a cooperação harmoniosa.

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