Este que vos escreve vai ter a segunda-feira livre, entre o Domingo e a Terça-Feira de Carnaval. Não vou viajar, vou ficar por casa, e se a televisão quiser, darei uma espreitadela no Carnaval do Brasil, e apoiarei a Escola de Samba Beija-Flor.
Não sou carnavalesco, mas gosto de ver o Carnaval, de fora. Esta pausa de trabalho conto aproveitá-la para ler um pouco e dar umas corridas.
E foi o gosto pela corrida que me levou, ontem, a uma loja de desporto, para comprar uns calções, que os que tenho já estão no fio. Ao pé de mim, uma mulher da minha idade (idade para ter juízo), escolhia criteriosamente uns ténis. Pensei que se tratava de uma desportista. Mas não. Pretendia uns ténis que lhe dessem bom descanso aos pés, porque, nos dias do Carnaval, contava, se possível, não dormir, e tantas horas em pé, a dançar e a saltar, "incham-lhe os artelhos"!...
Dizem alguns sociólogos e psicólogos que o Carnaval é necessário, porque "liberta as tensões acumuladas". Será mesmo imprescindível enlouquecermos uma vez por ano para libertar as tensões? Esta mulher que se prepara para quatro dias sem dormir, a saltar, sob efeito de cafeína, talvez de cocaína, arrisca-se a perder a vida por exaustão e desidratação, em nome da "libertação das tensões acumuladas"?
O Carnaval, nas culturas Antigas da Europa, era uma festa que anunciava a Primavera. Terão sido os Romanos da época do Império, famosos pelos seus excessos de toda a ordem, que criaram o hábito de por estes dias fazer-se uma espécie de mundo às avessas. Dizem os historiadores que os criados se mascaravam de senhores, e os senhores se mascaravam de criados. Seria divertido para ambos, certamente. Para os senhores era um desfastio e uma experiência excitante. Para os criados era certamente um alívio, serem servidos, para variar.
Em Portugal subsistem festejos carnavalescos que vêm dos temos pagãos. É o caso dos Caretos de Podence, aldeia situada em Macedo de Cavaleiros, região de Trás-os-Montes. Jovens solteiros vestem-se com guizos e tapam a cara com máscaras que evocam os deuses pagãos, correm as aldeias em grande algazarra, arrombam as adegas e bebem o vinho, metem-se com as raparigas casadoiras.
No Brasil, à tradição europeia dos festejos do Carnaval juntou-se a exuberância, musicalidade e sensualidade africanas. O Carnaval brasileiro é variado, como o imenso país. O Carnaval da Bahia, marcadamente africano, é menos "comercial" que o do Sambódromo do Rio de Janeiro. Não será tão cartaz turístico, mas é, segundo os entendidos, o de mais valor cultural e artístico.
O Carnaval é sem dúvida pretexto para expressão da criatividade, na cenografia dos desfiles, na música, na dança, entre outras manifestações. Mas será de todo indispensável à condição humana toda a sorte de excessos que o acompanham? Há povos que não têm Carnaval, e não será por isso que são mais violentos ou mentalmente desequilibrados. Libertar tensões só será possível através dos excessos de álcool, drogas, noites em branco, irresponsabilidade sexual, da violência gerada pelas paixões em descontrolo?...
No mundo espiritual a folia carnavalesca também tem repercussões. Os Espíritos juntam-se aos homens para a celebração, e, quando há desequilíbrio de uma ou de outra parte - ou de ambas - estão criadas condições para sintonias perigosas.
Há qualquer coisa de triste no Carnaval, também. Há a tristeza agridoce do clássico Manhã de Carnaval, criação de Luís Bonfá e Antônio Maria, aqui na versão de Clara Nunes. E há a tristeza do excesso, que perde os homens, em outro clássico, a Cachaça Mecânica, de Erasmo Carlos.
Com votos de um Carnaval alegre, mas moderado, aqui fica a letra dessa criação fabulosa de Erasmo:
E até o santo ele vendeu com muita fé
Comprou fiado pra fazer sua mortalha
Tomou um gole de cachaça e deu no pé
Mariazinha ainda viu João no mato
Matando um gato pra vestir seu tamborim
E aquela tarde já bem tarde comentava
Lá vai um homem se acabar até o fim
João bebeu toda cachaça da cidade
Bateu com força em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso mas dançou desesperado
Comeu confete , serpentina e a fantasia
Tomou um tombo bem no meio da avenida
Desconfiado que outro gole não bebia
Dormiu no tombo e foi pisado pela escola
Morreu de samba , de cachaça e de folia
Tanto ele investiu na brincadeira
Pra tudo tudo se acabar na terça-feira


2 comentários:
19.2.09
Isso mesmo, tb vou aproveitar o Carnaval pra ler e me atualizar, mesmo estando aqui no Rio de Janeiro, prefiro ficar de longe.
Infelizmente não torço pra mesma escola, sou MAngueira, mas todas são lindas.
Recomendo vir ver um desfile aqui é inesquecível mesmo para os que não saõ muito de samba
Abçs
Bom descanso.
21.2.09
Espero um dia visitar o Brasil e ver o Carnaval aí no centro da acção :)
Ano após ano vejo o desfile na tv e fui ficando fã da Beija-Flor, mas tem razão: são todas lindas!
Creio que o mal não está na fsta do Carnaval, que é uma diversão e uma manifestação cultural, mas no excesso. Se somos materialistas no nosso dia a dia, vivemos o Carnaval de acordo com o materialismo, e aí é que estará o problema.
Abraço amigo,
A.A.
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