Spiga

"Se Eu Voltasse..."

António Frederico de Castro Alves (Muritiba, 14 de Março de 1847 — Salvador, 6 de Julho de 1871) foi um poeta brasileiro, nasceu na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de "Curralinho", hoje Castro Alves, Estado da Bahia. Suas poesias são marcadas pela crítica à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como "Poeta dos Escravos".

SE EU VOLTASSE...


... Tesouros de eloquência,

Arroubos de juventude,

sonhos febris de igualdade,

tudo frui, em verdade,

sorvendo amaritudes,

sem vender a consciência.


Amei, sofri, cri, fui louco,

tudo perdi, muito embora,

tivesse a luz na alma.

Noites insones, sem calma,

e das lágrimas que choras,

já chorei e não foi pouco.


Mas algo em mim se enleva

na lembrança do passado.

Não é o amor malsinado

de quem de mim se esqueceu!

Não são as juras solenes,

os colegas lá do Largo,

nem o público letargo,

que de pé, por mim, se ergueu!


Não são as serestas quentes,

do Rio São Paulo e Bahia,

que assim me compungiam

a cantar vigor na rua.

Não foram os rostos belos

das jovens que me sorriram,

e assim me seduziam

a alma sedenta e nua!


Não fora a mão do amigo

que me levou ao jazigo,

com um soluço magoado,

entrecortado e ferido!

Não fora a traição velada,

O esquecimento e o perdão,

Não foi o adeus na calçada,

Nem os beijos ao portão!


Se tudo me teve um dia,

encantado, amado,.crente,

ora, esta alma penitente

só se enleva ao lembrar,

os gemidos dos cativos,

na noite da escravidão,

o sofrer negro de um cão

a gemer e a soluçar.


Estes irmãos que da África

nos chegaram oprimidos,

vieram, findo o martírio,

do outro lado me esperar,

com lundus, cantos e falas,

abriram-se as senzalas,

e os meus negros em alas,

seus batuques a tocar,


pro moço que não se calou

no peito a dor que era deles.

Se eu cantei, Senhor, por eles,

o sofrer deles é m’ior!

Alma boa, humilde, escrava,

que embalou o meu berço,

que por mim rezou o terço,

em noites a delirar.


Ainda bem posso lembrar

minha mãe preta querida,

meu irmão de cor que a vida

tanto fez sofrer e amar.

Se algo eu fiz por eles,

meus amados, meus quereres,

tudo faria de novo,

se pudesse lá voltar.


Bahia de meus amores,

na própria fala tu cantas,

berço de heróis e poetas,

as tuas famosas festas,

as igrejas seculares,

teus quindins e teus altares,

no peito são-me lembranças

a doer e a encantar!


São Paulo do largo alegre,

dos jovens do São Francisco,

trabalho, amor e chuvisco,

correrias, trapalhadas.

cada coisa em mim palpita,

na lembrança de tuas salas,

os mestres, as doces falas,

e os repentes nas calçadas.


Mas se tudo é saudade,

e alegria no peito

e o que não tem mais jeito,

(voltar já não é possível)..

Vejo os negros no passeio,

livres, já os pés calçados,

dou por meus males bem pago,

inda que não aches crível.


Mas ainda, se eu pudesse,

Jesus, voltar aos teatros,

erguer os braços em brados,

para o povo me ouvir,

por certo, Jesus, ousava

falar de outra alma escrava:

a da criança perdida,

que na rua vi surgir.


Destes pés nus nas sarjetas,

as mãos a estender pedintes,

aos passantes que com acintes,

Delas se afastavam logo.

Eu gritava: Liberdade,

da miséria e da orfandade!

voltava da Eternidade

com o verbo ardendo, em fogo!


Diria: Brasil gigante,

amparai o passo errante

da criança abandonada!

E estendei na cruz do povo

a escola, o lar de um Covo,

casas de amparo ao infante.

É esta luta que garante

a era de um mundo novo!


Eu diria: Companheiros,

estes braços pequeninos

são as cruzes que espalhastes

nos vossos torpes caminhos!

Eu diria: Ide! Arrancai

do abandono a criança!

Dai-lhe a fé, a confiança,

para o futuro, marchai!


Eu diria: é uma vergonha

que tanta dor se interponha

entre Jesus e os felizes!

Se podeis marchar, avante!

Tendes na meta o infante!

Não pretexteis o cansaço,

que ontem foi forte o braço,

para criar infelizes!


Eu diria: é uma infâmia

o mendigo esfarrapado,

o moleque espoliado,

e a menina a se perder!

Se a criança é flor da vida,

ei-la aqui qual mendiga,

pisada, alheia, ofendida,

sem presente, nem passado!


Eu diria: Meu Jesus,

dai-nos a força e a coragem,

para vencer com vantagem

obstáculos transpor!

Tendo nos braços erguidos

estes corpos esquecidos,

jamais seremos vencidos

na força de teu amor!


Anjos do bem! Levantai-nos

para os dias de labuta,

que terrível é esta luta,

contra a miséria moral!

Somos novos combatentes,

pela infância oprimida,

daremos a nossa vida,

e a força do nosso Ideal!



Castro Alves

13/12/1977


A Psicografia é da nossa amiga Marilusa Moreira Vasconcellos.

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