
Não posso dizer que fico radiante. Mas também não me aborrece. Sempre que me atrevo a tomar parte em algum debate, e me assumo como espírita, não tarda muito que não receba a sentença habitual:
- "Vá fazer o seu proselitismo para outro lugar!".
É curioso, como entre os espíritos que se consideram mais abertos, mais vanguardistas, mais cultos e inteligentes, esta forma tão básica de conservadorismo se mantenha tão acesa. Acresce a isto que os que me enxotam como pessoa inferior e indigna de tomar parte na conversa, são muitas vezes os que se queixam de falta de liberdade de expressão. Se são crentes, queixam-se da crescente laicização da sociedade. Se são ateus queixam-se do inverso.
No bem-pensar vigente, o ateu é visto como uma pessoa culta, que já se livrou de temores e complexos medievais.
O agnóstico é visto como um ateu caridoso, que não assume a sua condição para não chatear os crentes.
Os crentes, por sua vez, são vistos como pessoas que podem até ser inteligentes, mas conservam uma tendência curiosa para se porem de joelhos nos templos. Possivelmente por via de algum gene defeituoso.
Os crentes não cristãos são vistos com bonomia, e respeitados na sua diferença. O que significa, em linguagem corrente não-modernaça, que são uns tipos patuscos e não vale a pena aborrecê-los por isso.
Os rosacrucianos, teosofistas, cabalistas, são pragmaticamente vistos como malucos.
Os evangélicos são vistos como fanáticos.
Os espíritas são vistos como uns patetas que acreditam em Espíritos.
Pessoalmente não me sinto nada incomodado com isso. Já dizia o outro que dizer pães ou pões depende das opiniões. E hoje em dia é de bom tom toda a gente ter opiniões. Há, por exemplo, quem tenha a opinião de que não existe impacto humano no clima, ainda que os cientistas e os factos digam o contrário. Mais alto se alevanta o direito sagrado à opinião! Ou ao disparate. É livre, não paga imposto, não acarreta consequências. Toda a gente tem direito à sua opinião. Menos os espíritas, claro. Nesse caso a opinião chama-se proselitismo.

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