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Parada da Paródia

A antiga revista dos Parodiantes de Lisboa, que se chamava Parada da Paródia, publicou uma vez um artigo ilustrado que satirizava a obrigação, então em vigor, de usar gravata, para entrar em certos estabelecimentos de diversão nocturna.
Numa página via-se um cavalheiro, sujo, de barba por fazer e outros pormenores condizentes; abandalhado, numa palavra. Mas com gravata.
Na outra página aparecia um cavalheiro garboso, impecavelmente barbeado, limpo, bem vestido, mas... sem gravata.
O cavalheiro de gravata, ainda que pouco apresentável, tinha entrada livre onde quisesse. O cavalheiro sem gravata, ainda que impecável na sua apresentação, não podia entrar!

E vem isto a propósito da recente proposta do Partido Socialista para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O Partido Social Democrata, pela voz da sua líder, há uns meses, afastou essa possibilidade, evocando argumentos do Catecismo católico. Agora, o Partido Socialista - que na altura também votou contra - vem propor a legalização, mas com uma condição: os casais do mesmo sexo não poderão adoptar. O que, bem vistas as coisas, continua a ser uma discriminação.

Se a Parada da Paródia ainda estivesse em actividade, poderia fazer um remake do supracitado artigo:
Teríamos portanto o casal A, constituído por pessoas do mesmo sexo. Ambos os membros têm uma sólida formação moral e cultural. São bons cidadãos, cumpridores, respeitadores, trabalhadores, tolerantes, psicologicamente estáveis, equilibrados. Para os dois maiores partidos políticos portugueses, não são dignos de casar, ou de adoptar, respectivamente.

E teríamos o casal B. Não trabalham, dedicam-se a negócios escuros, são violentos, malcriados, não possuem qualquer noção de cidadania, são totalmente irresponsáveis e desequilibrados. Podem casar livremente, podem ter os filhos que entenderem, e, se disfarçarem bem, podem até adoptar.

O Espiritismo tem por princípio não se imiscuir em política. E nós não somos versados nas subtilezas, complexidades e exigências da actividade político-partidária. Parece-nos, contudo, que os cidadãos homossexuais não devem ser discriminados, em nome de credos religiosos ou de conveniências eleitoralistas.

Do que se sabe hoje acerca da homossexualidade, é fora de questão que se trata de uma orientação sexual, e que não existem, absolutamente, razões para vedar a adopção por casais ou pessoas homossexuais. Por isso, e enquanto a alguns cidadãos for negado o direito à indiferença, sempre que virmos um político, no alto do palanque, a berrar slogans acerca de liberdade e democracia, reservar-nos-emos o direito de rir, e considerar tais demonstrações uma verdadeira Parada da Paródia.

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4 comentários:

jorge vicente

21.1.09

um fantástico texto a fazer-nos lembrar a importância da tolerância e da igualdade de direitos.

um grande abraço
jorge vicente

Isabel

24.3.09

Não sendo heterossexual, mas identificando-me com o Espiritismo, ler o conteúdo deste blog relativamente à homossexualidade faz-me sentir muito mais em paz comigo mesma.

Entristece-me que nem no seio do Espiritismo esta opinião seja a consensual... Já me disseram que era por não ser espiritualmente desenvolvida, o que me impedia de ver o erro em estar com alguém do mesmo sexo.

Agradeço-vos e espero que consigam a mudança de mentalidades tão desejada e necessária ao bem-estar de milhões.

João Eduardo

7.7.09

Ena, é por isso que eu gosto do que aqui se escreve.
Muito Bom texto. Quanto ao resto é pena que os políticos não pensam com a cabeça ! Os homofóbicos de gravata, são os mesmo do costume. Desconhecem a tolerância e preocupam-se em meter o nariz na vida das pessoas, quando esse não é o seu papel, mas sim criar condições éticas, culturais, para que toda a gente viva em paz e em perfeita harmonia. Já percebemos que se escondem atrás da capa do conservadorismo português, nem lhes chega o que aconteceu em Espanha. Espanha muito à frente ! Lamentável que este senhores que tem tanta vergonha em aprovar uma simples Lei...que depois são os mesmos que se passeiam pela net à procura de gays e/ou lésbicas para lhes satisfazer os caprichos em encontros fortuitos a troco de umas horas de prazer. Lamentável ! Mas como não somos perfeitos, esperamos que amanhã nasça um novo Sol e uma nova esperança para os excluidos deste país.

Angie

8.9.09

O texto é muito bom. Parabens

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