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Silly Season e Olimpismo

Tradicionalmente, nos países de língua inglesa, a silly season é um período em que, escasseando as notícias importantes, os media dão eco de acontecimentos de pequena monta e promovem polémicas artificiais.
Em Portugal o conceito pegou, e superou o original. Estamos em plena silly season, e os portugueses não deixam os seus créditos por mãos alheias. A indignação, desporto nacional por excelência, atingiu o expoente máximo com a actuação dos atletas portugueses nos Jogos Olímpicos de Pequim.
Marco Fortes, o lançador de peso, entrou para a galeria dos vilões nacionais por ter confessado que o seu organismo não está no melhor durante a manhã. Disse a verdade em público! Pecado imperdoável! E ainda por cima disse-o com o sentido de humor que lhe é habitual! "Está a gozar connosco!" - foi a reacção nacional!
Sucederam-se então as teorias da conspiração, que, resumidamente, punham o nu o plano diabólicos dos atletas portugueses:
- Teriam treinado e competido durante anos, teriam feito as marcas que lhes deram acesso aos Jogos, unicamente para viajarem de borla até Pequim e passarem dia e noite na borga! A comer e a beber!
Descontada a habitual obsessão nacional pelos "almoços e jantares", que, no imaginário colectivo é o mobile das grandes conspirações, e descontados os exageros de maus fígados descarregados para cima do Fortes, o que sobressaiu foi um gigantesco equívoco que tomou conta do linguajar popular e jornalístico:
A falta de profissionalismo dos atletas olímpicos!
Mas é suposto os atletas olímpicos serem profissionais? Foi essa a ideia do Barão de Coubertin quando lançou as Olimpíadas da Era Moderna? Não, de forma alguma!
Os Jogos Olímpicos foram pensados como uma jornada de paz, aproximação entre povos através do desporto, puro espírito competitivo valorizando a participação.
Acabaram por se transformar, muito rapidamente, em instrumento político, de afirmação "racial", em mega-negócio onde não há lugar para preocupações com direitos humanos, e em bode expiatório de frustrações nacionais.
Nação pequenina de 10 milhões de habitantes, totalmente convertida à religião do futebol, Portugal ignora olimpicamente o desporto que não de bancada. De quatro em quatro anos Portugal entra em obsessão por medalhas olímpicas, e crucifica todos os atletas que não as tragam. Ainda que os apoios financeiros anuais de um velejador não dêem para pagar um par de brincos do Quaresma.
Ironicamente, quase no fim das Olimpíadas, um salto de Nelson Évora arrancou uma medalha de ouro e transformou a catástrofe nacional na melhor participação olímpica de sempre: uma medalha de ouro e uma medalha de prata!
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Post Sriptum: estão quase a começar os Jogos Paralímpicos de Pequim, último reduto do verdadeiro espírito olímpico.

1 comentários:

ejsantos

1.9.08

Indignados? Porquê e para quê?
Aqueles que se indignam com a prestação dos outros, por acaso também se indignam com as suas próprias prestações?
É tão fácil estar sentado no sofá, a emborcar cerveja e a despejar arrotos e criticas...
Mas e arregaçar as mangas e trabalharem um pouco mais e melhor, por uma existência mais digna?
Para os profissionais da critica, parece que não é esse o caminho...

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